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Alegorias da caverna – por Orlando Fonseca

Lembro de um livro da minha infância, dentre os que me marcaram: O mistério da caverna. Já esqueci por completo o enredo e, afinal, qual era o mistério. No entanto, agora que o termo “caverna” está nos noticiários, com uma gama imensa de novos mistérios, dramas e ações espetaculares, sei que o lugar designado por este vocábulo, desde aquela história que li, antes dos meus 10 anos, sempre tem repercutido como vertigem em minha mente.

Tenho sintomas de claustrofobia, sem muita gravidade, sinto-me desconfortável em lugares fechados, apertados, elevadores, especialmente com outras pessoas (mas parece que isso não é exclusividade de minhas fobias); seguidamente passo por pesadelos de estar confinado em algum lugar hermético. O certo, porém, é que as cavernas é que me dão medo, o que tem me levado a evitá-las, e até não me convenço – embora tenha assistido a documentários de lugares maravilhosos – como é que tais ambientes fechados por rochas, escuros e alguns alagados, podem servir de pontos turísticos. E, agora, com a tragédia da Tailândia e o resgate espetaculoso daquela gurizada, fico imaginando que aquele não era o melhor lugar para levar garotos em uma aventura.

Não é sem propósito que Platão, o filósofo grego, no século IV a.C., usou justamente uma caverna para falar na nossa aventura humana. Em sua mundividência idealista, o conceito platônico de percepção do mundo compara o que vemos, ou melhor, conhecemos como “tudo que está aí” com sombras projetadas nas rochas desse lugar em que estamos, uma imensa caverna.

Foi exatamente o que pensei ao acompanhar atento, pelos noticiários, a operação que mobilizou o mundo inteiro, para salvar os integrantes de um time juvenil de futebol e o seu – pouco precavido – treinador. Não sabemos o tamanho da disposição que o ser humano tem para salvar uma vida, que dizer de 13. Uma corrente de solidariedade se formou, tão de imediato como a chuva torrencial que inundou o lugar em que passeava aquele grupo de tailandeses. Não apenas com recursos materiais de salvamento, mas também de força espiritual, que a todos os apelos numa hora grave como essa é bom recorrer.

Sem ter em consideração que é pouco recomendável que se faça uma excursão dessas, em um período sabidamente de chuvas na região (as monções asiáticas), a comoção foi geral nas redes sociais. Do mesmo modo como já aconteceu, em 2010, no caso dos 33 trabalhadores, soterrados a 700 m, em uma mina no Chile.

Para quem não vive em um pequeno país que abriga uma grande rede de cavernas, como a de Tham Luang, pode parecer imprevidente que um treinador tenha escolhido justamente esse lugar para visitar, em uma proposta de integração do grupo. Para os locais, é a vida, trata-se de uma atividade quase trivial. Ainda que carregada de perigos em potencial, é uma aventura.

Entretanto, como na alegoria platônica, o episódio traz à tona, no mesmo esforço dos especialistas em resgate, os mistérios que a aventura humana comporta. A vida tem um valor que não respeita fronteiras, transcende os compromissos da rotina, vai além das condições materiais. É claro que, em situações limites como esta, pode-se observar a seletividade com que se enxergam – tal como massa manobrada pela mídia – as sombras projetadas nas paredes da caverna. Têm mais poder de mobilizar as autoridades o esforço pela vida dos garotos, jogadores de futebol, passeando com seu treinador, do que filhos de imigrantes ilegais, buscando com desespero um lugar ao sol.

Em qualquer um dos casos, por envolver crianças e adolescentes, está em jogo o valor da vida, e o futuro da humanidade. Assim como não se deve deixar que se perca uma vida no interior da caverna, também não se pode deixar que o preconceito, a xenofobia, os interesses econômicos deixem uma criança que seja para trás, ou soterrada por guerras ideológicas e tragédias naturais.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.

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