É CINEMA. Bianca Zasso “esculpe o tempo” e, sem qualquer (que bom) pejo, faz uma elegia à sétima arte

É CINEMA. Bianca Zasso “esculpe o tempo” e, sem qualquer (que bom) pejo, faz uma elegia à sétima arte

É CINEMA. Bianca Zasso “esculpe o tempo” e, sem qualquer (que bom) pejo, faz uma elegia à sétima arte - biancaEsculpir o tempo

Por BIANCA ZASSO (*)

Com a moda desse aplicativo que envelhece nossos rostos para termos uma ideia de como seremos na velhice e ao ver pessoas comemorando a votação da nova reforma da previdência, esta colunista se pegou pensando sobre como serão suas próximas décadas. Não que o medo da morte me ronde, pois se há algo que nunca temi foi o de cair dura de uma hora para outra.

Mas ao ver as pessoas tão preocupadas em como serão suas rugas e seus fios grisalhos, me peguei pensando no tempo e em como está cada vez mais difícil administrá-lo. Isso não tem nada a ver com ter mais de um trabalho ou com a correria que parece tomar conta da gente quando se aproxima a segunda-feira. Estamos sem tempo. Será?

“E o que o tempo tem a ver com cinema, dona Bianca?”, é o que me perguntaria o dono deste site para o qual escrevo há quase oito anos. Tem tudo a ver. Não apenas porque uma das obras mais importantes sobre o cinema chama-se Esculpir o Tempo, escrita pelo cineasta russo Andrei Tarkóvski, mas porque, mais do que nunca, pessoas com poder estão tratando o cinema como perda de tempo. E de dinheiro.

Não estou querendo dizer que ir ao cinema não possa ser uma diversão. Não só pode como deve. Aliás, considero a melhor das diversões. Mas vislumbrar uma sala de cinema como apenas um lugar escuro para rir e comer pipoca não cabe nos nossos tempos. Mais um Santa Maria Vídeo e Cinema vem aí e nunca precisamos tanto de festivais.

Aos que reviram os olhos diante das minhas mal traçadas linhas (e eu sei que são muitos), não estou falando apenas do corte de verbas do governo na área da cultura. Estou falando do corte de verbas que muitos fazem quando o assunto é arte.

Eu sei que vivemos num país onde a maior parte da população mal ganha para suprir as contas do mês e garantir comida na mesa. Mas aos que não fazem parte desse número, que possuem seus confortos e podem reservar parte da renda para bancar os próprios prazeres, fica o meu pedido: invistam na arte.

Vá a museus, muitos são de graça. Se questione sobre o que vê antes de falar que é feio. Não é porque você não entende que é inválido, é apenas um outro olhar sobre o mundo. Você não é obrigado a olhar, assim como não tem o direito de impedir que outra pessoa olhe e admire.

Com o cinema, é a mesma coisa. Permita-se assistir a um filme que a sinopse não lhe agrada. Por favor, leiam que seja a sinopse antes de escolherem o que vão assistir. É parte do ritual e logo vai virar um hábito. Saiba do que se trata, busque na internet o nome do diretor (a). Conheça outras realidades por meio dos filmes.

Cresça um pouco mais como ser humano enquanto gasta seu suado salário. A arte é essencial na busca por um caminho e uma sociedade mais justa. Se pararem o nosso cinema, não vão parar apenas milhares de trabalhadores da Sétima Arte, mas milhões de expectadores que vão perder a chance de ver mais de uma face do nosso país.

Panfletário, esquerdista, comunista e muitos outros “istas” serão dirigidos a minha pessoa por conta deste texto. Ou talvez nenhum, já que quem está nem aí para o cinema brasileiro sequer deve ser leitor dessa coluna.

Mesmo assim, tenho orgulho de ter usado este espaço que me foi concedido para deixar claro que estamos perdendo um tempo precioso. O tempo da criação, da magia, do diferente, do instigante. O tempo do nosso cinema está contado. Vamos parar esse relógio e brincar com eras, décadas e mundos. Vamos fazer cinema do nosso jeito: assistindo e aprendendo com ele.

(*)  BIANCA ZASSO, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009.  Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.



3 comentários

  1. O Brando

    Aplicativo que envelhece para uns é engraçado, para outros uma amostra do nível intelectual das criaturas.
    No começo dos trinta ter medo da morte, a menos de doença grave, é muita neura. Ainda existe o sentimento de invulnerabilidade dos vinte.
    Cineasta russo xarope, não sei do que se trata e nem quero saber.
    Quando falta grana em toda parte do mundo o primeiro corte é na cultura e o segundo na educação. Efeitos a longo prazo e eleições no curto prazo. Simples. Se o cinema é tão mal feito que depende de auxilio estatal porque quase ninguém vai assistir vai para o topo da lista. Se é utilizado como ferramenta ideológica da oposição o corte é feito com gosto.
    Museus funcionam majoritariamente em horário comercial. Fim do assunto.

  2. O Brando

    Bueno, daí a coisa fica estranha. Parece algo como ‘vc tem um minuto para falar sobre ….’, ou ‘vá na missa’. ‘Cresça mais como ser humano’ soa como ‘seja mais parecido comigo que o mundo será melhor’. Arte sempre existiu e não consta que tenha modificado alguma coisa, no máximo retratou uma época. Sociedade mais justa para quem? Informação está disponível, milagres da tecnologia, não são necessários intermediários e ninguém quer ‘ser levado pela mão’.
    Panfletário, esquerdista e comunista não são desqualificadores, desde que haja vida inteligente por trás do epíteto. Questão é o descolamento com a realidade.

  3. O Brando

    Filmes nacionais bons (tirando as comedias românticas com atores globais que saíram nos últimos anos) existem, mas conta-se nos dedos. ‘Deus é brasileiro’ de Cacá Diegues, exemplo. Que não é russo, sueco, finlandês e muito menos obscuro.
    ‘Chatô, o rei do Brasil’. Mesmo feito a facão nota-se que foi uma boa história jogada fora. ‘Os Senhores da Guerra’, para trazer um exemplo mais local. Deve ter tido problemas, não teve edição, teve amontoagem. Dr. Bozano hora parece um fanático religioso, ora é ‘humanizado’, ora é extremamente ambicioso. Depois foi vítima de uma teoria da conspiração (que vem do livro), parece que o velho Borges negociou a tocaia para não ter concorrência.
    O resumo da ópera é que os cineastas tupiniquins querem um cheque em branco para produzir qualquer coisa que lhes dê na veneta, qualquer ‘viagem na maionese’ ideológica ou politicamente correta e que somente isto justifica a realização do celuloide. Pois bem, ainda existe gente com exames atrasados no SUS, gente sem atendimento, gente em corredores. Qualquer dúvida vide carnaval na aldeia. Fim do assunto.

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