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ARTIGO. Michael Almeida Di Giacomo, o recado do Papa, tempos de irracionalismo e a vinda do fascismo

O alerta dado pelo Papa Francisco

Por MICHAEL ALMEIDA DI GIACOMO (*)

Na última eleição ocorrida para o parlamento europeu, maio de 2019, a extrema-direita, que se não avançou conforme a previsão de especialistas, galgou bons espaços. Os nacionalistas, por sua vez, começam a recrudescer seu discurso anti-imigração e a defesa do protecionismo econômico; buscam marcar uma identidade nacional.

O resultado é que a Europa vive um momento de retrocesso político com o fortalecimento das correntes conservadoras e de extrema-direita. Há algumas boas exceções em países como Portugal, governado por uma coalização de esquerda e na Espanha, com a vitória do PSOE, em abril.

Porém, em países como a Itália, por exemplo, a crise proporcionada pelo vice-primeiro Ministro Matteo Salvani, que pretende liderar uma frente ultranacionalista, levou o Papa Francisco a afirmar: “o nacionalismo é uma atitude de isolamento. Estou preocupado porque ouvimos discursos que lembram os de Hitler em 1934”.

O alerta do Papa lembrou-me de uma afirmação de Pepe Mujica: “A patologia do conservador é ser reacionário. É andar para trás, de uma forma dogmática, fechada”. Também dei uma olhada na minha biblioteca e resgatei um compilado de ensaios escritos por George Orwell, entre os anos de 1938 e 1948. A edição brasileira pode ser encontrada sob o título “O que é o fascismo e outros ensaios”.

A obra é uma verdadeira imersão no ambiente de degradação moral e humana que a Europa viveu naquele período triste da história mundial. Em uma das passagens de “Profecias do fascismo”, escrita em 1940, Orwell faz menção à reimpressão de “O tacão de ferro”, de autoria do norte-americano Jack London, publicado a primeira vez em 1907.

A obra de London, um conto de opressão capitalista, foi escrita numa época em que o ressurgimento das correntes nacionalistas formataram uma das variáveis políticas e sociais que “acabaram tornando o fascismo possível”. Contudo, muitos políticos e intelectuais à época não conseguiam perceber o avanço dos reacionários.

Orwell resgata a leitura, porque, à sua cognição, London teria uma “inclinação fascista”, o que o ajudou a compreender como a classe dominante se comportaria ao ser atacada: usando um tacão de ferro.

Ele também faz uma afirmação no mínimo inquietante, no caso, de que muitos seguidores do marxismo não perceberam perigo no fascism: “até eles mesmos atingirem o portão dos campos de concentração”. De uma maneira geral, defendiam que o “fascismo social” é que era o real inimigo.

London morreu em 1916, mas sua obra, reverenciada por Leon Trótski, levou Orwell a conceber que provavelmente seus instintos o teriam advertido do perigo representado no discurso nacionalista de Hitler.

É evidente que a constatação de Orwell sobre os marxistas não deve ser tida como a principal razão da ascensão do fascismo. Mas é de consignar que, nos dias atuais, o colapso moral vivido em nossa sociedade tem afetado inclusive as correntes progressistas. O resultado é que não conseguimos identificar o “real inimigo”, o totalitarismo.

O retorno da tese nacionalista pode ser lido com uma pitada de realismo mágico, no que se refere à percepção do tempo. Na escola literária latino-americana, o tempo é cíclico. Não é linear.

É preciso saber como lidar com esse tempo. É necessário romper com o tempo da irracionalidade humana e promover os ideais de fraternidade e solidariedade, pois o passo seguinte ao nacionalismo é o fascismo. Não é uma afirmação pessoal. A história do mundo nos serve de alerta.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestrando em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A foto que ilustra este artigo é de Epa/Vaticano/Divulgação

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