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Precisamos falar sobre maternidade – por Bianca Zasso

É tempo de Oscar e lembranças são inevitáveis. A cada cerimônia realizada pela Academia, os cinéfilos do mundo inteiro temperam seus papos com os melhores apresentadores, as roupas, os discursos e, em especial, as injustiças.

De Touro Indomável, de Martin Scorsese no início dos anos 80, até a inspiração noir de L.A. –Cidade proibida, de Curtis Hanson, a lista de filmes que passaram despercebidos pelo homem dourado só aumenta. Um dos últimos a integrar este time foi Precisamos falar sobre o Kevin, da diretora Lynne Ramsay.

foto bianca zassoLançado em 2012, o filme caiu na boca do público por causa da intensa interpretação da atriz Tilda Swinton, na pele de Eva, uma mãe que leva um relacionamento complicadíssimo com o filho Kevin. Engana-se quem pensa que estamos diante de mais uma produção focada no conflito de gerações. Esqueça as discussões rebeldes e a sensação de “ninguém me entende”.

Kevin não está para brincadeira. Seus olhares são destruidores e atormentam sua mãe. Aliás, a vida de Eva começa a entrar num ritmo decadente a partir do momento em que ela descobre estar grávida. Esqueça o desejo da maternidade, o instinto de proteção da cria. Eva, antes um mulher livre, dona de si, ganha um ar cansado, como se tivesse acabado de sair de um campo de guerra. Seu inimigo: o pequeno ser que habita seu ventre.

Precisamos falar sobre o Kevin toca em uma ferida escondida. A mulher conquistou seu lugar na sociedade mas algumas ainda sentem-se intimidadas para admitir que não desejam ser mães. Foi-se o tempo em que a maternidade era destino certo. Tornou-se uma escolha. Filhos não são indispensáveis. O filme de Ramsay conquista até o espectador mais radical, já que mostra o sofrimento de Eva ao assumir uma condição que ela não deseja de uma forma poética e forte, sem sentimentalismos.

Tilda Swinton não força a barra na interpretação em nenhum momento. É certeira, acreditamos em cada atitude sua, mesmo que não seja muito confortável ver uma mulher preferindo o barulho das britadeiras ao choro de seu filho. O mundo ao redor de Eva não ameniza seus problemas. As barrigas acariciadas por futuras mães nas ruas e o marido que parece viver em um mundo à parte são um peso extra no cotidiano da protagonista.

Não só pela presença de um crime dentro da trama, o vermelho é a cor que se destaca dentro da paleta de cores de Precisamos falar sobre o Kevin. Nada passional como o vermelho de Almodóvar, mas os tons mais cotidianos presente nos tomates, nos detalhes da casa e no sangue, seja o que vem do parto ou do peito ferido à bala. É um peso aos olhos que afeta o espectador mesmo depois do fim da sessão. Mais do que impacto visual, o filme choca pelo significado de suas cores. Nada carinhoso, diga-se de passagem.

O Oscar é conhecido por ser um prêmio conservador. As piadas tentam ser engraçadas e muito dinheiro e regalias rolam nos bastidores em busca de uma estatueta. Precisamos falar sobre o Kevin pode não ter obtido seu lugar na lista de indicados por falta de grana ou de influência dos seus produtores. Mas é de se pensar que a Academia mantém vivo alguns preconceitos e não se sinta à vontade para premiar uma mãe que não consegue amar o seu filho incondicionalmente.

Precisamos falar sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin)

Ano: 2012

Direção: Lynne Ramsay

Disponível em DVD e Blu-Ray

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