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Tempo da delicadeza – por Liliana de Oliveira

Confesso que sou apaixonada por Chico Buarque. Especialmente pela música Todo Sentimento. Vejo nela a mais linda declaração de amor. Vejo nela a delicadeza daquele que reconhece o fim de uma relação e que se retira a fim de preservar aquilo que um dia existiu. Em tempos de tantas indelicadezas, alguém prometer te querer até o amor cair doente e preferir, então, partir a tempo de se desvencilhar da gente é de uma delicadeza extrema.

Há tantos casais que não reconhecendo o fim da relação enfrentam humilhações, angústias, sofrimentos. Insistem em permanecer. Insistem em ferir, magoar, humilhar. Insistem em fazer esquecer os motivos pelos quais um dia se apaixonaram.

Não reconhecer quando uma relação chegou ao fim nos faz indelicados com o outro. Indelicadeza que aparece na falta de cuidado com aquilo que se diz, se faz, se pensa. Nada mais indelicado e invasivo do que impor ao outro uma presença que ele não quer. Nada mais indelicado do que não respeitar a vontade do outro e insistir em sustentar aquilo que é insustentável. Nada mais indelicado do que achar que é possível amar pelos dois como se isso fosse uma grande prova de amor quando na verdade é manifestação extrema de egoísmo. Nada mais indelicado do que pretender dizer ao outro o modo como ele deve viver. Nada mais indelicado do que não permitir ao outro ser feliz na companhia de outra pessoa.

Por isso, reconhecer o fim ainda é amor. Pode parecer paradoxal dizer que acabar uma relação com quem se ama ainda seja uma manifestação de amor. Mas é que continuo cantarolando Chico e logo me vem à mente que “amores serão sempre amáveis”. E aí percebo que neste reconhecimento do fim há uma amabilidade, uma generosidade. Neste reconhecimento há o respeito por si e pelo outro. Reconhecer que uma relação chegou ao fim significa aceitar que nem tudo fica para a posteridade. Significa aceitar que estamos nos dando novas oportunidades. Significa desistir do outro porque talvez isso implique em não desistir de nós. Significa que um dia possamos nos reencontrar no tempo da delicadeza.

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
 

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
 

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
 

Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu

 

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