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Enquanto a banda toca – por Márcio Grings

Ele fecha os olhos. Ficar no escuro o deixa ainda mais imerso no filme que ele construiu dentro da sua cabeça. Quantas pessoas estão na sua frente? Mil? Duas mil? Três mil? Pelo barulho elas estão confortavelmente espremidas dentro daquele inferninho. Devem estar se acotovelando. Cheiro de cerveja e perfume. Com certeza alguém deve ter acendido um cigarro de menta no backstage. “Os sentidos ficam mais aguçados com as pálpebras cerradas”, ele pensa.

Quando chega o momento do solo, o guitarrista desliza o slide pelo braço e tem a sensação que os movimentos puxaram o freio de mão. Tudo fica em slow motion. Entreabre os olhos por uma fração de segundos e vê o baterista todo suado com a camisa aberta até o umbigo e espancando caixa e bumbo com a cabeça baixa. Uma delícia curtir o som borrado do chipô. Parece um cozinheiro aprontando o rango em fogo baixo, colocando um pitada de cada tempero no tempo certo. Assim o músico vai articulando com cuidado o som que é produzido pelas suas mãos.

Fecha os olhos de novo.

Nem precisa ver o baixista para saber que ele está plantado no canto esquerdo do palco. Baixo é que nem juiz de futebol, quando aparece demais, alguma coisa não está bem no andamento do jogo.  Sonora e cenicamente falando, os baixistas que me perdoem. O famoso baixo burro, que caminha de forma sincopada, na ponta dos dedos. N opinião dele, não importa quem é o assistente e quem é o Chef, a coisa ‘tá rolando legal na cozinha. Massa!

A canção parece que coloca o povo em estado de prontidão. Quem nunca não sofreu uma decepção amorosa na sua vida? Músicas têm o poder de condensar a vida e suas sensações momentâneas em quatro ou cinco minutos. As vezes até menos. Tudo fica encapsulado naquele espaço de tempo. O vocalista dispara o verso final que chega rasgando depois do solo. Toda a dinâmica baixa e o público se cala como se o homem com o microfone fosse um pastor em plena homilia. É  quando o guitarrista abre os olhos. Aí tudo fica tristemente mais claro. Balde de água fria.

O lugar é muito pequeno, não há mais do que duas dúzias de pessoas ali, parte delas está inclusive virada de costas para a banda. Não, ele não está espremido num espaço reduzido que nunca poderia ser chamado de palco! Não pode ser verdade!

Na real, sempre funcionou assim para ele. Fecha os olhos e se imagina num filme. Pode estar em qualquer lugar. Inclusive, bem no escuro de seus pensamentos ele já colocou os pés nos melhores lugares do gênero. Tudo radiografado diretamente dos vídeos e fotos. As grandes casas noturnas, ginásios e estádios que receberam lendárias apresentações da história da música, sim, ele já esteve lá.

De olhos abertos, a realidade é dura. Tocar na cenário em que está inserido, não passa de um passo em falso a cada noite. Sempre se avança aos tropeções. E o pior: a queda não te mata, bem pelo contrário, parece que um vício é alimentado. Como um homem sendo tatuado que aprecia a dor e o barulho da agulha que cirurgicamente rasga a pele. Não há glamour em carregar toda aquela parafernália e desmontar tudo no final de cada apresentação. E o cachê nunca paga aquilo que foi consumido. Sim, não dá nem pra bira e pro fumo.

É aí que entra a mágica. Sempre que toca com os olhos fechados, o filme que roda dentro dele é classe A. Quando o “The End” aparece na tela, ao tocar o último som, rapidamente recolhe seu equipamento e chama um táxi. Sai à francesa e não se despede de ninguém. Ao chegar em  casa, enforca o banho, rapidamente tira a roupa e se agasalha debaixo dos cobertores.

Só então fecha os olhos, e assim o filme da sua vida fica bem mais interessante.  Em preto & branco, claro. Nada de ‘visu’ tecnicolor. No próximo sonho ele vai se apresentar no Royal Albert Hall. Até lá.

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