ESPAÇO ALVIRRUBRO. O clássico em que não perder também é lucro, escreve o Leonardo da Rocha Botega

ESPAÇO ALVIRRUBRO. O clássico em que não perder também é lucro, escreve o Leonardo da Rocha Botega

ESPAÇO ALVIRRUBRO. O clássico em que não perder também é lucro, escreve o Leonardo da Rocha Botega - ESPACO_ALVIRRUBRO-4O primeiro clássico do ano

Clássico é uma das palavras mais românticas da língua portuguesa. Em nosso “português brasileiro” o termo clássico é o garantidor daquilo que tem aclamação popular. Adoniran Barbosa e o “seu tiro ao alvaro” é clássico, Cartola é as suas rosas que não falam é clássico, o Bochincho de Noel Guarany é clássico. O “Fuscão preto com o seu ronco maldito, meu castelo tão bonito você fez desmoronar” de Almir Rogério é muito mais clássico do que o “Me deixa de fora desse seu mau sentimento” pronunciado por um jurista letrado num barraco de fina estirpe (E não me venham com este negócio de que barraco na Suprema Corte é clássico, quem define o que é clássico é o povo e não a toga!). No futebol, o clássico é aquele jogo que, na definição de Nelson Rodrigues, não tem começo, não tem fim, ou melhor, que “começa quarenta minutos antes do nada”.

O torcedor almeja o clássico, dorme acordando e acorda sonhando com o clássico. Somente o clássico tem o poder de ter um nome especial. Grêmio X Internacional é Grenal, Vasco X Botafogo é clássico da Amizade, Fluminense X Flamengo é clássico das multidões, Esportivo X Caxias é clássico da polenta, Inter-SM X Riograndense é Rional (e é uma pena que não teremos nenhum nos próximos anos, me dá uma saudade daqueles 4×0 quando lembro disso). Clássico é clássico e vice-versa como diria Jardel, na única frase significativa que pronunciou ao longo de sua carreira como jogador e parlamentar.

Foi em meio a uma semana cheia de clássicos que tivemos São Gabriel X Inter-SM, o clássico dos últimos românticos. Clássico dos últimos românticos, sim! Afinal tem que ter muito amor para seguir resistindo e mantendo em funcionamento clubes de futebol profissional no interior. A falta de criatividade da lógica copiar e colar o modelo europeu no futebol brasileiro tem feito de tudo para acabar com a essência romântica de nosso futebol que são os clubes do interior e os clássicos regionais. Aliás, a desinteligência do copiar e colar modelos que são exportáveis como soluções (e que na maioria das vezes não deram certo em lugar nenhum) está acabando com o Brasil.  Ah, Policarpo Quaresma! Como você faz falta!

ESPAÇO ALVIRRUBRO. O clássico em que não perder também é lucro, escreve o Leonardo da Rocha Botega - inter-smTenho quase certeza de que o mais brasileiro dos personagens de nossa literatura se encantaria com a nossa Divisão de Acesso. Um campeonato cheio de clássicos, que em sua primeira rodada nos premiou como um Guarani – Venâncio Aires 2X2 Santa Cruz, com três gols nos quatro minutos finais do jogo. E um São Gabriel X Inter SM que, mesmo não tendo gols, teve o principal: a tensão e o desejo de não ser derrotado em um clássico. Ninguém gosta de perder clássico! Perder clássico significa perder duplamente, perder o jogo e perder o outro dia com as flautas do torcedor rival. O jogador que faz um gol num clássico vira herói, o que falha entra para o álbum das figurinhas mais feias da história do clube.

Foi com o ouvido colado no rádio que escutei o contar de um jogo onde o mais importante foi não perder. Alguns até tentaram desobedecer esta lógica, como Marquinhos do São Gabriel que aos 6 minutos do primeiro tempo chegou a marcar um gol, mas com a mão. Que ousadia! Colocar a mão na bola em um clássico é uma afronta ao que este representa. Outro que desobedeceu esta lógica foi o zagueiro alvirrubro Manolo, que aos 26 minutos do segundo tempo, quase marcou de cabeça. Mas aos 41 minutos da etapa final, o goleiro João Paulo, mais uma vez sendo o “João de Deus da Baixada”, colocou tudo no seu devido lugar defendendo o chute do atacante gabrielense Irapuan.

Pelo olhar do nosso narrador, pela fala de nossos dirigentes e de nosso técnico ao final do jogo, poderíamos ter ganho. Fomos mais consistentes que o adversário, mas a regra básica de que clássico é para não perder prevaleceu. Pior para o Sanga que segue na lanterna do grupo. Para nós restou a tarefa de buscar mais uma vitória no próximo domingo, às 16h, contra o Guarani de Venâncio Aires na Baixada Melancólica, o estádio como nome mais clássico e romântico do Mundo.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *