ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e mais um dos efeitos do vírus: vai embora a tese do hiperindivíduo

ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e mais um dos efeitos do vírus: vai embora a tese do hiperindivíduo

ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e mais um dos efeitos do vírus: vai embora a tese do hiperindivíduo - 0341f18b-leonardo-artigoO cuidado de si, o cuidado do outro e o cuidado com o outro

Por LEONARDO DA ROCHA BOTEGA (*)

Em setembro de 1987, em entrevista à Revista Woman’s Own, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher foi questionada sobre a postura gananciosa dos Yuppies (Young Urban Professional) e o crescimento da desigualdade social. Em sua resposta cunhou aquela que talvez seja a sua afirmação mais lembrada: “a sociedade não existe. Existem homens, existem mulheres e existem famílias”.

Apesar de não representar uma ideia original, tal afirmação representava em poucas palavras “a nova razão neoliberal” que viria a dominar o mundo como justificativa para o conjunto de transformações na vida de bilhões de trabalhadores espalhados por todo o globo. As palavras de Thatcher davam voz a uma visão que concebe as organizações sociais unicamente a partir dos interesses dos indivíduos particularizados.

Para essa visão, o mundo (guiado pela economia entendida como mera relação de mercado) se projeta como a soma de indivíduos egoístas e competitivos. Seu modelo, conforme alertam Pierre Dardot e Christian Laval, não é mais “o homem da troca que faz cálculo a partir de dados disponíveis”, o tipo ideal de indivíduo para Adam Smith e a tradição liberal clássica, “mas sim o homem que escolhe um objetivo e pretende realizá-lo”. Obviamente, para a maior parte desses indivíduos tal objetivo e a sua forma de realização não são propriamente escolhas, mas imposições. Palavras como metas, desacomodação e flexibilização constroem esse modelo. Direitos sociais e trabalhistas são retirados e a precarização da vida se apresenta como uma realidade onde o novo tipo ideal de hiperindivíduo não deve dar espaço ao coletivo, muito menos às lutas coletivas.

Desresponsabilizado socialmente e convencido de que está sozinho na selva do mercado, esse hiperindivíduo torna-se um “empreendedor de si mesmo” (na definição de Franco Berardi). Um homem-empresa que sufocadas suas angústias e medos em prol de um desempenho do qual aparentemente sua vida depende. Paradoxalmente, esse hiperindivíduo, ideologicamente construído, se vê desafiado diante de um vírus gerador de angústias e medos coletivos.

O Sars-CoV 2, vírus produtor da Pandemia (Covid 19), atingiu em cheio a lógica do hiperindividualismo. Seu enfrentamento colocou o hiperindivíduo contra a parede, desestruturou a sua “normalidade” e lhe propôs uma via de mão dupla com a sociedade. Passados 33 anos da afirmação de Thatcher, a realidade impõe que para que se continuem existindo homens, mulheres e famílias, deve, necessariamente, existir sociedade. O pertencimento coletivo foi recolocado como centro da vida. A maneira como o indivíduo encara (e respeita) o distanciamento social (por mais paradoxal que pareça) e o uso da máscara refletem a forma como ele se coloca diante deste pertencimento. A forma como cada sociedade se coloca diante deste pertencimento reflete o maior ou o menor impacto da Pandemia sobre ela.

O cuidado do outro e o cuidado com o outro como condições para o seu próprio cuidado se reativa como um mantra da existência humana diante da Covid 19. A negação desses cuidados expressa o não se enxergar enquanto ser social. O não se enxergar enquanto ser social no atual contexto pode produzir um potencial de autodestruição e de destruição de todos os que estão a sua volta. Um potencial que se torna gigantesco quando incentivado por alguém que usa a faixa presidencial sem a responsabilidade coletiva que essa requer, sobretudo, em tempos de crise.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: a montagem sobre a foto da ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher, que morreu em 8 de abril de 2013, aos 87 anos, não não tem autoria determinada. Mas o site de onde foi extraída é este: AQUI



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