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É CINEMA. Bianca Zasso não poupa entusiasmo com “Meu Nome é Dolemite”, obra do diretor Craig Brewer

Metendo o louco na telona

Por BIANCA ZASSO (*)

Trajetórias recheadas de desafios, quedas e ascensões são um prato sempre presente no menu do dia em Hollywood. Personagens que arriscam tudo em busca de um objetivo costumam render bons momentos mesmo conduzidos por direções medíocres ou mesmo roteiros clichês.

Mas parece que 2019 já tem a sua cinebiografia criativa e, acreditem, ela é uma produção original de uma plataforma streaming que acerta poucas vezes. Meu nome é Dolemite, de Craig Brewer, narra as loucuras que o comediante, ator, cantor e produtor Rudy Ray Moore encarou para se tornar um dos grandes nomes do blaxploitation, gênero que dominou as telas americanas nos anos 70 e fez o público negro (e também branco, mas em minoria) lotar as salas de exibição para assistir tramas violentas, engraçadas e com muita porrada e tiro.

Mas isso é a cereja do bolo agridoce de Dolemite, o alterego de Moore, hoje uma lenda do cinema setentista, interpretado com talento ímpar por Eddie Murphy.

Cansado de amargar shows de humor vazios e o emprego de gerente de uma loja de discos, Rudy Ray Moore quer reinventar seu humor e alcançar a fama. E confirmando a máxima de que é falando sobre o que conhecemos que conseguimos êxito, ele encontra seu diamante nas ruas do bairro em que vive, gravando e reformulando as rimas cômicas e repletas de palavrões que fazem a alegria dos mendigos que circulam por lá. Uma herança dos escravos, que se reuniam para criar histórias absurdas e amenizar a falta de liberdade.

Ao cair no gosto do público, as histórias de Dolemite percorrem a cidade em discos e apresentações. Mas ainda é pouco para o garoto do Arkansas que jurou encontrar o sucesso em Los Angeles. Seu norte é o cinema, onde ele poderá alcançar ainda mais pessoas com suas histórias cheias de sacanagem. Mas ele nunca fez um filme na vida. Por isso mesmo, irá fazê-lo. Com grana do próprio bolso e muitos empréstimos. Ah, e uma dose extra de improviso, próprio dos profissionais do humor.

Para o espectador amante do blaxploitation, Meu nome é Dolemite é um deleite desde o primeiro segundo, quando os acordes de Let’s Get it on, de Marvin Gaye ecoam no programa de rádio comandado por Roj (um Snoop Dogg inspirado), enquanto Moore tenta convencê-lo a tocar seu disco na programação.

O swing dos diálogos, a trilha sonora empolgante e o clima dos clubes negros americanos exalam em cada sequência, mostrando que o diretor Craig Brewer continua competente na condução de comédias com toques de nostalgia.

Não bastasse a direção de arte primorosa e a malemolência intrínseca dos personagens, Meu nome é Dolemite ainda conta com um elenco soberbo, com destaque para Wesley Snipes, trazendo toda a malandragem e ego inflado de D’Urville Martin, ator conhecido do cinema negro, que trava uma guerra divertidíssima com Dolemite durante as filmagens.

Além de acompanhar a subida de Dolemite até o topo mais alto do sucesso, alcançando uma das maiores bilheterias da história do blaxploitation, o filme também imprime poesia na figura sonhadora de seu protagonista.

A cena em que Moore parece ser hipnotizado pela luz que sai do projetor na sala de cinema, ao ir assistir A Primeira Página, comédia de Billy Wilder, com um humor essencialmente branco de classe média, não apenas marca a reviravolta da história, como também deixa claro o talento natural de Moore para agradar seu público.

Suas piadas faziam sentido para o espectador negro porque trazem na sua essência algo ancestral, que até então passava longe das telonas. Murphy está tão à vontade em cena, que chegamos a confundi-lo com o verdadeiro Moore nas reproduções de cenas clássicas de Dolemite, longa que chegou aos cinemas em 1975 e instituiu seu nome como um dos mais importantes do cinema negro americano.

As apostas em Murphy para a temporada de premiações estão altas e com razão. Há tempos um protagonista tão carismático não dava as caras entre os indicados. E fica a sugestão para quem se empolgar com o gingado (literal e simbólico) do filme: assista, na sequência, Dolemite, de D’Urville Martin e abra as portas do blaxploitation, caro leitor. A diversão é garantida em altas doses. Rudy Ray Moore mete o louco e ninguém consegue dar o troco. Vá e veja.

Meu nome é Dolemite (Dolemite is my name)

Direção: Craig Brewer

Ano: 2019

Disponível na plataforma Netflix

(*) BIANCA ZASSO, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009.  Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.

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Um Comentário

  1. Autora precisa dar uma espiada fora da bolha do audiovisual tupiniquim. Refiro-me ao ‘ humor essencialmente branco de classe média’.
    Billy Wilder não é considerado ‘branco’, nos EUA é um judeu (aspecto que rende piadas por lá, inclusive nos SNL da vida). Brasileiros são considerados latinos na sua grande maioria. ‘Branco’ é reservado para os imigrantes dos países nórdicos, da Alemanha e os WASPS.
    Nenhum demérito na condição judia, Woody Allen, Billy Cristal, Peter Sellers, Seinfeld, Gene Wilder, Mel Brooks, etc. Noutros gêneros também existe grande representação, irmãos Coen, Steven Spielberg, lista é grande.

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