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De onde sou – por Alice Elaine Teixeira de Oliveira

aliceQuantas vezes já ouvi a pergunta: de onde você é? – Como se a resposta atribuísse mais caráter ou valor a minha pessoa ou como se um lugar contasse minha história ou quem eu sou e me tornei…

De onde sou ou de onde venho? Venho daqui do torrão de terra na qual todos pisam. Venho do chão lavrado e judiado. Venho de onde todos nascem. Sou um mero aglomerado de matéria igual a todo mundo e que possui todos os elementos da superfície deste mundo.

Mas, sim, nós damos nomes às pessoas, aos animais e aos lugares e as pessoas querem e desejam saber o nosso passado. Para mim calhou de eu decidir sair de dentro do ventre de minha mãe num lugar específico, entre tantos. Cresci, também por ali. Mas, para o meu bem, mudei-me diversas vezes de lugar e aprendi a ser andarilha sobre o solo que me constitui. Tornei-me aprendiz do povo da terra!

E continuam a perguntar-me de onde sou e eu respondo com convicção. Sou daqui e dali. Tenho por base a cultura do sul de um país enorme, quase um continente inteiro. Adquiri o sotaque da miscelânea de onde já passei, andei, chorei e vivi. Aprendi a ouvir os sons característicos de cada lugar, mas antes de me acostumar a eles eu ria e estranhava, hoje eu os compreendo mais atentamente e com admiração de detectar neles o som de outros países que não este no qual nasci.

Enchi meus olhos com as paisagens pelas quais já observei. Rios e mares, barragens e açudes, pedras e areia, terra e campo, ribanceiras e penhascos, estradas em vai e vem e aquelas de um horizonte sem fim. Quanta coisa linda de se ver e admirar neste mundo. Acompanhei as rosas se abrirem, uma tico-tico que alimentando seu filhote chopim chorão, as lagartixas banqueteando-se nas vidraças.

Também perturbei meu coração com as visões indigestas do lixo, da destruição, do fogo que consome campos, casas, matas e animais. Vi a cicatriz da erosão, que abre um corte enorme na face do campo antes produtivo, mas mal cuidado. Caí na poça suja e negra das sarjetas das grandes cidades e nada pude ver em meio à neblina escura e fumacenta das indústrias. Chorei com o cardume de peixes mortos arrastados pela correnteza e nunca poderia imaginar que um rio da cor do chocolate cheirasse tão mal e fosse tão repugnante.

Eu recebi a benção de assistir a chegada do sol, pela manhã, com esperança e bater palmas com o esplendor de sua partida, à tardinha. Senti o cheiro da chuva chegando e o frescor da brisa que ela traz consigo. Vislumbrei as cores da luz divididas sobre o prisma das gotas após as tempestades. Ouvi o canto dos pássaros em alvoroço em seus ninhos.

Basta eu olhar para o alto em noite límpida que vejo em minha volta a imensidão que banha o lugar de onde sou. Quantos pontos brilhantes iluminam o meu sonhar de todos os dias por aqui. E, mesmo quando o céu se cobre de algodão, ele é belo e magnífico. É lindo o luar e o ninar das águas que o reflete.

Quando fecho os olhos e liberto meus outros sentidos, ouço o ruído do eixo do planeta, sinto o cheiro do capim e da terra molhada, percebo o calor das pedras quentes nos dias de inverno, o fluir da vida ao meu redor, o frescor do orvalho nos pés descalços e paz do balançar das árvores em festa.

Ainda queres saber de onde sou? Já não sou mais de um lugar só! Adquiri um pouco de cada lugar e absorvi a cor, o tom e o sabor por onde andei. E, até agora e por todo tempo que eu viver, continuarei adquirindo as características peculiares de cada lugar. Hoje sou melhor do que ontem e um pouco menos do que amanhã, mas continuarei sendo de onde todos vieram, de onde também vem quem me pergunta de onde sou…

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