Coluna

No futuro, eram os cowboys – por Bianca Zasso

Os apreciadores de faroeste sabem: mais que um gênero cinematográfico, o oeste das telonas é uma atmosfera. Prova disso é que muitos diretores da atualidade tentaram trazer para suas produções o clima das aventuras nas pradarias se valendo apenas de uma direção de arte inspirada e meia dúzia de atores empunhando armas e usando chapéus. Esqueceram da poeira genuína, que cenário nenhum reproduz se não houver envolvimento e quebra de regras.

Todo bom western pós-década de 60 só deu certo porque não se contentou com os estereótipos que só convencem quando dirigidos por John Ford e Howard Hawks. A atriz Daryl Hannah fez justamente o contrário de seus contemporâneos: rendeu-se à atmosfera e esqueceu da reprodução ao pé da letra do velho oeste. O resultado tem o nome que merece: Paradoxo, uma produção da plataforma Netflix que, infelizmente, não deu as caras nos cinemas, mas seria uma experiência e tanto na tela grande.

Paradoxo tem a assinatura de Hannah no roteiro e na direção, mas o aroma é todo de Neil Young. O músico, que já deu as caras no cinema algumas vezes, trouxe o argumento do filme com base em suas paixões pela música, a natureza e, é claro, o faroeste revisionista. O resultado é que Paradoxo não precisa de sinopse e muitos podem defini-lo como um videoclipe de longa-metragem.

Ele é isso e também não é. Grande parte das críticas negativas feitas à produção bate na tecla da falta de coerência do roteiro, dos erros de continuidade e das cenas musicais longas demais. Pois bem, desde o primeiro minuto, quando uma voz em off avisa que estamos no futuro, fica claro que não há preocupação com tempo e espaço em Paradoxo. E é isso que faz dele uma obra digna de ser vista e, mais que isso, vivenciada.

O prezado leitor deste texto, assim espera esta que vos escreve, já deve ter escutado um disco do começo ao fim, sem pausas e distrações. Parece algo inimaginável para um mundo como o de hoje, onde ninguém parece ter tempo para nada, mas bastam menos horas nas redes sociais e é possível desfrutar de um momento assim.

Assistir Paradoxo é como colocar um disco para tocar e deixar-se levar por ele. A imaginação não tem limites e Daryl Hannah deixou a sua e a de Neil Young voar para onde bem entendesse. Paradoxo é um western fantástico e uma fantasia ambientada no velho oeste. É um show de Young e seus parceiros no meio da mata, abençoados por uma lua cheia. Se David Lynch pode brincar com o sonho, porque uma mulher com carreira consolidada não pode em sua primeira incursão pela direção?

E há sim uma história em Paradoxo. Os homens que garimpam restos da civilização como computadores e relógios, são sustentados pela comida que um grupo de mulheres entrega de tempos em tempos. Eles esperam ansiosos pela chegada da águia prateada (um ônibus em estilo setentista) que traz alimento e mulheres. Mas eles só garantem o jantar e o sexo se as moças estiverem dispostas.

Seria o mundo perfeito? Piadas à parte, Hannah fez a sua crítica ao machismo e ainda brindou o público com cenas oníricas como há muito não se viam no cinema americano. A possibilidade de se dar ao luxo de brincar com elementos de um gênero e cumprir uma das funções do cinema, a possibilidade de esquecer a realidade por algumas horas, brindou Daryl Hannah. Neil Young pegou carona junto com sua banda e o amigo Willie Nelson, numa participação rápida e carismática.

Recomendar Paradoxo é um desafio. Poucos serão os que vão comprar a ideia do filme e aproveitar a viagem de pouco mais de uma hora. Mas um dos papéis da crítica de cinema é apresentar aos leitores produções que fogem da curva, que não forma feitas para agradar, que assustam as mentes mais fechadas e os corações menos sensíveis.

O pedido desta coluna é um só: assista Paradoxo livre de qualquer amarra. Permita-se um tempo longe da lógica, das respostas, dos pontos finais. Abra a porta para as dúvidas e as vírgulas. Abandone, nem que seja por alguns filmes, a ideia de que cinema tem que ter pipoca, refrigerante, começo, meio e fim para valer a pena. Cresça. Não é uma coisa fácil, mas pode ser bem divertida.

Paradoxo (Paradox)

Ano: 2018

Direção: Daryl Hannah

Disponível na plataforma Netflix

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