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HISTÓRIA. Sim, Golpe de 64 teve apoio rapidinho na Câmara de Santa Maria. Mas teve, também, repulsa

Ata da sessão da Câmara de 11 de maio de 1964: telegrama comunicava a cassação do prefeito e vice legitimamente eleitos, Paulo Lauda e Adelmo Simas Genro. Era a ditadura
Ata da sessão da Câmara de 11 de maio de 1964: telegrama comunicava a cassação do prefeito e vice legitimamente eleitos, Paulo Lauda e Adelmo Simas Genro. Era a ditadura

Nesse momento em que a democracia impera no Brasil, e que as tentativas de interrompê-la vêm de lugares inusitados, embora fracos numericamente, é importante reavivar a memória de todos. Sim, convivemos, e não faz muito, com uma ditadura sangrenta: que impediria, por exemplo, essa publicação – para não falar nos torturados, mortos e desaparecidos e na absoluta falta de liberdade de expressão.

Mas, e isso também é importante, é fundamental lembrar que o Golpe facinoroso de 64 não foi apenas militar. Aliás, teve apoio ianque (externo) e de civis graúdos. Registre-se: não apenas banqueiros e a mídia (vide a “arrependida” Globo e também a Folha de São Paulo e gente próxima daqui), também de políticos com mandato aderiram rapidinho ao novo (e ditatorial) momento.

Não foi diferente em Santa Maria. Ah, não foi. Nesse contexto, é fundamental conhecer um pouco do que aconteceu por aqui. E o trabalho de conclusão de curso do agora bacharel em História Guilherme Catto cumpre muito bem esse papel. O título é “Disputa política e apoio civil ao Golpe de 64 no Legislativo de Santa Maria”. Diz tudo.

A pedido do editor, uma cópia do trabalho está disponível. Vale a pena conferir, oh se vale. A seguir, você tem um pequeno trecho – em que vai reconhecer nomes em evidência até bem pouco tempo atrás ou ainda hoje. Lá embaixo, há o linque para a íntegra. Acompanhe:

“…O Imediato Pós-Golpe

…As comunicações em relação à política nacional começaram a aparecer com mais frequência na primeira sessão após o Golpe Civil-Militar, no dia 3 de abril, depois de o presidente da Câmara, Valdir Aita Mozzaquatro, ter suspendido a sessão do dia 1º de abril e ter se colocado em estado de alerta por solicitação da bancada do PTB (KONRAD, 2006, p, 102). Podemos dizer que, nessa sessão, começou a se estabelecer a disputa entre o imaginário golpista e anticomunista representado no grupo liberal-conservador versus o imaginário trabalhista, ou nacional-estatista, contrário ao Golpe. No início das comunicações desse dia:

o vereador Eduardo Rolim [PTB], em comunicação de líder, afirmou da inconformidade de sua bancada ante o evoluir dos últimos acontecimentos políticos, dizendo da necessidade de um retorno às garantias individuais o mais breve possível. Qualquer postergação – afirma – invalidará o movimento que, em nome da liberdade derrubou um governo, e sustenta a mesma liberdade pela força permanente do poder armado.

Na sessão seguinte, o vereador Carlos Renan Kurtz protestava “contra o totalitarismo que se instalou no país”, além da censura a rádios e jornais e as “vistorias indiscriminadas em residências particulares, afirmando ter a certeza de que um dia, os responsáveis por esse estado de coisas, responderão perante a Justiça do povo”.

As manifestações dos dois vereadores eram tentativas de denunciar a falta de legitimidade do movimento golpista, classificando-o como antidemocrático e totalitário. Além disso, o vereador Eduardo Rolim, mais especificamente, chegou a afirmar que a demora no retorno às garantias individuais “invalidará o movimento”. Para Baczko, a disputa de imaginários opera muitas vezes “através de séries de oposições” (1985, p. 312), como, por exemplo, legitimar/invalidar. Tal qual ocorre nas notícias, artigos e editoriais expostos no capítulo anterior, a disputa entre os imaginários da Casa Legislativa foi basicamente construída em torno de séries de oposições, como a já citada, além de outras como: “justificar/acusar; tranquilizar/perturbar; mobilizar/desencorajar; incluir/excluir;” É necessário destacar, no entanto, que essas oposições “raramente estão isoladas, antes se articulam umas com as outras.” (Idem, p. 312). Levando esse aspecto em consideração, podemos dizer que, além de citar elementos que poderiam invalidar o movimento, o vereador também tentava “perturbar” a tranquilidade dos que haviam sido vitoriosos no dia 1º de abril. Em linhas gerais, a tentativa era de desestabilizar o discurso feito pelos golpistas. É necessário, no entanto, destacar que os discursos e as representações pertencentes a ambos os imaginários nada tem de “ilusórios”, são eles constituintes da realidade. São estratégias do manejo e disputa pela imaginação social, mas não se tratam de mentiras. Partem da “representação global e totalizante” (Idem, p. 309) que esses homens têm do momento que estão vivendo.

Cabe destaque também a manifestação do vereador trabalhista Moises Velasques: “afirmando que os três Presidentes que mais próximos estiveram do povo, foram derrubados por golpes de Estado: Getulio, Janio e Jango. Que se há comunistas no Governo que se os denuncie e prove as irregularidades que vinham cometendo…

…Nessa mesma ata, do dia 6 de abril, podemos ver a primeira manifestação efetiva de apoio ao Golpe Civil-Militar. Em resposta aos vereadores trabalhistas, manifestou-se o vereador Erony Paniz, da coligação UPS, filiado ao Partido Libertador. O vereador tentava desmentir o que foi dito pelos colegas, declarando “que nenhuma liberdade foi cassada, que nenhum direito foi cerceado, e para dizer que o governo democrático que se instalou visa erradicar o comunismo que vinha solapando a Nação”.

Aparece, nessa manifestação, um elemento de extrema importância para entendermos o imaginário defendido pelos vereadores do bloco anti-PTB na Câmara de Santa Maria: o anticomunismo. Como está bem referido em muitas obras sobre esse período da História do Brasil, o anticomunismo era o elemento base no “eixo discursivo” do argumento conservador. (KONRAD; LAMEIRA, 2011, p. 73). Dessa forma, o vereador Erony Paniz, procurava em sua comunicação não só refutar a argumentação dos vereadores trabalhistas, mas também justificar a necessidade do Golpe…”

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11 Comentários

  1. Caro Fernando,

    Se és historiador, mesmo sem diploma, deve saber que a História é escrita por pessoas que não viveram variados períodos. Ou tu pensas que as pesquisas sobre a Antiguidade Clássica ou Oriental se resumem aos relatos de quem viveu a época?
    Não, isso se dá através de pesquisas.

    Tu parece ignorar tudo o que eu disse para me responder. Assim como muitos pediram o Golpe (e o meu trabalho é sobre esses), muitos outros não eram a favor do Golpe. O fato da população pedir o Golpe não muda o fato de ser um Golpe e de ser uma Ditadura. Ditadura que matou milhares e desapareceu com outros tantos, ignorar isso é querem mentir sobre a História.

    Eu conheço a opinião de muitas pessoas sobre o que ocorreu em 1964, dentre eles o Vereador Eduardo Rolim, aqui de Santa Maria.

    De qualquer forma, obrigado pelas considerações. Grande Abraço

  2. vc me parece ser um jovem bacharel em História; certo? Também sou historiador (embora sem diploma, rsrs); mas este é um tema que me interessa bastante. No mais quero te parabenizar pela obra; mas só te peço um favor; procure conversar com quem realmente viveu aquela época (principalmente quem era mais velho; com 20, 30,40, 50, 60 anos em 1964); pois eu era ainda uma criança; e como sabe; o olhar de um guri geralmente é mais “impressionável” com as situações, rsrs. Grande abraço!

  3. Caro Guilherme,
    só uma pergunta; vc era nascido na época? Vc viveu nesta época (ao qual vcs costumam denominar “Ditadura Militar”)? Te pergunto, pq eu tinha 9 anos quando uma multidão (e isso aqui em SM) foi para a frente do quartel da antiga “3° Divisão de Infantaria” (com sede em Santa Maria) e EXIGIU que os militares tomassem uma ATIDUDE e garantissem a volta da normalidade institucional, a LEI e a ordem, pois isso aqui tava uma anarquia e uma baderna só;…te falo isto pois eu vivi esta época, fui testemunha!

  4. Excelente trabalho.

    Principalmente por lembrar nomes e sobrenomes que ainda atuam na política santamariense…
    Apenas a títula de contribuição todo o discurso político é precário, provisório e negativo. Como discurso de poder, ele precisa destruir um outro discurso concorrente para se afirmar. Construção de si e desconstrução do oponente, legetimar-se com base na deslegitimidade do outro.
    A razão e os limites do discurso político democrático é garantir, na disputa, a lógica da diferença como elemento fundamental da sua existência.
    o trabalho do Guilherme demonstra muito bem que, em ambos os lados, a disputa política suprimiu a lógica da diferença para impor um verdade sobre os eventos do golpe.

  5. Sobre o site ser tendencioso: todo discurso é tendencioso, todo mundo defende uma posição. Lamentável é a postura de quem não sabe aceitar opiniões alheias, como ocorreu entre 1964 e 1985. Um abraço. E agradeço que tenha feito a leitura do meu trabalho.

  6. Caro Fernando,

    Sim recorri aos jornais da época para a produção do texto. E sim, sei que muitos apoiaram o Golpe (sim, foi um Golpe), o meu trabalho é justamente sobre isso. Nenhuma ordem democrática foi restaurada, não importa o que tenha sido dito na época. Havia uma ordem democrática que foi rompida. Se foi dito na época que o Golpe foi uma recurso para se manter a democracia isso foi feito para que as pessoas acreditassem que o Governo João Goulart não era democrático, o que é uma mentira. O Presidente João Goulart havia sido legitimamente eleito e resistiu a uma tentativa de Golpe já em 1961. Os que o derrubaram não tinham compromisso nenhum com a democracia e isso foi explícito nos 20 anos seguintes. Os que derrubaram a democracia só tinham medo do povo ter acesso a uma democracia de verdade, uma democracia ampliada e não uma meia democracia, muito parecida com a que vivemos hoje.

  7. Lamento que este site (no qual aprecio e recorro quase que diariamente para acompanhar as notícias políticas da cidade), seja tendencioso,…e queira mostrar sempre uma “meia-verdade”; sem quase nunca recorrer as notícias e aos jornais da época;…lamentável!

  8. Tenho 58 anos, e me lembro bem desse dia em abril de 64; quando muitas pessoas desceram a Rua Dr. Bozano, com cartazes agradecendo as Forças Armadas por garantirem a volta a normalidade e a ordem democrática. No final da Bozano foi montado um palanque onde lá estava além do bispo santa-mariense, vários militares da guarnição da cidade e tb o locutor oficial e “pró-golpe”, Dr. Mariano da Rocha Filho (o fundador e idealizador da UFSM)

  9. Notícias do jornal “A RAZÃO”, edição do dia 17 de abril de 1964: *Vibrante manifestação sem precedentes na história de Santa Maria para homenagear as Forças Armadas. Cerca de 50 mil pessoas na Marcha Cívica do Agradecimento.*

  10. Parabéns mais uma vez Claudemir pela importância histórica em apresentares a obra do Guilherme Catto.
    Principalmente em tempos onde os neoliberais e a grande mídia conservadora que apoiaram o GOLPE de 64 estão sentindo-se completamente perdidos nas urnas e, a cada dia que passa arregimentam saudosistas da ditadura e meia dúzia de coxinhas para tentar um outro GOLPE contra a nossa, ainda frágil mas que será vitoriosa, DEMOCRACIA.

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