CRÔNICA. Pylla Kroth e o Cotê, vindo lá dos “fundões de meu Deus” e que chegou ao final de suas andanças

CRÔNICA. Pylla Kroth e o Cotê, vindo lá dos “fundões de meu Deus” e que chegou ao final de suas andanças

Cotê do saco de sonhos – por PYLLA KROTH (*)

CRÔNICA. Pylla Kroth e o Cotê, vindo lá dos “fundões de meu Deus” e que chegou ao final de suas andanças - pylla-1Em uma regressão que fiz, tempos atrás, lembro de ouvir canções. Mais tarde minha mãe confirmou que essa era a forma dela me aquietar dentro de seu útero, um acalanto que começava na barriga e que continuou na minha infância e reverberou na minha vida. Mais tarde, as canções continuaram embalar minha existência, prova disso é que até hoje canto uma canção de infância em meus shows, e grande parte da platéia, ou ao menos os mais velhos, cantam juntos “Se essa rua, se essa rua fosse minha…”, chamada “Pedrinhas de Brilhantes”.

Nunca entendi outras canções apavoradoras que alguns pais cantam até hoje para seus filhos dormir, sobre um “Boi da cara preta” em cima do telhado, ou aquela outra mais maligna ainda de um monstro chamado Cuca, que vem supostamente pegar as crianças que não querem dormir ou que se comportam mal. Acho isso terrível, por sinal, utilizar-se do medo ou ameaça de um monstro imaginário para obter bom comportamento.

Mas enfim… Estou escrevendo isso porque esta semana morreu um personagem lá do fundão de onde eu vim, que por mais que tentassem dizer que era perigoso, que era a própria encarnação do “véio do saco”, o Pelznickel, o Sete-trouxas, o João loco, entre tantos outros destas figuras folclóricas usadas para assustar e ameaçar crianças a fim de que não fossem peraltas para não serem pegas por eles, foram raras as crianças que realmente sentiam medo dele, era apenas aparentemente um mendigo anão que não conseguia falar e andava vagando esfarrapado pela cidade com seus pertences num saco. Algumas, mais ousadas, até o provocavam só para depois sair correndo, pois ele virava fera. Já eu, particularmente, era amiguinho diário da figura.

Chamava-se “COTÊ”, este era o apelido dele. Uma figura esguia, meio anão, descendente de bugre ou mameluco, que os mais antigos já diziam que desde sempre estava em Tapera, essa jóia dessa cidade situada entre pequenas colinas engastadas no planalto médio, mais precisamente na região do Alto Jacuí (quem não conhece não sabe o que esta perdendo, vale a pena conhecê-la).

Fato é que até pouco tempo ninguém sabia ao certo de onde viera Cotê, nem tampouco que idade realmente tinha, ou se tinha parentes ou o que fosse. Depois de bastante tempo vivendo na rua, o poder público fez um barraquinho para ele morar, mas ele mudava-se constantemente. Descobriu-se mais tarde, por interesse de um nobre cidadão taperense já falecido, chamado Lucindo Rotta, a origem de Cotê. Que era um dos doze filhos de uma família originária lá “dos fundões de Meu Deus”, como se diz, entre as cidades de Espumoso e Soledade, localidade de Alto Alegre.  Conta o irmão ainda vivo que ele não queria morar com ninguém e gostava de viver na rua, sem comandantes ou patrões, e que optou por ser livre e viver da bondade de quem quisesse lhe alcançar um prato de comida ou um pedaço de pão. Esse era o sonho dele, viver e vagar livremente por este mundo. Decerto era isso que ele fazia tanto volume no saco que ele andava sempre carregando às costas e não se separava facilmente o qual mantinha sempre protegido

Aliás, recordo de meus tempos de menino que ele usava uma espada de pau pra se defender quando ameaçado. Acertou em cheio viver na Tapera velha, cidade de gente hospitaleira, bondosa e trabalhadora que assim o adotou.

Ainda na semana passada, coincidentemente, sonhei com o danado amigo “mendigo”, sonhei que ele chegara de Limusine vestido em um terno branco, sapatos de verniz tipo italiano e fumando um charuto cubano, com guarda costas fazendo sua escolta, que viera até mim no meio de uma multidão que o aguardava, me abraçara na ponta dos pés e subira ao palco brilhantemente. Neste momento me acordei e dei de cara com meu cachorro me olhando com cara de ponto de interrogação.

E me ponho a pensar novamente sobre a vida e a morte e … fico sem respostas. Gosto de pensar que se existe reencarnação ele voltará, e desta vez como um magnata como no meu sonho e espero que me encontre por aqui, pois ele conhecia e sem mesmo saber falar sabia representar seu amor com sinais e sempre que passava por mim ou nos encontrávamos no Café Diana me fazia o sinal de positivo amistosamente. Muitos foram os pingados que, quando me sobrava uns cobres, paguei a ele, que retribuía com uma gargalhada e uma satisfação de quem ganhara um grande agrado. Gargalhadas que nem sempre o acompanhavam, pois dias tristes também fizeram parte da vida dele. E ai de quem mexesse com ele nos dias que estava de cara amarrada: puxava sua espada de pau e “fazia uma limpa”.

Muitas foram as vezes também em que vi Cotê chorar. Mas uma vez em particular chorou durante dias a morte de outra figura icônica de minha cidade, o músico e proprietário do Café Diana, saudoso Arno Presser, a quem ele tinha como Pai e esse sim ele chegava esboçar seu nome, o “Àno”, dizia ele. Depois de muito tempo, abandonou o “saco”, indo viver no Lar do Idoso da cidade, onde viveu dignamente seus dias.

Cotê tinha outra particularidade: não entrava e nem andava de carro, exceto se falavam o nome do Papi, outro senhor querido e maior datilografista que conheci na minha vida. Devia ter um grande apreço pelo Papi. Tenho pra mim que irão se encontrar lá em cima, o Arno, o Papi e o Cotê, e chego imaginar os três sentados em uma mesa tomando um pingado com o Arno tocando “tico tico no fubá”!

O que levamos da vida? Acho que apenas a vida que levamos. No máximo alguns sonhos realizados, talvez, do saco de sonhos que todos carregamos nas costas enquanto vagamos mendigando por esse mundo, quem sabe? Não sei. Só sei que o final das andanças do Cotê por aqui chegou, que foi enterrado nesta terça-feira com honrarias e com “caixão de rico”, com todo respeito e carinho dos cidadãos do lugar onde escolheu para viver.

Por isso, por aqui eu digo: Adeus, Cotê. Descanse em Paz. Se tiver que ter uma estátua na cidade de minha infância, terá que ser de vocês três, ou só de você meu amigo, ao menos, pois sei que o Papi e o Arno iriam abrir mão da honraria com muito gosto em sua homenagem. Seu nome de nascimento: Manoel Ortiz. Em agosto completaria 110 anos. Fica aqui a certeza deste contador de causos de que a morte é tão inevitável quanto a vida. E parafraseando Charles Chaplin, Cotê viverá em nossos corações infantis!

(*) Pylla Kroth é considerado dinossauro do Rock de Santa Maria e um ícone local do gênero no qual está há mais de 35anos, desde a Banda Thanos, que foi a primeira do gênero heavy metal na cidade, no início dos anos 80. O grande marco da carreira de Pylla foi sua atuação como vocalista da Banda Fuga, de 1987 a 1996. Atualmente, sua banda é a Pylla C14. Pylla Kroth escreve semanalmente no site.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução de internet.



9 comentários

  1. Oricy Brenner

    Gostei muito de sua crônica. Sim o Cote faz parte da história de Tapera. Figura folclórica e marcante .

  2. Felipe Silveira

    Pylla, texto com lucidez incrível e que nos remete a nossa infância, valorizando nossa essência ! Parabéns ! Grande abraço do Ife Silveira .

  3. Juliana Marins

    Obrigada pelas sinceras e gratificantes palavras ao Meu Tio Cotê. Já tínhamos perdido minha avó ano passado, sua irmã, também com quase 90 anos. Família de bugre, como disseste, muito forte eles. A família é muito grande e se espalha por esse Rio Grande, eu mesma sou de Novo Hamburgo, e parte da família. Meus pais, parentes em geral sempre contaram muitas histórias do Tio Cotê. Uma vez disseram que ficaram presos dentro de casa, porque o Tio Cotê estava muito bravo e ficava andando em volta da casa com um pedaço de pau. Kkkkkk
    O Tio era muito conhecido, dentro e fora de Tapera. Uma vez contando histórias dele no meu trabalho, e então a surpresa: minha patroa me olhou e disse: “corri muito do Cotê pelas ruas de Tapera”. Uma pessoa ilustre, mas que realmente, ninguém conseguia prende-lo. Até tentaram trazer ele para Novo Hamburgo, mas ele saia pelas ruas caminhando a toa, e aqui ele não era conhecido, então o levaram de volta para Tapera. Boas histórias que ficarão guardadas com nossas lembranças. Mas tenho certeza que ele tá bem, e deve estar correndo atrás do pessoal lá em cima. Hehe

  4. Álvaro Simon

    Do alto da sua estatura Cote esperava um dia pertencer à sociedade. Mas a engrenagem só lhe ofereceu pena. Talvez, pela insistência em querer ser livre das humanidades e se transformar em sonho. O saco dos sonhos não esvaziou, transformou-se. Viva.

  5. Fábio Ricardo Mocelin

    Parabéns pela Crônica…. me permita esclarecer que onde vc cita a origem do Cotê ( que eu até então não sabia) se é entre Espumoso e Soledade … a localidade se chama Volta Alegre e não Alto Alegre que hoje é um município entre Espumoso e Campos Borges…. Mas enfim… Parabéns e Banda Fuga tb mora na minha memória eternamente… abc

  6. sinara nadir

    Parabén…linda crônica. .verdade quando me conheci por gente o cote ja tava velho e andava pela cidade. ..Foi uma grande figura..Não esqueçam também do nosso querido paulo…pareciam irmãos. …esses pequenos grandes homens hoje sim descansam ao lado de Deus. Foi uma honra te-lhos conhecidos. …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *