ESPAÇO ALVIRRUBRO. Leonardo da Rocha Botega e um incontido entusiasmo com o ‘concerto’ da Baixada

ESPAÇO ALVIRRUBRO. Leonardo da Rocha Botega e um incontido entusiasmo com o ‘concerto’ da Baixada

ESPAÇO ALVIRRUBRO. Leonardo da Rocha Botega e um incontido entusiasmo com o ‘concerto’ da Baixada - ESPACO_ALVIRRUBROConcerto de Páscoa

Páscoa é uma data com muitos significados. Para aqueles que como eu não professam nenhuma religião é um momento onde as pessoas produzem sentimento de solidariedade e de união. Um momento onde a humanidade demonstra que só tem sentido em seu conjunto. Um sentido que, para além das datas festivas, aparece em duas obras coletivas: as orquestras e os times de futebol.

Nas orquestras, as cordas (violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas), as madeiras (flautas, flautins, oboés, corne-inglês, clarinetes, clarinete baixo, fagotes, contrafagotes), os metais (trompetes, trombones, trompas, tubas), os instrumentos de percussão (tímpanos, triângulo, caixas, bombo, pratos, carrilhão sinfônico, etc.) e os instrumentos de teclas (piano, cravo, órgão) devem funcionar harmonicamente para que o regente possa conduzir a música. No futebol, o goleiro, os laterais, os zagueiros, os volantes, os meias, os atacantes e a comissão técnica devem funcionar perfeitamente para que o time jogue bem. As orquestras e os times de futebol representam a força da coletividade em um mundo que tenta nos fazer pensar apenas nas individualidades.

Alguns jogos de futebol fazem com que os times nos lembrem a beleza e a leveza de uma orquestra. Nos fazem celebrar uma partida como se estivéssemos assistindo a um concerto em um país onde manter orquestras (assim como times de futebol no interior) é muito difícil. Uma partida bonita é tão bela como um espetáculo de uma Filarmônica. No domingo de Páscoa na Baixada Melancólica, nós torcedores tivemos essa sensação.   Em uma tarde chuvosa, diante do Pelotas (líder do grupo e até então invicto), os meninos alvirrubros se vestiram de violinistas, trompetistas, pianistas e clarinetistas. O Inter-SM parecia a Orquestra Roma Sinfonietta e o técnico Vinicius Munhoz esteve à altura de um Ennio Morricone. Cada pingo de chuva que molhou a torcida parecia uma dádiva suave diante daquilo que se via no gramado.

A sinfonia começou cedo! Aos 13 minutos, o meio-campista Santana, com a delicadeza de um solo de violino, fez um lançamento magistral. Diante de tanta beleza, o zagueiro Wallace e o goleiro Giovani, do Pelotas, se atrapalharam e Jackson  aproveitou. Goleiro driblado, 1×0 e a chuva fina de um espetáculo primoroso! O Pelotas até tentou tirar o ritmo alvirrubro aos 33 e aos 38 minutos, mas o goleiro João Paulo estava lá. Primeiro defendendo lindamente uma bola que desviou na barreira após a cobrança de uma falta. Depois, com as mãos iluminadas de um harpista, em um mesmo lance, fez duas defesas que mereciam uma trilha sonora orquestrada. O primeiro tempo deste concerto de páscoa ainda nos brindaria com uma “chapelada” espetacular de Pablo (sempre ele) em um apavorado zagueiro pelotense. “El Mago da Baixada” também faria o goleiro adversário esticar a coluna no chute final deste primeiro ato.

Pausa, descanso, chuva que aumentava. Veio o segundo tempo e a orquestra alvirrubra voltou a tocar. E como tocou! O segundo tempo foi o ápice do concerto. Aos 30 segundos, Chiquinho lançou Jackson que obrigou o goleiro Giovani a fazer uma defesa fabulosa.

ESPAÇO ALVIRRUBRO. Leonardo da Rocha Botega e um incontido entusiasmo com o ‘concerto’ da Baixada - inter-sm-jacksonAos 4 minutos, Manolo, como quem toca um trombone, jogou a bola para frente com intensidade. Jardisson, como um flautista, deu um leve desvio de cabeça na bola. Jackson (foto ao lado, de Reprodução), querendo ser o solista da tarde, pegou a sobra, tirou o zagueiro e chutou para o gol. Bola na rede, 2×0, chuva diminuindo e a imagem mais linda da tarde: Jackson abraça Paulo Henrique, seu reserva. Aquele abraço parecia dizer: “somos um time só, agora foi a minha vez, daqui a pouco é a sua!”

Vinicius entendeu o simbolismo e colocou Paulo Henrique no lugar do próprio Jackson. O menino de Nilópolis (terra da Beija-flor), aos 10 minutos fez o terceiro gol alvirrubro. Após um chute de Jardisson defendido mais uma vez de forma espetacular pelo goleiro do Pelotas, PH pegou o rebote e colocou a bola no cantinho. 3×0, chuva forte e me dou conta de que o outro significado de orquestra também estava presente no jogo! Além de agrupamento musical, orquestra também significa “lugar de dança” (uma referência grega à forma circular de montagem das apresentações).

De fato, a Baixada Melancólica era um lindo lugar de dança. Nas arquibancadas, gritos molhados de olé! Em campo, aquele carinhoso toque de bola! O único que não soube dançar foi o capitão do Pelotas, Tiago Gaúcho, que foi espantar a possibilidade de um resfriado com um banho quente mais cedo. Para os demais foi só festa! E nem mesmo a “alemãozada” que o time deu nos 30 minutos finais estragou isso. Beleza em excesso nem sempre é bom! Pode despertar soberba e fazer a música desafinar! Então, toca a bola e deixa o tempo passar! Tranquilamente! Para que nem o apito final do juiz desafine! Nada desafinou e terminamos o primeiro turno na zona de classificação.

PS: Coincidência ou não, chego em casa, saio do elevador e escuto o som de uma linda ópera vindo do apartamento de uma vizinha. Uma senhora idosa que afetuosamente me sorri a cada cumprimento. Silenciosamente agradeço: Obrigado vizinha! Obrigado Inter-SM! Obrigado a todos os torcedores que num domingo chuvoso de páscoa sorriram comigo este belo espetáculo!



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