COLUNA. José Mauro Batista e a lembrança de um verdadeiro bolsonarista “raiz”, o capitão Enir dos Reis

COLUNA. José Mauro Batista e a lembrança de um verdadeiro bolsonarista “raiz”, o capitão Enir dos Reis

COLUNA. José Mauro Batista e a lembrança de um verdadeiro bolsonarista “raiz”, o capitão Enir dos Reis - f4a8612b-mauro-colunaUm certo Capitão Enir

Por JOSÉ MAURO BATISTA (*)

Nas eleições municipais de 1992, apareceu em Santa Maria um capitão do Exército e se candidatou à Câmara Municipal pelo PTB, ficando na suplência. Seu nome: Enir Garcia dos Reis. Vereador por três mandatos, Enir deixou seu nome na história do Legislativo, principalmente por reproduzir as posições do então deputado federal Jair Bolsonaro (Rio de Janeiro).

Enir teve papel importante na pré-história de Bolsonaro no Rio Grande do Sul, pois além de ser um dos poucos parlamentares alinhados com o então deputado, atuava em uma cidade militar – já na época com o status de 2ª praça de guerra do país em termos de contingente militar. Daí o interesse de Bolsonaro em ter Enir junto com ele na Câmara dos Deputados. Os dois tentaram, a partir do Sul e do Sudeste do Brasil, montar uma espécie de quartel general da corrente política a que se alinhavam para, um dia, chegar ao poder. Enir morreu em 2011, em Belém do Pará, em decorrência de um tumor cerebral, bem antes de Bolsonaro concretizar o sonho de chegar ao comando do país.

Porta-voz da caserna

Em junho de 1993, como suplente do PTB, Enir estreou na tribuna do Legislativo reproduzindo um discurso contundente de Bolsonaro contra os governos civis que sucederam os governos militares instaurados em 1964. Deputado pelo PPR (atual PP), Bolsonaro não só defendeu o retorno dos representantes das Forças Armadas ao poder.

O discurso bolsonarista, que ganhou eco na voz de Enir, sacudiu a Câmara na tarde de 15 de junho de 1993. Três dias depois, o capitão-deputado visitava Santa Maria para o pré-lançamento da candidatura de seu afilhado a deputado federal e colocava mais gasolina na fogueira.

Aqui, em entrevista, Bolsonaro reafirmou o pronunciamento reproduzido pelo suplente de vereador e pregou a implantação de um regime de exceção com fechamento temporário do Congresso Nacional. Em outras palavras, a reinstauração de uma ditadura nos moldes do AI-5, editado em 1968.

A fala de Bolsonaro rendeu-lhe uma resposta contundente do meio político, sobretudo da Câmara local. O capitão-deputado teve cassado o título de “Visitante Ilustre” e recebeu o de “Persona non Grata”, título este que o Legislativo tentou revogar no ano passado quando da visita do já presidente a Santa Maria. Bolsonaro retornou à cidade em 1994 e, em entrevista, evitou a polêmica do ano anterior.

Amigo de cães e gatos

Enir teve outros dois mandatos e uma segunda candidatura a deputado federal (a primeira pelo PL, quando deixou o PTB, e a última pelo PMDB). Nos dois pleitos fez 18,3 mil e 16,4 mil votos respectivamente. Sua atuação no parlamento municipal foi marcada por discursos em defesa da “família militar”, como ele chamava os subalternos, das teses de Bolsonaro e da defesa da causa animal.
Ele não foi o primeiro, mas certamente o vereador que mais – talvez o único – abraçou a causa da bicharada nos anos 90, o que lhe rendeu a simpatia de ONGs e tutores de pets. Afora isso, presidiu a barulhenta CPI do Camelódromo, que investigou o comércio informal e lhe valeu ameaças de morte.

A fama que carregou

Dono de uma personalidade forte, Enir tinha fama de violento. Certa feita, um colega reclamou que ele estaria armado em uma sessão. O vereador justificou que estava sendo ameaçado de morte por conta da CPI que investigava irregularidades no antigo Camelódromo da Avenida Rio Branco e que, por isso, tinha uma pistola no gabinete.

Em outra ocasião, teria murchado os pneus do carro de outro vereador que havia estacionado na vaga dele. Já em São Luiz Gonzaga, onde morou antes de vir para Santa Maria, andou se encrencando judicialmente em uma punição que ele e outros militares aplicaram, por conta própria, em um indivíduo que atacou uma moça. Essa história ele contou ao repórter, que é daquela cidade e acompanhou o caso, na época, quando trabalhava no Fórum.  Por fim, na última candidatura, ficou furioso ao saber que outro militar santa-mariense concorreria a deputado federal. E destratou o adversário na tribuna.

Apesar dessa fama, Enir era adorado por boa parte dos servidores da Casa, que até hoje falam bem dele. Pesando na balança, ninguém que conviveu com o capitão-vereador deixará de reconhecer que, mesmo com uma personalidade forte, ele era uma fonte confiável de informação e de bom trato com a imprensa. E mais: tinha uma ideologia muito bem definida e a defendia ao pé da letra, diferentemente de muitos que passaram pela Câmara.

(*) José Mauro Batista é jornalista. Até recentemente, editor de Região do Diário de Santa Maria. Antes foi repórter e editor do jornal A Razão. Escreve no site semanalmente, aos domingos.

Observação do Editor: a imagem que ilustra esta coluna é uma montagem sobre foto do Capitão Enir (reproduzida da internet) e da página da entrevista aludida pelo autor, com o então deputado Jair Bolsonaro, na famosa visita a Santa Maria.



2 comentários

  1. Andreza Bernardes

    Prezado Claudemir,

    É honroso perceber que mesmo após quase 9 anos de seu falecimento meu avô continua sendo lembrado e noticiado na cidade na qual, de fato, fez história na política. Sua memória merece e deve ser mantida e passada a diante, nós da família temos muito orgulho e respeito pelo legado do capitão Enir.

    Gostaria de acrescentar que o político Enir Garcia dos Reis era muito mais que um mero bolsonarista, ele levantou bandeiras importantes, defendeu causas que não tinham visibilidade na região, dos vendedores informais ao mercado funerário, da defesa dos animais à proteção de famílias e aposentados reservistas. Da Câmara ao consultório no qual trabalhava, muitas vezes Quase de graça, para que todos tivessem acesso à uma consulta de qualidade com dignidade.

    A fama de mau jamais pode sobressair à generosidade e caráter de meu avô. O bom humor e o coração que não cabia no peito. Para além de político sem retoques meu avô foi um humano como poucos vistos. Honroso, corajoso, fiel aos ideias. Não podemos confundir ser assertivo com agressivo, quem o conheceu pode testemunhar minhas palavras.

    Um tal capitão Enir apareceu no cenário político de Santa Maria RS 1992 e lá permanece vivo na memória dos que o cercavam. Permanece vivo no coração da família. No legado político e de amor que criou.

    Peço respeito à sua memória. Peço que sua imagem não seja diminuída a imagem de outrem. Meu avô foi e continua sendo gigante por si só. Nunca precisou usar de rostos terceiros para se promover.

    Atenciosamente,

    Andreza dos Reis Bernardes. Neta orgulhosa e saudosa.

    Andréa Cristina Reis

  2. Andréa Reis

    Prezados Caludemir Pereira e José Mauro Batista,

    Falar de um tal Capitão Enir é falar muito mais do que apenas o colocar como mérito repetidor de outro.
    Para falar sobre o Enir Garcia dos Reis tem que ir mais a fundo, conhecer sua história de vida, do homem forte, guereiro e lutador, que veio de baixo, ingressou na carreira militar como recruta e com seu esforço concluiu o ensino superior e se especializou em Buco- Maxilo-Facial o levando a oficial do Exército Brasileiro.
    Para falar sobre os mantados do Capitão Enir, mais uma vez tem que ampliar e não o limitar como reprodutor Bolsonarista! Tem que entender que “familia militar” é termo comum ao meio, que representa os militares, suas famílias, reservistas e pensionistas, não apenas aos subalternos! E para tal feito, tem que ser humildade e respeito pelo próximo.
    Tem que falar o qão justo e coerente ele era, que até em seu consultório odontológico ele atendia por prazer, sem fins lucrativos, pois queria fazer para todos e não só pelos que podiam!
    E ele tanto queria fazer por todos que foi o que mais vez -talvez o único- que lutou pela causa animal, tão sem representatividade e indefesa, onde também sofreu ameaça!
    Assim como é preciso muita coragem para enfrentar poderosos a favor dos mais fracos, não estou aqui apenas falando da CPI do camelódromo, mas também na abertura do comércio funerário, antes bem restrito, lembra? O que mais uma vez resultou em ameaça de morte para ele e familiares.
    Falar do Capitão Enir realmente não dá para deixar a sua personalidade forte de lado, suas características marcantes e firmes baseadas em valores morais e éticos. E foi com sua fala e pulso firmes que ele enfrentou os que ninguém tinha coragem! Ele não hesitava em vacilar, pois era destemido.
    Falar que ele era violento? Por ele andar armado? O Decreto n°3.864 de 24/11/1941 já dá a primeira resposta. Pq ele e sua família viviam sobre ameaças de morte, segunda resposta. Pq ele murchou os pneus de outro vereador? Pq ele puniu um homem que atacou uma mulher? Isso pra mim é heroísmo! Até hoje vemos mulheres sendo covardemente atacadas por homens e ninguém faz nada!
    Violento são os maus tratos que os animais sofrem, violento é o uso da tribuna por políticos para tripudiar na população Santamarienese com falsos discursos, atitude que o ilustríssimo Vereador Cap. Enir nunca teve!
    E por ele ter sido esse homem com valores sólidos e princípios bem definidos é que eu me orgulho de ser sua filha. E por isso também que ele é até hoje, lembrado e reconhecido em Santa Maria como político e acima de tudo como ser humano. Então eu lhe peço que não declina a imagem do meu pai, como um mero reprodutor bolsonarista! Eles eram amigos, sim! Eles eram aliados na política, sim! Mas meu pai tinha personalidade suficiente para seguir enfrente e ser quem ele era.

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