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Caso “dantesco” (3). O homem do furo de reportagem dá inigualável aula de texto jornalístico

Enquanto a Veja deixa de ser revista (e já faz tempo) e um de seus mais famosos colunistas, Diogo Mainardi, conseguem ser citados e acusados pela Polícia Federal (confira a sugestão de leitura, lá embaixo), um profissional consegue se sobressair. E ficar muito adiante dos demais. Morro de (saudável) inveja de Bob Fernandes – o que primeiro noticiou, no Terra Magazine, a prisão de um balaio de grã-finos, no início da semana passada.

 

Gostaria de ter as informações e o talento dele. E escrever o que ele escreveu, narrando a forma como Daniel Dantas foi ao xilindró pela segunda vez (depois seria de novo solto, por obra e graça de Gilmar Mendes, mas isso já é outra história) em menos de 12 horas. Vale a pena ler. É, sem exagero, uma obra-prima do texto jornalístico. Confira, na íntegra:

 

“O senhor está preso”, diz delegado a Dantas

Os intestinos do Brasil.

Duas e meia da tarde. Dez de julho. Avenida 9 de julho, São Paulo. Saguão do edifício 5519. O delegado da Polícia Federal sente um certo desconforto.

Algo difuso, mas Protógenes Queiróz não tem tempo para pensar sobre isso, processar exatamente o que é. Um jovem está à sua frente.

Terno escuro, gravata. O jovem é advogado, filho de um desembargador.

O delegado já pediu a um dos outros dois jovens delegados que o acompanham:

– Sobe lá, faça contato visual, veja se ele está aí mesmo.

Ele, Daniel Dantas, está. Na ampla sala de seu advogado, Nélio Machado, cercado por uma dezena de senhores. Quase todos advogados. Muitos, desembargadores aposentados.

O rádio chama. O delegado, no saguão, atende:

-Chefe, o home tá aqui!

Protógenes Queiroz desliga o rádio, informa ao jovem advogado à sua frente:

– Vim aqui cumprir um mandado de prisão contra o senhor Daniel Valente Dantas. Mandado expedido pelo senhor juiz Fausto de Sanctis.

– Mas ele foi libertado…

A argumentação do advogado é interrompida:

– Eu estou aqui, sem ninguém, com apenas dois outros policiais. Vocês estão usando gente da mídia para inverter os papéis, falam em “espetáculo”, como se fossemos bandidos… eu vim aqui, discretamente, para que fique claro quem são os bandidos…

O advogado busca tempo:

– …o senhor aguarde, por favor, o Nélio Machado já vai chegar…

O delegado sabe que o advogado já chegou. Daniel Dantas daria uma entrevista coletiva em seu escritório, em frente ao Shopping Iguatemi. Antes, uma rodada com advogados para enfrentar a audiência marcada.

– O doutor Nélio tem cinco minutos para chegar. Se não chegar eu vou subir e prender o seu cliente. E aí ele vai ser preso e algemado. Estamos aqui discretamente, para que vocês não falem em espetáculo, mas se vocês querem circo, terão circo. Vou chamar viaturas caracterizadas, a imprensa toda vai chegar, e aí vamos para o tudo ou nada. Escolha.

O jovem advogado toma o elevador, e sobe. Volta em 5 minutos:

– Falei com o Nélio, o meu cliente vai descer.

– Não, eu vou subir, vou até lá em cima verificar.

Antes de tomar o elevador, o delegado ordena aos dois comandados:

– Você fica aqui e você cuida da garagem…

Protógenes Queiroz está na ampla sala do escritório de advocacia. Diante dele, terno azul marinho, camisa azul clara, gravata azul entre os dois tons, Daniel Dantas arregala os olhos azuis, o rosto exibe sinais de cansaço.

Uma dúzia de homens, frente a frente. O delegado, barba rala, olhos avermelhados de quem não dorme há 4 dias, encara Daniel Dantas e dispara:

– O senhor está preso!

Silêncio e tensão na sala. Protógenes Queiroz avança:

-…preso por mandado exarado pelo excelentíssimo juiz Fausto de Sanctis..

Ergue-se um emaranhado de vozes, uma frase, com pequenas variações, brota do coro de advogados:

– …ele foi liberado por ordem do presidente do Supremo….o ministro Gilmar Mendes concedeu habeas corpus…

– O que o doutor Gilmar apreciou foi a prisão temporária, aqui trata-se de um pedido de prisão preventiva…

Daniel Dantas abaixa a cabeça, arqueia os ombros. Gesto secundado, nos segundos seguintes, pelo espesso silêncio da escolta de advogados.

Daniel Dantas, com um gole no copo d’água, toma um tranqüilizante.

Daniel Dantas, o ex-sócio do então maior banco do mundo, Citibank, da maior empresa italiana, Pirelli, dos maiores fundos de pensão do Brasil, o homem por trás de muito, de quase tudo que signfica poder, está preso pela segunda vez em 48 horas.

Os exames de corpo e delito foram feitos. Daniel Dantas está no IML, onde se cumpre a praxe.

O delegado Prótogenes Queiroz toma o pulso esquerdo de Daniel Dantas, o gesto é gentil. O próprio banqueiro do Opportunity gira o pulso direito, leva-o às costas.

O delegado segura os dois pulsos, nota a perfeição nos punhos da camisa azul de Daniel, percebe, enfim, o que o incomodava, difusamente…

Há 5 dias Protógenes Queiroz usa a mesma roupa. É preciso, ao menos, comprar uma cueca nova.

As algemas se fecham. Clic. Daniel Dantas está preso.”

 

SUGESTÕES DE LEITURA – confira aqui, se desejar, também ler outras reportagens de Bob Fernandes, no sítio Terra Magazine, do portal Terra.

Para conhecer o oposto, isto é, como a mídia grandona pode ser contra a sociedade, e alguns de seus integrantes simplesmente nefastos, confira a nota “PF acusa Mainardi e Veja”, publicada por outros dos grandes profissionais brasileiros, Luis Nassif.

 

 

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