Life in a fast lane – por Márcio Grings
Oh, oh… A embreagem está fazendo um barulho estranho. Mesmo assim ele não se importa, afinal, já segue bem adiante da metade do seu destino. Nada o faria parar. Lembrou-se de Senna em 1991. O piloto venceu o GP do Brasil tendo apenas a sexta marcha nas últimas 10 voltas. Aquele homem avança estrada adentro com faróis altos furando o negro de uma noite sem lua. As visões das marcações no asfalto ululam como serpentes brancas e amarelas. Há um bom tempo ninguém cruza ou obstrui o ímpeto daquele motorista de seguir em frente. O automóvel devora o asfalto;
“Hotel California”, o disco, toca repetidamente faz mais de três horas no CD player do carro. Sempre que chegava ao início da segunda estrofe de “New Kid in Town” ele se une a Glen Frey e seu bando:
‘You look in her eyes, the music begins to play’.
Tem um monte de gente sem noção que diz que o Eagles é uma daquelas bandas de apenas um som. ‘“Quanta estupidez”, fala alto em plena reflexão. O volume no talo ensurdeceria qualquer um. Não ele. Quem se importa? Faz coro ao restante da letra enquanto o barulho do motor é abafado pela música.
O celular ilumina sinalizando uma nova mensagem. Olha no relógio e vê que já são mais de três da matina. “Quem seria àquela hora?”, se pergunta franzindo a testa. Desencana, deixa o aparelho no console sem mover uma palha para tirá-lo do limbo. Começa a chover. Uma chuva fina que não chega a ser um empecilho para uma suposta diminuição de velocidade. Ele segue em alta rotação. Então… Sabe aquela curiosidade filha-da-puta? Pois é, fica pensando quem seria o(a) autor(a) da tal mensagem de instantes atrás. Inclina-se e segura o aparelho com a mão direita enquanto o outro membro se mantém firme no volante.
O acelerador não reclina. Baixa os olhos e tenta visualizar a tela do telefone. Simultaneamente percebe um pequeno animal atravessando a pista. De relance, parece uma lebre. Rapidamente solta o aparelho e coloca a mão no volante desviando intuitivamente para a direita. Freia bruscamente e quando aciona a embreagem percebe que ela foi pro saco.
TLEC!
Tarde demais.
O automóvel desliza lateralmente e…
CRASH!
(…) bate no lado oposto dele. Aquele barulho característico assinado por um estrondo seco. O carro se espatifa num gigantesco pinheiro localizado as margens da rodovia. Baque violentíssimo que parece arrancar sua cabeça do lugar. Além do evidente estrago no lado direito, o para-brisa dianteiro se esmigalha em milhares de fragmentos cortantes que explodem bem no meio da cara do motorista. Como estava de boné, partes dos confetes de vidro param na aba e rebatem no teto.
Cospe uma meia dúzia de cacos. Constata que a cabeça ainda não foi arrancada do seu corpo. Isso é bom. Sentindo-se um pouco tonto, gira lentamente o pescoço ao mesmo tempo em que percebe um gosto de sangue na boca. “Life in a Fast Lane”, faixa três do CD ecoa alto pela noite.
‘Life in a fast lane / surely make you lose your mind Are you with me so far?’
A chuva aumenta e ele não consegue soltar o cinto de segurança. Desiste. Esboça um sorriso, cospe um pouco de sangue e pensa na comédia barata que é a droga de vida em que está confinado. Começa a rir alto enquanto seus dentes são tomados pela cor vermelha. Ele não consegue conter o riso. Eis que a lua salta detrás de uma nuvem e dá uma espiada naquela cena tragicômica.
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