Política

CRÔNICA. Orlando Fonseca e a revelação do 22 de abril: o dia em que o Brasil descobriu que o rei está nu

22 de abril

Por ORLANDO FONSECA (*)

Muitos de nós, que estivemos em salas de aula nas décadas de 60 e 70 do século passado, fomos instruídos a respeito do descobrimento do Brasil, fato que se deu a 22 de abril de 1500. Estranhamente, para os pequenos escolares de tapa-pó e Conga, não era feriado, porque o Getúlio já havia abolido comemorações do aniversário, algumas décadas antes. Talvez para poupar velas, quase 500! Outra coisa que aprendemos naquelas priscas eras nacionais é que foi uma descoberta por acaso. Cabral e sua esquadra iam passando, ao largo, para comprar especiarias nas Índias, a nau capitânia deu uma vacilada e, quando viu, estavam chegando às costas brasileiras. Ou seja, Cabral errou o caminho e deu de cara com aquela indiarada nua.

Desde a semana passada, no entanto, o dia do descobrimento passa a ter uma outra conotação. Envolve capitão de esquadra, seus ajudantes, o Brasil e alguns erros na rota, mas é outra coisa. Isso me ocorreu assistindo ao vídeo, liberado pelo ministro do STF, Celso de Mello, na sexta passada. Eram as cenas dantescas – para dizer o mínimo – de uma reunião tida e havida no palácio do Planalto em 22 de abril deste ano. Na reunião ministerial, o Chefe da Nação e seus auxiliares revelaram de tudo, especialmente o comportamento errático de um governo sem projeto. Não parecia uma reunião do alto escalão, em face dos termos de baixo calão reinante. Pero Vaz de Caminha coraria de vergonha para relatar em crônica o que veria e ouviria ali. Eu fiquei atônito e lembrei de um artista brasileiro, falecido no início deste mês, o letrista Aldir Blanc, que escreveu, nos versos de uma canção sua com João Bosco: “o Brazil não conhece o Brasil”. Assim como a ex-secretária da cultura, a que foi sem nunca ter sido, fazia questão de desconhecer o Aldir.

O rei está nu. Se isso o incomoda, ou se incomoda as autoridades dos demais poderes, é outra coisa. A revelação do vídeo foi uma solicitação do agora ex-ministro da justiça, Sérgio Moro, como prova de uma afirmação sua sobre intervenção política do Presidente na Polícia Federal. Pelo que se tem observado, Moro diz uma coisa, o que é corroborado pela mídia e pela oposição. Já o boquirroto capitão diz outra coisa, tergiversa e confunde a narrativa, sendo aplaudido por correligionários e fãs do mito. Editoriais de grandes jornais, manchetes e comentários não deixam por menos: é um absurdo, trata-se de uma fala eivada de ilegalidade ou imoralidade. Já para outros observadores, o que o defensor da Cloroquina ganhou foi uma baita publicidade.

E tudo isso, veio à tona, no dia em que o Brasil ultrapassou a Rússia em número de casos do novo coronavírus; já é o segundo entre os países com mais infectados pela doença, perdendo apenas para os Estados Unidos. Ficamos sabendo, testemunhas oculares, de que o país vinha atravessando a maior pandemia de todos os tempos, e o chefe da nação não trata do assunto, não se preocupa com planos para defender a população do vírus mortal – aliás, só falou em proteger a família e os amigos: “Eu não vou esperar foder a minha família toda para trocar segurança, chefia da segurança ou ministro”. E não foi o único a protagonizar diatribes: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, diz que os ministros do STF deveriam ser presos; o do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu passar “a boiada e mudar” regramento enquanto a atenção da mídia está voltada para a Covid-19. Já a ministra Damares, aquela que vira Jesus na goiabeira, agora quer prender governadores e prefeitos.

Parodiando o refrão do poeta-profeta, Aldir Blanc, nesta sexta-feira o Brasil descobriu o Brasil, e viu que o rei está descoberto, pelado, como estavam os povos indígenas (que o Ministro da Educação odeia, conforme palavras suas na fatídica reunião) na chegada de Cabral. Só que há mais de cinco séculos, isso era a coisa mais natural. Agora, é sintoma de algo que nos deixa perplexos e apreensivos, pois não sabemos o que ainda está por se descobrir neste Brasil à deriva. Ao fundo ecoam as palavras do poeta: “O Brazil tá matando o Brasil”.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: A imagem que ilustra o artigo é uma reprodução da tela Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, 1500; do pintor, desenhista e professor Oscar Pereira da Silva.

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4 Comentários

  1. Editoriais de grandes jornais, manchetes e comentários. Valem menos que um traque de pulga. Não é de hoje. Falam bem dos que gostam (ressaltam as qualidades, escondem os mal feitos), mal dos que não gostam e tentam impor agendas à sociedade, fazer engenharia social.
    Jornalismo era considerado um EPB de 4 anos tempos atrás, gente com dificuldades cognitivas nunca foram incomuns. Não melhorou. Agora confundem fama com sapiência, como os artistas (e outras tribos) assumiram a tarefa ‘divina’ de ‘levar a humanidade adiante’.
    TV estatal chinesa andou comprando espaço na Band. Alguns ex-embaixadores têm firmas de consultoria em BSB. São lobistas de outros países, inclusive da China. Soft Power. País é a ditadura de um partido comunista. Existe admiração pelo modelo, inclusive empresários. Isto é noticiado? Alguns profissionais de imprensa tem bolsos fundos.
    Argentina resolveu adotar o modelo ‘tranca tudo até o vírus sumir’. Querem provar que a ideologia funciona. Já estavam quebrados mesmo. Depois é só colocar na conta do vírus. Discurso da vizinhança, da parceria comercial, deve voltar. ‘Necessitamos de ajuda humanitária’. Pois que peçam para o Papa.

  2. Ministro não afirmou que’ odeia os povos indigenas’, disse que odeia o termo. Diferença foge a percepção de alguns. Nos EUA, que os vermelhinhos odeiam mas querem copiar quando conveniente, as tribos são nações domesticas dependentes com certo grau de soberania. Obviamente no Brasil abriria uma avenida para o separatismo, intervenção externa, etc. Não só de governos, existem outros atores.

  3. Guerra de narrativas. Construiu-se uma e não se sustentou. Alás, no dia da renúncia jornalista da Rede BullShit, não famosa pelos dotes intelectuais, fez inúmeros enquadramentos jurídicos para logo depois do depoimento afirmar que a montanha tinha parido um rato.
    Aldir é um ilustre desconhecido. Ninguém é melhor ou pior por conta de ter livro A ou B, por conhecer músico A ou B. Nem mais inteligente.
    Número da Russia são duvidosos. Um por cento de mortalidade. Com a BBC mostrando fila de 5 Km de ambulâncias esperando para descarregar pacientes no hospital e gente telefonando pedindo uma sem ser atendido.
    Combate ao vírus foi transferido a estados e municípios pelo STF.

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