RESISTÊNCIA. A democracia, na UFSM, muito deve a um grupo que fazia política e se divertia, nos 70’s/80’s

RESISTÊNCIA. A democracia, na UFSM, muito deve a um grupo que fazia política e se divertia, nos 70’s/80’s - resistênciaSão 250 os integrantes do grupo “Resistência”, inicialmente fechado e depois tornado público por seus administradores, no Feicebuqui. Trata-se de um conjunto de pessoas que, no final dos anos 70, início dos anos 80, foi responsável por uma luta fundamental no interior da UFSM: a volta da democracia – ao País, de uma forma geral, e à Universidade, particularmente.

O editor fez parte desse grupo. Se orgulha muito dessa história. E o texto que começa agora será, com a devida vênia do leitor, em primeira pessoa. Sim, porque no momento em que você está lendo isso, acontece em Porto Alegre, na Sociedade de Engenharia, o primeiro encontro do grupo. E uma chance muito rara de reencontro de gente que tem em comum um incrível apreço pela democracia. E que, com todos os riscos da época da ditadura, lutou muito pela democracia. Bem diferente dos que hoje (e há gente bem perto de nós) que imagina a volta do período sombrio, em que falar era um risco, escrever era risco dobrado e agir, bem, isso podia significar a perda do emprego, a prisão ou o “desaparecimento”.

ANOS SOMBRIOS. MAS, CÁ ENTRE NÓS, DIVERTIDOS

Não se trata de inventário. Seria muita pretensão e há intelectos bem mais privilegiados e, sobretudo, informados acerca daquele período. Com a licença dos que chegaram (e foram bem recebidos) mais tarde, vou me fixar nos primeiros anos. Entre 1977 e 1980. Os primórdios da “Resistência”. Termo que deu nome à chapa vitoriosa no primeiro pleito direto para o DCE da UFSM, em 1979.

Aliás, chegávamos de um encontro em Piracicaba. Congresso da UNE. Cerca de 80 pessoas. Se alguém sabia, não me contou. O fato é que ao descer do ônibus, na Professor Braga, em frente à CEU 1, os muros estavam tomados de cartazes colados. Esse mesmo, que virou camiseta e é o selo desta nota. Mais nada. Nem precisava. Sabíamos. E nos emocionávamos. Era uma vitória e tanto que se avizinhava, contra uma chapa com o resto (e o rosto) da Direita estudantil, representada pelo nome, veja só a aleivosia, “Levante”.

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Aramis (com o chimarrão) e parte do povo da Resistência, algumas horas antes da festa

Se fazia política estudantil com alegria. E muito mate, como naquela madrugada em que redigíamos um panfleto na casa do Pedro Osório e o Beto São Pedro (hoje militante sazonal e muito preocupado com a arte da pesca) cevava com prazer. E isso mesmo com os riscos que muitos de nós, eu inclusive, não percebíamos. Sim, vivíamos uma ditadura. Não fazia muito Wladimir Herzog fora assassinado. Colegas eram chamados a se explicar. A eleição, até ali, era indireta. E acabávamos de formar o primeiro Diretório Livre na instituição. O do Direito. DLD. Uma afronta. Da qual me orgulho. Estava lá, como estudante do curso. E uma porção de companheiros, inclusive o falecido Marco Genro.

Mas o DCE era a meta. E foi alcançada. Com folga. Gilberto Lang, que imagino esteja na festa, foi o presidente. Estudava Medicina. E militava no Centro de Ciências da Saúde. Werner Rempel, hoje vereador, também. E muitos mais, cada vez menos em silêncio, porque a hora não era para vacilações. Fomos à luta. E vencemos.

Mas, quem éramos? Que fazíamos? O que propúnhamos? Ora, o fim da ditadura era o objetivo estratégico. Mas, ali, naquele instante, o que interessava era liberdade nas universidades. De organização estudantil, inicialmente. Parece pueril, nos dias de hoje. Mas era fundamental, na época. E a gente sabia disso. Como sabe agora.

Era um grupo que se espalhava pelos diversos Centros de Ensino e na FIC. Sim, a Faculdade Imaculada Conceição, embrião do poderoso Centro Universitário Franciscano, a caminho de se transformar em Universidade. Lá estava o Aramis Teixeira. É de quem me lembro. Um baluarte da luta pela democracia naquele enclave em que a Direita era soberana. Pouca munição, mas muita coragem.

Obviamente, não conseguirei nominar todos. Perdoam. Mas alguns lembro especialmente. Como o Estilac Xavier, da Engenharia. Loooonge, o maior planejador de campanhas eleitorais (em qualquer nível) que conheci. Estrategista. Fundamental na estrutura informal que existia. Afinal, lideranças conhecidas eram alvo fácil da ditadura.

Aldo Fornazieri. Um formulador nato. Que estudava Física – que jurava ser a maior das ciências. Se bem que hoje ele é cientista político e professor, onde parece mais à vontade. Do mesmo curso, um polemista dos bons. Denis Rossowski, a quem vi há alguns anos, num café em Santa Maria e me fez retornar agradavelmente no tempo.

Rubens Pazin, de Nonoai, mas hoje engenheiro em Canoas (com o Abel D’Ávila e o Chico Brauner), não fugia a tarefa alguma em favor da causa maior. E a lista iria longe, incluindo muitos que se integraram já no início dos 80, quando eu estava já na Comunicação Social. Como a querida colega e amiga, e uma das organizadoras do regabofe que se desenvolve na capital, Rita de Cácia. O pessoal das artes, como a Salete Mafalda. Do Direito, como o querido João Pedro Lopes Jacobi (ele ainda é brabo, como às vezes era?). E tantos mais, que não lembro o nome ou a face, ou vice versa, mas moram sempre no meu coração que ainda não desistiu da democracia, muito pelo contrário.

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Carlson Aquistapasse, Pazin e Rita. Se a festa está boa, muito se deve a eles, da organização

Mas… e a política, fora do âmbito da Universidade? Taí algo que em algum momento haverá quem estude. Mas o fato é que todos éramos do MDB. Sim, o pluripartidarismo só chegou no final de 79 e os partidos estavam apenas se formando. Muitos eram até do Diretório Municipal (eu inclusive, como suplente). Depois, para onde foram todos?

Grosso modo, parte continuou, agora no PMDB, entre eles os emedebistas históricos ou por influência de sua própria organização, como os do “Oito” do Heitor Peretti e do Werner Rempel, que depois iriam para o PT, até a criação do PPL, partido pelo qual Werner é vereador e pretende concorrer a prefeito. Um grande grupo iria para o PT. Mas também havia os que se filiaram ao PCB, ao PC do B, ao PTB e ao antigo PSB. Como também havia os que passariam a militar de outra forma, na sua profissão. Isso, hoje, neste preciso momento, é absolutamente irrelevante. Não sei qual a posição de todos que se encontram na Sociedade de Engenharia, na capital. Não importa. Como não importava na época, diante do que era fundamental: derrubar a ditadura. Isso só foi obtido anos adiante, mas a partir de ações como aquela, aqui na UFSM, por um grupo de guris que prezavam a Democracia, se diziam e faziam Resistência.

PARA FECHAR, TRÊS HISTORINHAS (e tantas outras se poderiam contar e certamente são ditas, à base de boas gargalhadas e algumas “polares”).

1) Uma de minhas primeiras referências, e que (ele não sabia, até agora, se estiver lendo este texto ou alguém contar) acabou sendo um dos fatores que me levaram a trocar o Direito pelo Jornalismo, é Pedro Luiz da Silveira Osório. Atualmente professor na Unisinos, pai de jornalista (como eu, veja só) e ex-presidente da Fundação Piratini.

Pois o Pedro, em uma palestra a que compareci, de enxerido, foi perguntado sobre como era fazer jornalismo nos tempos da ditadura. Como agir, diante da situação? E ele respondeu, mais ou menos com essas palavras: “a gente vai empurrando a porta. Vai levando. Enquanto deixarem, a gente fresteia. Até que bate em algo. Aí, a gente para. E espera para empurrar de novo”. Creia, Pedro, com todos os defeitos que eu possa ter como cidadão e jornalista, é assim que ajo, até hoje, na profissão que abracei.

2) Essa outra história é difícil de contar, nesses tempos do “politicamente correto”, mas vou correr o risco, de pronto pedindo perdão às meninas. Trata-se de uma eleição para o DLD. Quem sabe o João Pedro Jacobi também lembre. O Marco Genro, precocemente falecido e grande batalhador, namorou uma moça muito feia, mas muito feia mesmo. E, sobretudo, reacionária. Muito reacionária. O nome não digo, porque eventualmente tropeço com ela na cidade e não acho que isso ficaria bem, pra mim ou pra ela. Mas o fato é que o namoro durou dois meses e um dia. Terminou na divulgação do resultado da eleição.

3) Talvez o Aldo Fornazieri não lembre. Mas não esqueci. Estávamos ambos em Alegrete, na casa de meus pais, que nos acolheram. O Aldo com aquela seriedade toda. Eu com a minha bolsa a tiracolo de crochê (sim, eu usei isso) e meu pai desconfiado. Ele era candidato, não lembro se a presidente, da UEE, e estávamos em campanha. Fomos corridos da Fundação Educacional do Alegrete pelo padre José Rubens Pillar, de extrema-direita, que dirigia a instituição (hoje, acho que é a pública Unipampa, mas à época tirava todos os caraminguás dos alegretenses que se dispunham a cursar o ensino superior) e se tornaria prefeito e deputado (pelo PDS, claro). O “dono” da FEA era um general. E ficamos na calçada, falando com alunos. Experiência inesquecível. E que tinha a marca daqueles tempos duros. Mas também muito divertidos.

Estou muito chateado por não estar na festa. Mas, ao mesmo tempo, bastante feliz por ela estar acontecendo. Na próxima eu vou. E lembrarei (com vocês) de outras histórias.

 



12 comentários

  1. Zeca

    Legal ver todos vitoriosos…bons carros, roupas burguesas (Adidas,…) lutaram para serem burgueses nos 2000.

  2. Rose

    E devem estar envergonhados com os escandalos deste governo e de seu lider que eles ajudaram a construir e a eleger.

  3. Massa

    Parabéns. Tenho profundo apreço por quem lutou, combateu ou simplesmente trabalhou pelo retorno da democracia naqueles tempos. Já pelos que defendem aquele período de exceção, tenho o mais absoluto desprezo.

  4. Luiz Felipe Schervenski

    Hoje a Fundação Educacional de Alegrete é a URCAMP…
    Fiz parte desta organização estudantil em Bagé lá por 83 e nesta época fundamos grupo aqui no Alegrete… hoje o tempo são outros, mas sinto saudades daquele povo … não bem não fui a festa, mas gostaria de ter ido ….

  5. Zeca

    Estariam se juntando para Resistir está nova tirania de maus de 12 anos? E que se listra tão corrupta e privadora de liberdades.

  6. Carlos Alberto Zappe

    Desculpas Prezado Claudemir, como sabes participei do movimento estudantil da UFSM entre os anos de 77 e 80, mas entretanto SEMPRE lutei pela minha independência partidária, bem como do DACTEC (Diretório Acadêmico do Centro Tecnologia) quando fui presidente do mesmo em 1978. Tenho minhas simpatias e algumas identidades partidárias, mas filiação ou submissão à partido político: desde NUNCA. Por pensar e agir assim, nem sempre "me dei bem" com a totalidade dos meus parceiros, mas tínhamos a aprovação da enorme maioria dos estudantes de engenharia.
    Complementarmente gostaria de informar ao tal "José" que o tempo de se esconder atrás de codinomes já passou para os "homens" de bem.

  7. Runildo Pinto

    Pois é! Sobrou, só festa, para esse pessoal da Resistência. Não sobrou um à esquerda dessa turma. Todos viraram uns pequenos burgueses da social democracia reformista e neoliberal. Resistência de ontem, defensores da ordem burguesa, hoje. Dos saudosismo ao vazio político da ordem.

  8. João Érico Lucas Coelho

    No Direito, o DLD iniciou com uma comissão de trabalho formada pelo Pedro Jacobi, Iara Bonilha, Marco Genro, Luiz Henrique Vasconcelos e João Érico Coelho. Na gestão da Resistência, com Gilberto Lang, o Direito foi representado por Luiz Carlos Dalla Picola e João Érico, como acadêmicos assessores Jurídicos

  9. jose a f davila

    Amigo Claudemir: Peço a gentileza de retirar a observação (língua dura) do texto acima.

    NOTA DO EDITOR: teu pedido é uma ordem. Aliás, já cumprida. Grande abraço ao amigo.

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