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A vítima sempre vai ser vítima – por Daiani Ferrari

Em fevereiro, dois casos noticiados pela imprensa prenderam minha atenção. O primeiro foi do jogador de futebol do América mineiro, William Morais, morto com um tiro em um assalto, em Belo Horizonte. O segundo, o ex-árbitro de futebol Oscar Roberto Godói que foi baleado após uma tentativa de assalto em São Paulo.

Depois das revelações de que ambos teriam reagido aos ataques parece que passaram de vítima a culpados. Era como se dissessem “só foram baleados porque reagiram”. E disseram. Como se as pessoas fossem programadas para esperar por um assaltante. Modo 1: Em assaltos, não reagir. Modo 2: Somente reagir se o assaltante estiver desarmado. Modo 3: Quer reagir, tudo bem, mas a culpa será sua.

Ninguém quer ser assaltado. Nunca fui assaltada, mas acredito que a pessoa em uma situação dessas não tem tempo para avaliar prós e contras da sua reação. Ela simplesmente o faz, não raro, sem nem saber o que está fazendo. É impulsivo. Quem não quer defender o filho, o pai, a mãe, um amigo ou namorada e a si mesmo? E por que não perguntar, quem não quer defender o que com tanto esforço conseguiu, como carro, dinheiro na carteira ou a casa? Desculpa, mas eu me apego às minhas coisinhas.

Se um dia for assaltada e porventura reagir, com certeza será para defender a mim, aos meus e ao que é meu. E mesmo assim, continuarei sendo a vítima. Conheço essa história sobre não reagir, que a vida vale mais que qualquer bem, mas é da vida. Toda ação desencadeia uma reação. Adequada ou não.

Em geral, é o medo que nos traz esse impulso, nem sempre é a vontade de ser o herói da história. É ele que nos faz pular em cima de alguém que tem uma arma apontada para nossas cabeças ou que está entrando em nossas casas. A liberação da adrenalina na hora em que o medo chega é o que nos faz ficar, brigar ou fugir. Ou não ter nenhum tipo de reação.

Não é estrelismo, nem exibicionismo, tampouco vontade de salvar o mundo, como um super homem. É fisiológico. É natural. É sobrevivência.

O que não entendo é a transformação da vítima em vilã. E a imprensa faz isso. São títulos como “Depois de reagir a assalto, homem morre com tiro no peito”, “Vítima reage a assalto em São José do Rio Preto” ou “Homem morre ao reagir a assalto”. A pessoa merece a morte por ter reagido?

Até os próprios assaltantes já estão acreditando nessa inversão de papéis. Fato que prova ocorreu em 2009, em Minas Gerais, quando um senhor foi processado pelo ladrão que tentava assaltar seu estabelecimento comercial. A ação, com acusação de lesões corporais, foi suspensa, mas o meliante ainda tinha a intenção de processar a vítima por danos morais, por considerar ter sido humilhado durante o roubo.

Isso parece brincadeira, mas não é. O mundo caminha para a perversão… Aonde vamos parar?

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