Coluna

A luz das palavras – por Bianca Zasso

Quem já teve oportunidade de ter diante de si algum livro do escritor israelense Amós Oz, sabe do apreço do autor pelas palavras. É óbvio, irão dizer, todo homem dedicado à escrita tem amor pelas palavras. Mas Oz tem uma paixão única por elas, por suas origens e seus poderes. Esta informação torna a sessão de De Amor e Trevas uma experiência ainda mais interessante. O longa-metragem, que marca a estreia da atriz Natalie Portman como diretora e roteirista, seria um desafio para qualquer realizador: levar para as telas um romance autobiográfico que contém magia e história em quantidades semelhantes.

Lançado em 2015, De Amor e Trevas tem como protagonista um Amos de oito anos que observa com olhos atentos o conflito entre árabes e judeus ocorrido na década de 40 na Palestina ainda sob domínio britânico. A imaginação fértil do garoto é o que dá o tom de poesia das cenas criadas por Portman que, apesar de pouco ousada na construção da narrativa, explora ângulos de câmera pouco usuais para dar conta da maneira única de entender o mundo de seu conterrâneo Amós Oz.

Mesmo que desde a primeira cena saibamos que o menino é que será o fio condutor da trama, é a figura materna que irá se fazer sempre presente, fomentando a criatividade e também a conduta moral de Amos. Fania, interpretada por Portman, era uma leitora voraz e viu sua alma sonhadora ser abocanhada pela realidade com a chegada de seu filho e, mais precisamente, dos conflitos de seu país.

Em uma cena com um diálogo rápido dela com as amigas, ouvimos desabafos de mães que são velhos conhecidos. Não há mais espaço para exercitar a menina sonhadora quando se tem uma casa, um marido e um filho para cuidar. As páginas dos livros, antes acolhedoras e incentivadoras de um futuro iluminado, dão lugar a histórias que Fania sabe que nunca irão sair do papel em sua vida.

A primeira parte do filme, com muita narração em off e diálogos longos e repletos de referências literárias e históricas, é bastante cansativa até para quem tem intimidade com a obra de Amós Oz. Portman parece ter ficado receosa de deixar de incluir algumas frases do escritor na produção por saber que há em sua obra trechos que transbordam emoção e que talvez apenas a imagem não desse conta de tamanha sensibilidade.

Mas há um ponto de virada de ritmo em De Amor e Trevas. E ele acontece justamente quando imagens de arquivo são utilizadas para dar ideia dos horrores da guerra. A atmosfera de documentário marca o início de um novo momento no filme. Amir Tessler, que interpreta Amos, equilibra inocência e maturidade apesar da pouca experiência como ator, mas quem sustenta a produção é Natalie Portman.

Conhecida por seu rigor na preparação para um trabalho, ela demonstra que o fato de assumir uma posição atrás das câmeras não abalou sua dedicação à construção de Fania. Seu olhar vai ficando cada vez mais melancólico a cada descoberta. O sonho de casar-se com um escritor em busca de uma vida poética se dissolve. Seu marido entende de palavras mas sobreviver é o verbo que comanda os dias.

A fotografia assinada por Slawomir Idziak passeia por vários tons, chegando à quase total escuridão do meio para o final, onde o jovem Amos não perde apenas a mãe, mas todas as suas ilusões sobre seu país e sua família. De Amor e Trevas, como outros exemplos de filmes inspirados em livros, jamais conseguirá transpor a potência das linhas escritas por Amós Oz. Mas a leitura feita por Natalie Portman é sensível e merece ser vista com atenção. Há vários momentos em que uma realizadora sensível e talentosa se mostra. Mesmo nas trevas.

De Amor e Trevas (A Tale of Love and Darkness)

Ano: 2015

Direção: Natalie Portman

Disponível em DVD, Blu-Ray e na plataforma Netflix

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