Humanidade doente – por Orlando Fonseca

Pode ser que com a profusão de morticínios violentos, perpetrados por gente comum – sem ficha policial, sem antecedentes de reações abruptas, radicalismos ou defesa intransigente de ideologias –, dentre ilustres figurões da classe abastada, ou ilustres desconhecidos da classe trabalhadora (assalariados ou desempregados) nós, um pouco mais bestificados a cada notícia, vamos perdendo a virtude de nos surpreender e indignar com mortes estúpidas. Nas últimas semanas, fomos sacudidos com as notícias de um ricaço, do alto de um dos mais vistosos hotéis de Las Vegas, metralhando uma multidão de espetadores inocentes de um show de música country; e de um vigia de escola que, de repente, adentra a sala de uma creche, no norte de Minas Gerais, esparrama combustível sobre crianças e professora e depois ateia fogo em tudo, incluindo ele mesmo. A nós resta apenas a indagação: o que leva o ser humano a um estado tal de desprezo pela vida humana?

Não há dúvida que as redes sociais, e outras mídias – cinema, televisão, games – banalizaram a violência, colocando diante dos olhos, por onde se penetra no imaginário social, toda sorte de vileza entre humanos: intrigas, trapaças, atos cruéis, danças marciais, máquinas mortíferas, capazes de arrancar sangue e tirar a vida de uma pessoa, como se tirasse uma macega com raiz e tudo, como se esmigalhasse uma pedra a atrapalhar o caminho. Quando os humanos viviam em condições de barbárie, morando em cavernas, tendo que lutar dia a dia por sua sobrevivência, não é difícil de imaginar que as coisas fossem mais ou menos assim. Naquele tempo, não havia diálogo, não havia regras morais ou sociais. Difícil é aceitar que, com milênios de civilização, ainda surjam e se avolumem grupos de ódio por razões – como se fosse possível colocar a racionalidade nisso – raciais, questões de gênero ou divergências ideológicas. Seria o ódio – em seu paroxismo – uma doença? Porque nos parece, em suas consequências nefandas, aparentada com a loucura.

Que se trata de uma deformação do caráter não há dúvida. E nisso podemos incluir todos os atos violentos em nome de uma religião, de um clube de futebol, do terrorismo. Pode não ser uma doença mental, mas que se trata de uma doença social é certo. Em 2011, na Noruega, o jovem Anders Breivik planejou e pôs em ação um ato contra o que, em seu discurso extremista, deveria ser combatido: com as explosões em prédios públicos, em Oslo morreram 8 pessoas; simultaneamente, com seu ataque a um encontro de jovens ligados ao partido trabalhador, na ilha de Utoya, morreram 69. Examinado por uma junta de psiquiatras, foi diagnosticado como doente mental. O que o levou à indignação, pois, conscientemente, considerava-se um ativista político. Passou por novos exames, sendo condenado com a pena máxima da justiça norueguesa. Tal desfecho só foi possível porque o assassino não se matou – nem foi morto pela polícia – junto com as vítimas.

No caso do franco-atirador americano e do vigia brasileiro, nunca saberemos ao certo o que os levou ao ato. Isso o torna mais brutal por não nos permitir conhecer onde pode chegar o delírio humano em seus desconcertos psicóticos, e o seu desapego para com a nossa raça – a raça humana. Uma coisa é certa, não chegaremos a um mundo de paz estimulando o atrito, a confrontação de ideias, o apelo aos recursos bestiais para resolver conflitos. E nem falo no plano das relações internacionais, entre potências nucleares, ou entre regiões em litígio dentro de um mesmo país. Falo do que se faz circular, sem pensar, nas redes sociais. Tão deletéria para a vida em sociedade, quanto uma arma química, é uma notícia falsa – fake news, é nome da moda -, o assassinato de reputações, a provocação e o escárnio – e todos os artefatos bélicos-cibernéticos da chamada pós-verdade. Pode parecer inocente, mas espalhar inverdades pelo Facebook pode ter o mesmo potencial de letalidade que projéteis disparados a esmo desde um hotel em Las Vegas. Pode não matar na hora, mas produzir efeitos sociais lentamente, por longo tempo.



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