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HISTÓRIA RESGATADA. O grande general maragato e a sua última batalha. Conheça Gumersindo Saraiva!

Imagem histórica de batalha da Revolução Federalista, que teve Gumersindo Saraiva como o grande general do lado maragato

Por RICARDO RITZEL (com fotos de Reprodução e Divulgação), Especial para o Site (*)

“Pesada, como os Andes, te seja a terra que o teu cadáver maldito profanou. Caiam sobre essa cova asquerosa todas as penas concentradas das mães que sacrificastes, das esposas que ofendestes, das virgens que poluístes, besta-fera do sul, carrasco do Rio Grande. Maldita seja para sempre tua memória de bandido”

Assim o jornal A Federação, fundado, editado e praticamente escrito em sua íntegra pelo então presidente do Estado, o republicano Julio de Castilhos, registrou a morte do general Gumersindo Saraiva, em agosto de 1894.

Assassino cruel, violador, degolador e mercenário estrangeiro a serviço da restauração da monarquia eram também outras acusações e adjetivos bastante utilizados por uma parte da população gaúcha para definir o líder federalista naqueles conturbados tempos de uma incipiente República no Brasil.

Houve festejos e comemorações em toda Porto Alegre, Serra e região colonial gaúcha. Tropas legalistas desfilaram triunfantes sob chuvas de flores atiradas pela população nas mais diversas cidades rio-grandenses. Moças de família dançaram nas calçadas enquanto seus pais suspiravam aliviados com a morte do rebelde maragato e pelo fim de mais uma revolta armada no extremo sul do Brasil. A mais sangrenta, a mais cruel, a com mais mortos: a Revolução de 1893.

Por outro lado, metade do Estado chorava copiosamente a perda de seu líder e mais famoso comandante militar. Tanto que para maioria da população que vivia nas regiões da Campanha e Missões no final do século XIX, Saraiva e seus soldados eram a alma da insurreição federalista, a única resposta possível (ou aquela que eles sabiam fazer) frente a um governo opressor que perseguia e punia quem o questionasse ou simplesmente sumia com aqueles que lhe faziam oposição.

E a história oral e as lendas destas regiões gaúchas falam sobre um guerreiro implacável no combate, mas magnânimo com o inimigo derrotado. Um líder militar que valorizava a vida e a propriedade e não raro mandava punir com fuzilamento seus próprios soldados por violências desnecessárias, roubos e saques.

O general Gumersindo Saraiva e sua esposa, dona Amália Corrêa

Para eles, os republicanos positivistas rio-grandenses teriam imposto através de fraude eleitoral uma Constituição autoritária onde todo o Poder estava na mão do Executivo, o Legislativo somente era convocado nos finais de ano para aprovar as contas do Estado e o Judiciário era um mero carrasco a serviço da presidência do Estado.

Em síntese, tudo, absolutamente tudo mesmo no que diz respeito à administração do Estado, passava pelo crivo do presidente do Rio Grande do Sul e também líder absoluto do Partido Republicano Rio-Grandense: o advogado e jornalista Julio de Castilhos.

Ainda segundo os federalistas, em âmbito federal, o governo de Floriano Peixoto era mais uma das ditaduras latino-americanas que cultuavam a personalidade de seus líderes e suprimiam direitos da população, sendo que, muitos desses eram tradicionalmente respeitados até mesmo pelo “ancient regime” do imperador Pedro II, como a liberdade de imprensa e de ideais.

Neste contexto, Gumersindo era considerado por toda a esta gente o último general farroupilha, um herdeiro direto do decênio heroico que colocou em xeque a poderosa monarquia brasileira 50 anos antes e, naquele momento, se tornara a alma telúrica revolucionária que fazia o mesmo com a mão de ferro da nova e recém-formada República.

O homem que fez tremer a Republica

Saraiva era um general que não somente distribuía ordens para seus subordinados. Mostrava como fazer e, “à la gaúcha”, ia junto, na frente de sua tropa fazer o que pedia com uma coragem incomum.

E fez isto por quase 3.000 quilômetros em uma das maiores marchas militares do mundo, passando pelos três estados sulistas e, por pouco, muito pouco, não invadindo São Paulo e, logo após, Rio de Janeiro, 36 anos antes dos gaúchos de Getúlio Vargas amarrarem seus cavalos no obelisco carioca.

Mas afinal, no meio de toda esta disputa de poder e de uma sanguinária polarização política-social do Rio Grande do Sul de 1893, quem era Gumersindo Saraiva? Herói ou bandido? Quais as razões de sua luta? Por quem lutava? Por que resgatar a sua história hoje?

Resgatando o caudilho da fronteira

Depois de 125 anos, mais de 40 livros sobre o assunto, a leitura dos mais diversos artigos de antigos jornais e entrevistas com historiadores, autores e memorialistas, chegamos a algumas constatações na produção do documentário curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A Última Batalha”.

A primeira é que todos os acontecimentos históricos da Revolução de 1893 possuem até hoje, no mínimo, duas versões distintas dos fatos. A começar pelo próprio nome do mais famoso general maragato, escrito das mais diversas formas no decorrer dos anos, tanto no Brasil, como no Uruguai, país onde possuía família e também terras.

Na verdade, o nome certo do líder federalista não é Gumercindo, com a letra “c”, convencionado e bastante utilizado desde a metade do século XX; tampouco Gomercindo, usado antes deste período e não raro encontrado em obras vindas da Banda Oriental.

Na Certidão de Batismo do futuro guerrilheiro consta que ele nasceu em Arroio Grande (Brasil) no dia 13 de janeiro de 1852 e seu nome foi registrado com a grafia Gumersindo, com “s”, assim como também em sua Certidão de Casamento com Dona Amália Corrêa, datada em 1886 e arquivada no cartório de Santa Vitória do Palmar. E era assim, com o uso do “s”, que ele assinou seu nome durante toda sua vida.

Membro da Confraria dos Cavaleiros da Paz de Porto Alegre, em cena do documentário “Gumersindo Saraiva – A Última Batalha”

A lenda do general invencível

Gumersindo Saraiva começou a revolução como apenas mais um tenente-coronel da Guarda Nacional que aderiu aos rebeldes, entre tantos outros, mesmo já sendo bastante respeitado por sua forte personalidade e grande experiência em combate nas refregas uruguaias que participou.

Porém, pouco a pouco, de luta em luta, tanto seus aliados como inimigos começaram a perceber que aquele comandante militar praticava uma complexa estratégia de combate, sempre aliada com ardilosos planos táticos que faziam de tropas bem inferiores em número e armamento derrotarem inapelavelmente forças muito superiores em todos os quesitos militares.

E a lenda do general invencível se enraizou entre os gaúchos depois de seis meses de luta, quando os grandes chefes militares das forças federalistas, Joca Tavares e General Salgado, mesmo com várias vitórias expressivas em combates e quase sem nenhuma derrota, decidem imigrar para o Uruguai devido a mais absoluta falta de armamento, munição e cavalhada em bom estado.

Foi então que Gumersindo, em uma decisão pessoal e apoiada por toda sua coluna, decide ficar no Brasil com sua tropa armada apenas com algumas poucas armas de fogo e muitas lanças feitas de taquara com tesouras de esquia.

O objetivo era manter viva a chama revolucionária no Rio Grande do Sul, exaurir as forças militares e apoios políticos ao governo gaúcho, forçando a negociação de uma nova Constituição Estadual.

A partir daí, divide sua tropa em pequenos grupos e começa fazer ataques às forças legalistas nos mais diversos municípios gaúchos ao mesmo tempo. Sempre atacando de surpresa e, logo a seguir, se deslocando com mais rapidez ainda para um novo e improvável alvo.

Como diziam durante a revolução, Gumersindo estava em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Era a velha e eficiente guerrilha charrua utilizada contra os invasores espanhóis no século XVIII e revivida nas coxilhas do Rio Grande quase 200 anos depois. Foi aí que Saraiva recebeu por aclamação a patente de general do 1ª Exército Libertador.

LEIA AMANHÃ: A morte do grande general, EM SUA ÚLTIMA BATALHA, nos campos do Carovi

(*) RICARDO RITZEL é jornalista em Santa Maria, e também responsável pela direção e o roteiro do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A Última Batalha”. Ele também assina seu nome em outras duas obras audiovisuais históricas: “5665 –Destino Phillipson”, sobre os 100 anos da imigração judaica organizada para o Brasil na Fazenda Phillipson, em Itaara e “Bozzano – Tempos de Guerrra”, sobre a vida do jovem intendente de Santa Maria e sua morte durante a Revolução de 1926 no começo da Coluna Prestes na região das  Missões do Rio Grande do Sul.

Esta reportagem foi produzida a pedido do editor do site.

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