Consciência Tranquila S/A – por Márcio Grings
Ele pensa em coisas que o deixam feliz. Roupa de cama limpa. Cheiro de amaciante na gola da camisa. Aroma de café. A visão do campo de junquilhos. O pote de vidro repleto de biscoitos de amendoim. Em dias frios, meias que sobem até um pouco abaixo dos joelhos. Em dias quentes, sandálias de couro bem abertas. Uma Heineken no fundo da geladeira pronta para ser estourada no início da noite. Arroz com charque & figos. O barulho do trem da meia noite. Um LP do Grateful Dead girando no toca-discos. Um bom filme num domingo em que a chuva não para de cair.
Segunda de manhã curtindo um ócio criativo. Pegar a estrada de madrugada e assistir o sol nascendo no horizonte. Gaitas Hohner em corpo de madeira. Pinheiros fazendo sombras chinesas no muro. Amplas sacadas de frente para o mato. Nuvens encobrindo o sol só de vez em quando. O voo do gavião sobre o telhado vermelho escuro. Estúdios de rádio com cheiro de mofo. Microfones antigos de fita. Estante de livros e centenas de dorsos com títulos e autores.
Sim, existem coisas até bem estranhas que o deixam com aquela sensação de contentamento. Uma avenida movimentada sem movimento. Pipoqueiros e suas carrocinhas estacionadas em meio ao burburinho. Um pastel frito na hora por uma senhora que parece a sua tia que se foi faz um tempo. Vendedores de algodão doce e seus cataventos fazendo chamarisco. Letreiros antigos que lembram os anos 1970. O baque do jornal ao cair no quintal molhado de sereno. Filhotes de gatos zoando na cozinha. Barulho do vento entrando pela janela do banheiro. Uma taça de café preto logo depois do almoço.
Uma boa companhia para falar uma bobagem qualquer e lhe coçar as costas. Taças de chá fumegando na mesa da avó. Talheres de prata reluzindo como joias. Unhas pintadas apontando para algum lugar fictício. Salas de parquet bem enceradas. A Bíblia da família aberta sobre a mesa no capítulo de Levítico. Varandas com lajotas verde antigas. Fotos de parentes mortos em preto & branco. Caldo de feijão com pimenta da braba. Passarinhos, lagartos e pessoas usufruindo do butiazeiro. Tomates caseiros suculentos. Grama aparada de quinze em quinze dias. Trabalhar sem olhar para o relógio.
Tudo fica numa boa quando ele se esquece de dar aquele bico no saldo da conta bancária. Afinal, todos nós precisamos de muito pouco para viver. Thoreau já dizia isso há cento e cinquenta anos e pico, e mais da metade do planeta não aprendeu a droga dessa lição. É incrível! Quem ainda acredita em contos da carochinha que nos levam até os palácios da fortuna e da luxúria? Você? Eu não…
Ele pensa em outras coisas que o deixam feliz. Não há tempo para lamúrias nesse mundo que nos atropela com a velocidade de um foguete. Aconteceu faz uns dias, agora todos os finais de semana, resolveu praticar o ‘nadismo’. Não quer mais ser encontrado, por isso, desliga o celular e não se conecta a coisa alguma. A não ser ao chamado de uma vida pronta para ser vivida. Vestiu a camiseta de sua nova empresa: Consciência Tranquila S/A. Abandonou a culpa e passou a usufruir da benevolência do Criador.
Coloca os chinelos e vai para o fundo do terreno arrancar os inços e liquidar com as formigas. Depois saboreia uma bergamota colhida no pé. Sentado na sombra de uma árvore e sem pressa alguma, é claro. Rindo sozinho, numa espécie de júbilo incompreensível aos olhos de muitos.
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