O futuro. Como Lula vai governar, com toda a (grandona) imprensa brasileira na oposição

Está-se diante de alguns fatos irretorquíveis. Um deles é que Luiz Inácio Lula da Silva é, segundo as últimas pesquisas disponíveis, e a nove dias do segundo turno, o virtual Presidente da República reeleito. O outro é que o novo mandato de Lula tende a ser marcado pela oposição da grande mídia nativa, a começar pelos jornais, passando pela televisão, e também pelas principais emissoras de rádio – os veículos por excelência formadores da opinião pública.

Diante dessas evidências, há quem discuta a governabilidade. E até avança por terrenos perigosos, inclusive para a própria democracia. Mas o jornalista Paulo Henrique Amorim, de credibilidade reconhecida ao longo de mais de 30 anos de profissão em grandes veículos de comunicação brasileiros, escreve interessante artigo no site Conversa Afiada, que ele edita.

Amorin traz um exemplo do passado, o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, e um do presente, o presidente venezuelano Hugo Chávez. Ambos, cada qual em sua época, enfrentraram e enfrentam extraordinária oposição dos principais veículos midiáticos dos dois países. No caso de Roosevelt, os jornais; no de Chávez, a televisão.

Amorim conta as histórias de ambos e diz como, no entender dele, Lula poderá enfrentar a crescente oposição da mídia brasileira. É um belíssimo exercício. Vale a pena ler. Confira:

”COMO GOVERNAR QUANDO TODA A IMPRENSA É CONTRA

Ou se faz como Hugo Chávez ou como Roosevelt. São as duas formas conhecidas de enfrentar a oposição de toda a imprensa, num regime democrático. Prefiro a de Roosevelt.

Explico-me.

“Na eleição de 1932, seis de cada dez jornais fizeram oposição a ele e Roosevelt acreditava que era vítima de um ódio profundo de donos de empresas jornalísticas, que distorciam as notícias para prejudicá-lo. As redes de estações de rádio, ao contrário, deram total colaboração… e o Presidente usou o rádio para atingir o público diretamente e explicar seus programas”.

(Paul Starr, The Creation of the Media – Political Origins of Modern Communication, Basic Books, New York, 2004, página 360)

A diferença entre a situação do Presidente Franklin Roosevelt e a do Presidente Lula, caso se reeleja, é um pouco diferente:

1) Todos os jornais são contra Lula;
2) Todas as revistas são contra Lula, com exceção da Carta Capital;
3) Todas as rádios são contra Lula;
4) E uma rede de televisão – a Globo – líder de audiência, sempre desempenhou um papel ativo contra Lula e os candidatos trabalhistas (por exemplo, Leonel Brizola) e agora reagrupou suas forças e aliados (o delegado Bruno, por exemplo – para derrotar o presidente Lula.

Roosevelt fugiu dos jornais – que, então, tinham muito mais força do que hoje – e se aliou às rádios.

Em troca, Roosevelt, ainda segundo Starr, manteve a posição privatizante dos governos conservadores de antes e deixou o rádio (e mais tarde a televisão) como uma indústria inteiramente privada, ao contrário do que aconteceu na Inglaterra, com a hegemonia da BBC, estatal.

O que extrair dessa lição?

Roosevelt teve a chance de dar a volta por cima pela tecnologia. Foi para outra mídia – o rádio – e deixou os jornais conservadores para lá.

E foi um campeão de reeleições.

Em abril de 2002, TODAS as redes de televisão da Venezuela conseguiram, por algumas horas, dar um golpe de Estado. Teria sido o primeiro golpe de Estado da televisão, na telinha – um golpe criado e realizado pelo que as redes mostravam na tela: o caos, a desordem, o desgoverno, a ingovernabilidade, a corrupção desenfreada.

Sem falar, é claro, da oposição da imprensa escrita.

Quais são os meios de Chávez enfrentar isso?

Segundo a jornalista Alma Guillermoprieto, num artigo “Don´t Cry for me, Venezuela”, publicado em The New York Review of Books, Volume 52, Numero 15, de Outubro de 2005), Chavez fez duas coisas:

1) Criou um programa dominical “Alô Presidente”, em que, às vezes, fica no ar o dia inteiro.
2) Interrompe a programação das redes de televisão, entra em cadeia nacional, sem avisar, e critica os telejornais que acabaram de ir ao ar.

Uma vez, Chávez interrompeu por quatro horas toda a programação da noite, inclusive as “telenovelas”.

Deixo de considerar aqui as soluções já exploradas por outros presidentes trabalhistas (ou aliados de trabalhistas), no Brasil.

Vargas, por exemplo, com a ajuda do banqueiro Walther Moreira Salles, estimulou Samuel Wainer a fundar a Última Hora.

Juscelino ajudou Adolpho Bloch na Manchete.

Brizola ajudou a Manchete e usava extensivamente a Radio Mayrink Veiga, no Rio.

Todas essas me parecem soluções politicamente irreproduzíveis, hoje, no Brasil. O Sindicato dos Bancários, no início do Governo Lula, cogitou de lançar um jornal nacional, mas a idéia nem saiu do papel.

A solução Chávez também é inconcebível.

O Governo Lula não enfrentou nem enfrentará a Rede Globo.

A relação de Lula com a Globo é a mesma de Tony Blair com Murdoch (sem comentários…)

E a solução Roosevelt – dar um salto tecnológico?

É a mais plausível. Usar a internet.

O Governo Lula é quem mais precisa de inclusão digital. Os sites de informação do Governo ou de instituições ligadas ao Governo na internet são de uma inépcia petista.

De uma maneira geral, os governos, os partidos (com exceção do PC do B) e os políticos brasileiros (com exceção de César Maia e Zé Dirceu) não sabem usar a internet. É o único espaço que…”


SE DESEJAR ler a íntegra do artigo, pode fazê-lo acessando a página Conversa Afiada, no endereço http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/395501-396000/395506/395506_1.html.



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