Artigos

Um dia da caça, outro do caçador – por Márcio Grings

Entro pela porta da frente e atravesso todo o corredor sem cruzar com vivalma. Um som toca baixinho vindo de algum lugar. Desço um lance de escadas e chego até o local onde estão os LPs. Um gato descansa sobre uma pilha de vinis sem capa. Do alto do seu pedestal, o bicho parece não se importar com minha presença. O sol distribui raios opacos por entre uma báscula empoeirada e ilumina o rosto do bichano que continua de olhos fechados. O cheiro de mofo irrita momentaneamente. Coço o nariz, troco a bolsa de ombro e coloco a mão na massa. Reconheço a música que vaza pelo ambiente: “Love Me Two Times”, do Doors.

Enquanto escorrego os dedos pelo acervo, o dono da loja passa por mim e dá bom dia.

“Tem um toca-discos nesse canto”, diz apontando o dedo para o aparelho sem olhar nos meus olhos. “Se quiser, pode pegar o teu material e ouvir. Fica a vontade”, conclui o coroa com cara de quem acordou faz poucos minutos.

Como possível comprador, agradeço com um quase imperceptível movimento de cabeça e continuo sujando os dedos. Fico irritado quando não há organização específica. Deve ter uns dez mil discos naquele cubículo. Tudo completamente aleatório como um baralho na mão de um crupiê.

Enquanto folheio uma parte onde parecem estar os vinis nacionais, um casal desce o degrau e se junta a mim no garimpo de álbuns.

“Olha esse Caetano, será que ele não ia gostar desse?!”, diz a garota.

“Tá detonado, Carol”, responde o rapaz. Ela tira o disco da capa e constata que o troço ‘tá toco riscado mesmo.

Parece que estão procurando um presente. De canto de olho reparo que o cara pega um LP capa preta e começa a olhar com mais atenção. Enquanto isso, a garota afaga o gato. Aborrecido pelo infortúnio, o animal pula para outra estante e derruba uma pilha de compactos de oito pegadas.

O dono da loja ouve o barulho e briga com o gato:

“Chewbacca! Desce daí, capeta!”.

A moça diz que ela foi culpada. E está certa, afinal, importunou e interrompeu o sossego do animal. O dono do bicho abre a porta dos fundos e o tranca lá fora. Vejo de relance que há um pátio diminuto ali. O rapaz aproveita a cruzada do coroa e pergunta:

“Como faço para saber o preço dos LPs”.

“É só olhar nessa tabela grudada na parede”. Ele espia o papel e conclui:

“Então esse Secos ao vivo tá vinte contos?”

“Sim”.

Secos & Molhados ao vivo? Aonde? Deus, como não eu vi esse troço?! O moleque puxa a grana da carteira e sai saltitando dali com a namorada irradiante a tiracolo.

“Ele vai adorar!”, fala a garota com um sorriso gigantesco no rosto.

Perdi. Nunca fui bom nesse negócio de desencavar tesouros. Escuto o barulho do gato arranhando o calabouço onde está confinado. Vou até a porta e liberto o bichano. Ele passa roçando seu corpo nas minhas pernas e pula para a pilha de compactos onde estava antes da garota acordá-lo.

Eu me lembro de “Our House”, uma balada de Grahan Nash. Ah, falando em canções românticas, ontem foi o Dia dos Namorados. Essa é uma das mais belas músicas que narram a rotina de um casal. Tenho esse som em “Déjà Vu”, LP de Crosby, Stills, Nash & Young. A letra é muito simples, mas não menos bela. Um deles acende o fogo, o outro põe as flores no vaso, poemas sendo entoados a noite toda, um quarto aconchegante, janelas iluminadas e gatos passeando no quintal.

Hum! Eu tenho quatro gatos em casa. Troca a bolsa de ombro, coloca o fone nos ouvidos e resolve pegar o rumo da rua. Atravessa o corredor e chega até a porta. Nenhuma vivalma acompanha sua saída do recinto. Um dia da caça, outro do caçador.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo