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O conceito de Justiça sobre erro médico e Medicina – por Ricardo Jobim

Após trabalhar em diversos casos de alegado erro médico, na condição de profissional que acompanhou tantas angústias decorrentes da simples existência de um processo, resolvi ousar tecer algumas breves considerações sobre o que anda acontecendo no campo da responsabilidade profissional.

Poderia abordar uma infinidade de aspectos. Quem sabe escrever um livro técnico que ninguém, a não ser juristas que atuam em Direito Médico, se interessaria. Quem sabe divulgar novamente dados estatísticos sobre a especialidade mais exposta ou então sobre a judicialização da área da saúde, assunto que tornou os profissionais da saúde não só tensos, mas também desmotivados.

Mas o fato é que quase todos os processos decorrem de incompreensões. De ânimos mal administrados, de expectativas sobre processos empáticos mal sucedidos. De uma psicologia verificada em ambientes onde as tragédias são diárias, os desgastes são infinitos, e onde os profissionais precisam ser objetivos e valorizar a ciência acima de tudo.

Não deve ser fácil ser médico. Lidar com emoções supremas, interagir com esperanças e fé, lutos e negações de pacientes e familiares, conviver todos os dias com os extremos da vida e da morte.

E ter que ser humano ao mesmo tempo.

Lembrar o juramento de Hipócrates, chegar em casa cansado, se olhar no espelho, e ter que conviver com a sensação de impotência que a ciência traz – a certeza de que fazer o possível ou o recomendável pode não ser o bastante.

Não ter bola de cristal. Não ser capaz de ser um super-humano. Conviver com estruturas arcaicas, muitas vezes tendo a horrenda tarefa de optar por sacrifícios em nome de prioridades, numa insanidade de abandono estatal que só pensa em política ou em trazer gente desqualificada de fora do país.

O que vejo é uma exigência social que demanda uma Medicina exercida por Deuses, e não por humanos.

E uma política que usa uma classe profissional inteira como bode expiatório para desviar outros focos, como a palhaçada no senado no caso da emenda 29, ou o abandono da saúde pública aliada da intenção de exterminar a saúde privada.

E uma sociedade que se rende a qualquer argumento simplista de um especialista de Google, que não consegue entender que somente anos de estudo e dedicação podem proporcionar iluminação científica.

Ao fim é isso. Os críticos realmente acham que ninguém é bom. Que todos têm a obrigação de uma cura como se tratasse de um simples conserto de computador.

Quando a única verdade é que os maiores críticos somente surgem, com suas bolas de cristal, depois que os fatos ocorrem. Assim é fácil.

Espero que algum dia a sociedade possa ver no profissional da Medicina, e da área da saúde em geral, a verdade: uma pessoa com uma nobre missão. E que entrega sua vida em nome disso. Nada mais, nada menos.

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6 Comentários

  1. Li o artigo mais de uma vez, para buscar um bom julgamento do memo. Noto que há uma busca de defesa do médico baseada em uma “exigência social” e em uma busca de “iluminação científica”, garantindo ao médico o título de “uma pessoa com uma nobre missão”.
    E quando o erro médico faz com que a pessoa, depois de um ato cirúrgico, fique o resto dos seus dias com dores? Com limitações de movimento? Que, por sua condição de vida, seja obrigada a voltar ao trabalho para assegurar seu sustento e é demitida justamente por que seu desempenho é menor que 50% de antes da cirurgia? Que esta pessoa ainda tenha 5, 10, 15 anos de vida profissional útil e que estes foram jogados ao lixo por um erro médico?
    O que falar de um erro médico em que se opera, por exemplo, um órgão e você sai da cirurgia sem movimenta um membro que não tem absolutamente nada a ver com aquele órgão?
    Sim, são pessoas com nobre missão que também cometem estes erros. Sem dolo, mas os comentem. Ninguém que não seja um sociopata sai de casa pensando em fazer o mal a qualquer pessoa. Mas os erros existem e tem que ser enfrentados. Se eu bato meu carro no de outro, eu tenho que arcar com o meu prejuízo e o de quem eu bati. Existem ferramentas para minimizar estes prejuízos (gerência de risco). Basta querer investir no tema.
    E quando o médico se escuda na argumentação de que o erro médico “é um resultado inerente em um procedimento como o que você passou” e trata você só como paciente, não como pessoa, como ser humano? Só quer saber de sua melhora física e não quer saber o que ela causou na sua vida? Não quer saber em como poder lhe ajudar em algo que esteja fora desta “iluminação científica”?
    Prezado Ricardo Jobim, meu feedback à você: falta em sua análise, em minha opinião pessoal, investir mais na extensão de visão além do paciente no erro médico.

  2. As manifestações muitas vezes são sufocados por sentimentos de constrangimento, de sensação de impotência, e de demonstração de poder dos nossos oponentes mas gostaria muito de ver este tema debatido, em amplo e democrático espaço, pois precisamos desmistificar a instituição médicos/medicina e analisar juridicamente e socialmente a conduta de cada integrante de uma situação de erro medico, negligencia e ate mesmo exercício da eutanásia, o que apesar de ilegal e imoral é amplamente praticada sob a calada do silencio, vitimando inocentes e pretensiosamente beneficiando autores financeiramente …… Caro Claudemir eis uma oportunidade única de fazeres algo por pessoas e seus parentes/amigos que estão sendo submetidas a este expediente. Sei que estou lutando sem o menor certeza do êxito, sem ter ninguém ao meu lado, mas por favor abra este diálago, sei que não é fácil, mas é preciso, sei que sou infinitamente fraco em relação aos oponentes mas preciso fazer e convidar todos e a você pois minha consciência assim me exige ……

  3. O que é a verdadeira Justiça ?

    Meu questionamento já persiste por horas, dias, semanas, e já se passaram meses. Qual é a verdadeira justiça, aquela dos homens onde somos julgados em tribunais terrenos ? Ou será a justiça divina da qual temos que aguardar, e que o julgamento não se faz imediato e ainda nos isentamos de qualquer responsabilidade sobre acusação e o resultado em questão ? Sempre formei juízo ao avaliar pessoas que cometeram alguns delitos, mas sempre eram pessoas muito distante de mim. Mas agora ? Como eu posso me investir de um juízo diante de alguém tão próximo ? E minha fé ? E meus filhos, como posso eu julgar absolvendo quando entrego para Deus ?, ou condenando quando denuncio aos homens ? Minha fé diante disto balança, pois todos me falam em perdão, mas devo perdoar a todos que estão encarcerados ?, A todos que cometeram delitos ? E as vitimas não merecem meus sentimentos e consideração ?Sentimentos, ah estes sentimentos !!! não me deixam dormir, descansar . . . Sentimentos de culpa pela indecisão, sentimentos de dor pela perda, sentimentos de solidão pela responsabilidade de ter que assumir uma posição controversa, e o sentimento do nada do vazio, quando vejo alguém com extrema frieza, a quem sempre me dediquei e acreditei. Meu mundo terreno diante disto balança, como posso eu viver com alegria, entusiasmo, em um planeta onde não conhecemos nossos próprios parentes de sangue, onde o que impera é o quanto pode se ter de vantagem, onde o dinheiro compra dinheiro, e vidas . . . Bem as vidas não tem valor ….. O que ensino aos meus filhos ? O que posso esperar de meu presente ? E de minha fé ? pois é de minha fé …. Acabo de descobrir que a expressão irmão dentro de uma religião em 99% dos casos é somente pro forma, pois na hora de ter que avaliar serão sempre dois pesos e duas medidas ……. Estou só, estou triste, estou desiludido, que a justiça de Deus me perdoe e que a justiça dos homens se faça presente . . .

    A alguém que já partiu e para alguém que ficou

  4. E quando todas as condições são oferecidas e mesmo assim não são colocadas em prática, ou seja, simplesmente manda pra casa com um remédio pra dor sem fazer exame sequer e alguem na casa dos 20 anos tres diaz depois morre. É o que? Fatalidade? É dificil nao é de acreditar nisso.

  5. quis ter a curiosidade de ler o artigo e não me decepcionei, fiquei muito grata com as palavras do Jobim, como enfrentamos batalhas diárias em situações conturbadas, sem estruturas adequadas de trabalho, muitas vezes só nos resta rezar e pedir ajuda divina pois estamos um pouco sem esperanças de dias melhores, de melhores condições de atendimento ao ser humano. só quem trabalha em plantões tem a noção do que é ter que decidir quem tem direito ao atendimento que nem sempre é o ideal,mas o que tínhamos para o momento. só que ao contrário do que espera-se somos tidos como preguiçosos, incompetentes, imprudentes, desumanos, incapazes de resolver todos os problemas até a falta de dinheiro para comprar medicamentos. agradecer é algo que raramente escutamos e quando as pessoas o fazem, somos surpreendidos pois não é a regra e sim a exceção. obrigada pela força. katia

  6. Qual o tamanho de nosso poder ?

    Estamos sempre usurpando nosso poder, sempre pretenciosamente julgando a tudo e a todos. Mas realmente ate onde podemos exercer esta atitude que foi delegada por nós a nós dando plenos, irrestritos poderes sobre a quem ou a que julgamos a aplicação destes ?
    Fico a pensar e em uma busca de respostas, flutuo entre duvidas, pode um profissional do alto de sua graduação e de suas especializações usando do poder que a ele lhe foi conferido somente por ele, julgar a dor ou o tempo já vivido para determinar a morte de alguém ? E a nós podemos ?
    Quantas e quantas vezes dizemos esta sofrendo precisa descansar …..
    Estamos cientes do tamanho das consequências deste ato ? E estou salientando o fato somente de expressar a opinião ….
    Quantos menos esclarecidos, quantos mau intencionados, quantos influenciáveis, logo concordarão ?
    Temos-nos a responsabilidade de formar opiniões sinceras mas
    responsáveis, precisamos colaborar para que todos evoluam em sua vida, o dever de manter a felicidade compartilhada não se da somente nas horas de congraçamento festivo e sim nas horas que realmente estamos em um eminente perigo de desconforto, de perturbação emocional, de duvidas entre o certo e o errado.
    Mas por um minuto se quer, é dado à oportunidade daquela pessoa sob julgamento o seu desejo manifestar ?, Expressar sua vontade ?, Sua decisão ?, De exercer o seu poder inquestionável do qual foi outorgado por ela e para ela ?
    Em muitos casos e me atrevo a concluir que na grandíssima maioria não.
    A nossa pretensão, a nossa arrogância, e a nossa inacreditável sede de exercer o mando tirano sobre nossos semelhantes ofusca o amor, a dignidade, a honradez, a fraternidade e a compaixão . . . .

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