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A música perdida de Frank Sinatra – por Márcio Grings

A juventude termina aos 35 e a terceira idade começa aos 58 anos. É isso que afirma uma pesquisa realizada pela Universidade de Kent, na Grã-Bretanha. Conforme os autores do estudo, os 23 anos entre as duas etapas da vida equivalem ao que os especialistas chamam de meia-idade. Faço 45 em setembro, ou seja, há 10 anos sou um homem de meia idade. Daqui a 13 anos adentro na tão temida velhice. Conclusão: dancei bonito! Cada vez mais rápido, a areia escorre pela ampulheta. Como uma flecha a favor do vento, eu percorro há um bom tempo a espiral descendente da existência humana. Meu filho tem 15 anos, em cerca de 10 anos, até avô eu devo virar. Inacreditável.

Existem alguns sintomas que pode denunciar toda essa história de meia idade. Vou usar um exemplo bem específico: de uns anos pra cá, virei fã convicto de Frank Sinatra. Você imagina um moleque de 15 ou algum cara de 20 e poucos ouvindo The Voice?  Difícil, né? Pois é, eu parei de ouvir meus LPs do Deep Purple faz uma pá de anos e desde então furo indiscriminadamente o vinil de “Watertown”. Esse é aquele disco que o Sinatra chora as pitangas depois de ter levado um pé na bunda da Mia Farrow. Na verdade, não é bem isso, mas dá pra fazer uma analogia. Pensando bem, é isso mesmo. Ele tava tri-descornando. Ponto.

márcioO engraçado é que sempre gostei do velho Old Mafia ‘Blue Eyes’. Essa semana, inclusive, aconteceu algo que me motivou a escrever esse relato. Contradizendo tudo que disse antes, desde muito jovem, sempre gostei de ouvir Sinatra. Claro que essa empatia não se concretizava na compra de discos, fica fácil eu afirmar que na época minha onda era outra. Bem, o ano era 1985, a rádio era a extinta Cultura FM, de Santa Maria, e ao final de um bloco musical, eis que toca um som matador do velho. Lembro que fiquei tonto com aquelas orquestrações, o arranjo de metais, as viradas de bateria, e claro, a voz do homem. Matador o negócio. Com toda minha ingenuidade de iniciante, reconheci ali uma canção estupenda.

E eis que quando acaba o bloco musical o locutor não diz o nome do som… Ãh, como assim? Porra! Puta que pariu! Fiquei louco. Encurtando a história, em anos e anos de busca, nunca mais me deparei com aquele dito som. Com o passar das décadas, e foram 30 anos até essa semana, comprei diversos discos, baixei arquivos, garimpei na casa de amigos, e nunca mais ouvi a tal canção do rádio que rolou numa manhã de inverno de 85. Até que… Na última terça-feira, escrevendo um texto para o jornal A Razão, e pesquisando sobre o relançamento de “Watertown”, dei uma vasculhada na discografia do Sinatra nos anos 1960, e coloco pra tocar certo álbum (que não conhecia) chamado “Cycles”, de 1968. E quando chega penúltima faixa, acontece a mágica.

Reconheço a minha música nos primeiros segundos. A bateria no início, a voz, eu disse “a voz”, a levada desesperada e firme da melodia, as cordas, os metais, o refrão:

“You are my way of life / the only way i know / you are my way of life / i’ll never let you go”.

“The Way of Life”, esse era o nome do tema composto por Bert Kaempfert. Quanta urgência. Quando gravou esse som, Sinatra tinha 52 anos. A tal meia idade. Em menos de quatro anos, segundo os estudos, ele seria um homem idoso. Ao perceber que tinha encontrado meu tesouro desaparecido, fiquei sem ação. Parei tudo o que estava fazendo, desliguei o PC (isso depois de ouvir umas 10 vezes o troço), vesti meu casaco, coloquei a viola no saco, peguei a chave do carro e meio desasado fui pra casa.

O que mais me apavorou foi ter constatado que aos 14 anos, eu estava certo. Aquela música era foda demais. Possivelmente minha crise da meia idade tenha começado ali, ainda quando garoto. Quem acredita em estudos científicos e pá? Tá tudo errado comigo! Mentalmente tenho 28, corpinho de 24, na certidão 45 (em setembro), e uma alma velha, mas tão velha, que muitas vezes nem eu me aguento. Bem-vinda realidade.

Obrigado, Frank!

 

 

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Um Comentário

  1. Consegui o cd de Cycles depois de muito garimpar. É uma viajem maravilhosa. Ouvi a primeira vez em um disco de minha mãe, tinha 10 ou 12 anos: paixão imediata! Obra prima.

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