CRÔNICA. Orlando Fonseca e os idosos que precisam provar, ano sim, ano também, que continuam... idosos

CRÔNICA. Orlando Fonseca e os idosos que precisam provar, ano sim, ano também, que continuam… idosos

CRÔNICA. Orlando Fonseca e os idosos que precisam provar, ano sim, ano também, que continuam... idosos - orlandoSobre vagas e idosos

Por ORLANDO FONSECA (*)

Fui renovar meu cartão de vaga para idoso e me pediram comprovante de residência. Reclamei que era renovação, faz um ano que solicitei essa, e a moça do protocolo me disse que é a regra. É que tem muita gente solicitando, e não tem residência em SM, só para se valer do tempo de duas horas grátis nas vagas.

Fico imaginando os suspeitos cidadãos, já em idade provecta, de São Sepé, Dona Francisca, Dilermando e adjacências, não tendo nada o que fazer nas comunidades deles, decidem vir à nossa pujante cidade, só para ter o prazer de ficar duas horas sem pagar nas vagas para idosos.

Sei, o poder público não pode admitir a priori que todo mundo é honesto. O mundo ficou estranho, todos somos suspeitos, todos estamos soltos tão somente em liberdade condicional. Vivemos em um regime de regressão da pena: é possível que estejamos presos no próximo momento, então estamos soltos preventivamente.

As provas em contrário já existem, então todo mundo não é inocente. E não podemos mais nos valer da proteção constitucional do trânsito em julgado. Se correr o bicho pega! Não é difícil ver gente estacionada em vaga para deficientes só por um minutinho. Nos mercados da cidade, as vagas para idoso são ocupadas sem que alguém seja instado a colocar o cartão sobre o painel. Não é o meu caso, mas pago um preço alto pela maioria que reforça o senso comum da burocracia.

Renovação: em um prazo tão curto, não poderia haver uma mudança tão significativa. Vou ter de levar uma conta de luz, como se eles não pudessem ver no sistema que pago IPTU neste município. Podem alegar que tenho um imóvel aqui, mas não resido em Santa Maria. E o que prova uma conta de luz com o endereço de Santa Maria? Que além de idoso sou um filantropo, capaz de pagar uma conta para uma casa, apartamento ou sala com a qual não tenho nenhuma ligação.

Têm razão. Contudo, entretanto, para as autoridades de trânsito brasileiras, o cartão expedido por qualquer prefeitura tem valor em todo o território nacional. E isso por uma platitude: se sou idoso em Santa Maria, não deixarei de sê-lo só porque me afasto de carro por alguns quilômetros daqui. É óbvio que o serei em Porto Alegre, Tramandaí ou São Paulo.

Renovação anual, como se do ano passado pra cá  eu pudesse ficar mais jovem. Se tem uma coisa que serei mais, a cada ano que passa, é idoso. E por vivermos em um sistema burocrático baseado na anualidade, por similaridade, poderia haver uma certa consideração com os seres humanos: a cada ano trocamos de idade.

Isso é que nos faz idoso, ou seja, sujeito que acumula idade. Não preciso ficar provando isso todo ano. Chega que já tenho de dar prova de vida em uma agência bancária onde recebo meu salário de aposentado. Todo ano, sob pena de ser tido como finado, o que exime o governo de me conceder os proventos.

Eles dizem que posso morrer. Sim, mas nesse caso, por suposto, deixarei de ser idoso para sempre. Ah, mas alguém pode continuar usando o seu cartão. Sim, nesta de suspeitar de todo mundo, não basta que se restrinja ao idoso, mas se estenda à sua descendência. Só que os familiares não precisam esperar por tal providência do destino, podem usar o tal cartão, ele ainda estando vivo.

Na cidade de São Paulo, assim como em outras, o cartão tem validade por cinco anos, o que considero razoável. Tendo iniciado este ingente trabalho de renovar aos sessenta anos, como indica o Estatuto do idoso, terá apenas de renovar no máximo umas 5 ou 6 vezes nestas últimas quadras de sua existência sob a égide da burocracia.

Querem dificultar fraudes, mas dificultam é a vida do idoso, no fim acabam mesmo é contrariando o tal Estatuto, que pretendem observar. Talvez queiram nos ensinar que a paciência é uma virtude que deveríamos acumular com os anos.

(*) ORLANDO FONSECA é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e  Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta nota é de João Vilnei/Arquivo AIPM.



2 comentários

  1. O Brando

    Existe um livro escrito por um jornalista (A cabeça do italiano) sobre a mentalidade da população no referido país. Na Europa a Bota é o que mais se assemelha ao Brasil. Segundo a tese dele a ‘gringaiada’ acha que por uma característica e/ou circunstância pessoal particular as regras não se lhes aplica. Comenta que os suíços quando entram na península, por exemplo, abandonam a retidão na obediência às regras de trânsito, afinal não obedecer faz parte da cultura local.
    Lembra o ‘jeitinho’. ‘Vou estacionar na vaga dos portadores de necessidades especiais porque é rapidinho, vou ali e já volto’. ‘É proibido ultrapassar aqui, mas sou bom motorista, a estrada é boa e o carro é bom, logo não tem problema’.

  2. O Brando

    Problema do cartão do idoso uma hora se resolve, ao menos na burocracia, taxa deve permanecer. Uma página de cadastro na web com emissão de boleto, um aplicativo para informar o estacionamento e fiscalização, sistema do cartório ‘conversando’ com o da prefeitura, etc.
    Mentalidade também precisa mudar de ‘facilitar a vida do poder público/fiscalização’ para ‘facilitar a vida do contribuinte’.

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