ARTIGO. "Caso queiram “secar” a Petra, pelo menos assistam ao filme na íntegra", diz Luciano Ribas

ARTIGO. “Caso queiram “secar” a Petra, pelo menos assistam ao filme na íntegra”, diz Luciano Ribas

ARTIGO. "Caso queiram “secar” a Petra, pelo menos assistam ao filme na íntegra", diz Luciano Ribas - Tinha uma petra no meio do caminho

Por Luciano Ribas*

Por essa o néscio e seu rebanho não esperavam: “Democracia em vertigem” concorrendo ao Oscar de melhor documentário.

A reação da tropa indicou, além da surpresa, que “sentiram o golpe”. Tanto que logo tocaram o berrante para que começasse a desqualificação do filme, da diretora, do Oscar e até de Hollywood, que virou “um ninho de esquerdistas”. Aliás, quantos críticos de cinema surgiram de uma hora para outra, não é mesmo? Inclusive o seu Jair da casa 58, que comparou o filme com aquilo “que urubu come” – um comentário que deve ter consumido uma manhã e uma tarde de esforços intelectuais do amigo de milicianos…

Mas o desespero é compreensível. A indicação, mesmo que não venha a resultar no prêmio (inédito para o cinema brasileiro), dá novo fôlego ao debate sobre o golpe de 2016, garantindo ao assunto uma visibilidade internacional sem precedentes. Isso em um momento onde a “moral” do Brasil está, graças às patacoadas e às barbaridades cometidas pelo atual governo, abaixo daquela parte extrema da anatomia canina.

Evidentemente, a indicação ao Oscar não resolve os problemas do Brasil e, mesmo que o filme venha a ser vencedor, sozinho não será capaz de resgatar a nossa combalida democracia. Não basta um filme para isso. Aliás, não bastam filmes. Mas eles são símbolos e portam mensagens. Fazem pensar. Expõem a ignorância e a falta de caráter. Mostram a mesquinhez e o vazio dos “patriotas” de conveniência. Derrubam máscaras, especialmente as de uma classe média (em grande parte assalariada e empregada do Estado) acostumada a viver nas franjas das elites, arrotando “liberalismo”. Em resumo, fazem o que a arte deve fazer.

Por tudo isso, “Democracia em vertigem” merece ser visto, inclusive por quem deseja combatê-lo. O “não vi e não gostei” serve apenas como atestado de imbecilidade. É um filme com muitas camadas de interpretação, com nuances importantíssimas e até com “flancos” que podem ser questionados. Petra Costa assumiu esses riscos ao mesclar memória familiar, trajetória pessoal e momentos políticos, mas fazer arte também é arriscar. Porém, como não sou crítico de cinema e nunca perguntei a um urubu que tipo de coisa ele gosta de ver nas telas, opto por não avançar na opinião sobre o filme em si, inclusive porque isso não é o mais importante.

Afinal, o que interessa mesmo nesse momento é que a classificação ao Oscar talvez seja o frame inicial de um plot point, um ponto de virada, nessa desconstrução do Brasil como país soberano e nesse massacre dos homens e das mulheres que vivem do próprio trabalho. Sem se darem conta, os bolsonaristas ajudaram nisso ao combaterem o filme como se resistissem ao demônio. Deliciosamente, caem na própria armadilha como não haviam caído até agora.

No dia 9 de fevereiro, irei torcer fervorosamente por “Democracia em vertigem” (bem como por “Dois papas”, dirigido por Fernando Meirelles, que construiu um belo filme em torno do que representam Bento XVI e Francisco) e convido as três ou quatro pessoas que me leem a fazerem o mesmo. Mas, caso queiram “secar” a Petra, pelo menos assistam ao filme na íntegra. Advirto, porém, que não é “Velozes e furiosos”, talkey?

No filme, mesmo não tendo um “monte de coisa escrita”, há uma fartura de imagens costuradas por uma narração densa e bastante introspectiva, característica que me leva a crer que o seu Jair da casa 58 teria menos chance do que o urubu de entender a obra.

Em tempo: escrevi esse texto antes do energúmeno que ocupa a secretaria da Cultura, Roberto Alvim, copiar um discurso do nazista Joseph Goebbels. Não há palavras suficientes para descrever o que sinto por tamanha ignomínia. Demissão sumária e processo criminal por apologia ao nazismo seriam o mínimo a ser feito se houvesse decência nesse governo.

Luciano do Monte Ribas é designer gráfico, graduado em Desenho Industrial / Programação Visual e mestre em Artes Visuais, ambos pela UFSM. É presidente do Conselho Municipal de Política Cultural e um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema, além de já ter exercido diversas funções na iniciativa privada e na gestão pública.

Para segui-lo nas redes sociais: facebook.com/domonteribasinstagram.com/monteribas.

Observação do editor: Foto: registro dos momentos que antecederam a manifestação pró Lula do dia 10 de maio de 2017, na Praça Santos Andrade, em Curitiba.



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