CRÔNICA. Pylla Kroth e um bar que se fez história e se mandou. Sim, é do “Ponto de Cinema” que ele fala

CRÔNICA. Pylla Kroth e um bar que se fez história e se mandou. Sim, é do “Ponto de Cinema” que ele fala

CRÔNICA. Pylla Kroth e um bar que se fez história e se mandou. Sim, é do “Ponto de Cinema” que ele fala - pylla-1Ponto de Partida

Por PYLLA KROTH (*)

Vamos direto ao PONTO. São 22h de segunda feira aqui na esquina da Ângelo Uglione com Riachuelo. Há três décadas as segundas feiras por aqui sempre foram movimentadas: música, gente alegre conversando e tentando esquecer por uns momentos seus problemas, seus boletos e aliviando o peso do cotidiano, ruído de entretenimento. Um lugar onde o contato pessoal com os amigos fazia-se valer desde sempre, coisa que está se tornando rara hoje em dia no mundo digital potencialmente “distanciador” em que se vive.

Aquele abraço, o momento que descarregamos ou transmitimos ao outro tudo aquilo que as palavras às vezes não são suficientes (aliás o abraço também é uma poesia em sua forma mais linda), um aperto de mão e aquela troca de idéias que só fazem bem pra todo ser humano. Uma cervejinha, uma refeição e tudo de bom.

Agora olho através da minha janela e tudo está em silêncio. E como é o silêncio…tudo se cala, numa esfera parecida com o juízo final. O tradicional bar Ponto de Cinema fechou suas portas.

Para mim ali era praticamente uma instituição democrática da cidade, um sindicato das mesmas vontades, filosofias, poesias, passionais e amorosas. Vejo amantes da boemia passarem se lamentando. E eu aqui da janela me entristeço juntamente.

Lembro-me então de dezenas de bares tradicionais da minha cidade que já fecharam as portas, talvez daí meu saudosismo, minha tristeza. A situação política econômica que atravessa o Brasil vai nos pregar muitas outras surpresas desagradáveis como essa.

Já toquei em centenas de bares, mas um nunca é igual o outro. Este que hora vos falo colocou muita gente boa na profissão, como diz a canção. Eu sou um boêmio que não bebo mais há 18 anos, ou melhor, bebo, mas nada que contenha álcool etílico. Mas sempre fui de dar uma chegadinha nos bares. Gosto de música e gosto de conversar com as pessoas fora de suas normalidades, pois depois do terceiro ou quarto copo, dentista não é mais dentista, engenheiro não quer saber de cálculos e os médicos já pensam esperançosos na recuperação de seus pacientes. O músico solta os bichinhos, a garçonete gorda vira magrela, e todos gatos passam a ser pardos. É uma maravilha.

E agora perdemos um lugar onde esses momentos bons se faziam presentes. Eu entrava ali e sempre alguém bebia uma por mim. Confesso que já vi muitos bares fechar e fechei alguns também, mas este literalmente era, nos dias atuais, o porão da minha casa, situado no andar imediatamente abaixo da minha janela, ocupando a mesmíssima esquina. Não havia noite que eu não descesse para dar uma espiadinha, nem que fosse apenas do vão da porta, ver o que estava rolando, bater um dedo de prosa com o porteiro, o garçon, o cozinheiro, os proprietários. Ah, perdi a conta de quantas vezes, nessas espiadinhas, encontrava lá dentro, na calçada ou na porta pessoas que não via há muito tempo, que de passagem pela cidade ou de volta a cidade por exemplo, vinham ali visitar e recordar tempos passados. Bom Ponto de encontro, e reencontros. Os shows, ouvia-nos todas as noites mesmo se não descesse, reconhecia sem precisar consultar nenhuma agenda quem estava se apresentando naquela noite e já sabia até o repertório de cada um. Os sons e os cheiros do Ponto… mal entardecia já começava subir o aroma dos pratos sendo preparados na cozinha e difícil era resistir a certa hora da noite mandar subir uma porçãozinha de fritas, um pastelzinho ou uma das pizzas tradicionais cortadas em pequenos cubos, entregue na porta de casa na forma ainda por um dos garçons. Infinitas noites das quais sentirei saudades.

Portanto, peço a saideira em nome de todos para saudar este que fez parte de nossas vidas. Com batatas fritas. se não for pedir muito. Arriba Miguelito e Lurdinha! Foi bonito, foi!

(*) PYLLA KROTH é considerado dinossauro do Rock de Santa Maria e um ícone local do gênero no qual está há mais de 35anos, desde a Banda Thanos, que foi a primeira do gênero heavy metal na cidade, no início dos anos 80. O grande marco da carreira de Pylla foi sua atuação como vocalista da Banda Fuga, de 1987 a 1996. Atualmente, sua banda é a Pylla C14. Pylla Kroth escreve às quartas feiras no site.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A ilustração que você vê aqui é do Máucio Rodrigues, reproduzida de um postal criado para o bar.



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