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ARTIGO. Valdeci Oliveira e as ”reais” preocupações presidenciais, que nada têm a ver com o coronavírus

No Brasil, a Covid-19 tem quase uma licença para matar

Por VALDECI OLIVEIRA (*)

O que são 100 mil vidas perdidas em seis meses? Ou ainda, o que significam 100 mil vidas perdidas em 180 dias por conta de ações erráticas, posturas negacionistas e discursos irresponsáveis? O que significa perdermos 100 mil pessoas pela disseminação de informações falsas, pela propaganda enganosa de panaceias miraculosas, remédios sem comprovação de eficácia ou pela falta de apoio e coordenação de quem, por obrigação moral e constitucional, deveria fazê-lo?

Números são sempre frios, sem rostos e sem coração. Também não trabalham para sustentar a si e aos seus, não sentem saudades e não tem esperança. Por mais que expliquem ou demonstrem algo, os números nunca serão capazes de ilustrar a dor da perda de uma mãe ou a tristeza de um filho enlutado.

Por outro lado, são os dados e as informações que nos ajudam, racionalmente, a entender muitas coisas, como o tamanho da incompetência, da falta de empatia e da inexistência do sentimento de solidariedade de um governo e seu descrédito na ciência. Não! Definitivamente não, senhor presidente da República! Ao contrário do que foi dito dias atrás por vossa excelência, a imprensa não comemorou, como disputa política, o trágico número de 100 mil vidas perdidas. O que se fez foi registrar, em letras garrafais, esse absurdo, esse resultado inaceitável. Não há como naturalizar a perda, antes da hora, de centena de milhares de brasileiros e brasileiras, sejam jovens, adultos, idosos e também crianças. Muitos acreditaram nas suas palavras, o viram circular em público sem máscara, acreditaram que a economia devia estar acima da vida e que o distanciamento social era para sabotar sua administração. Muitos viram como verdade que se tratava só de uma “gripezinha”. Muitos daqueles que acreditaram no senhor pagaram com a própria vida.

Vemos agora que a sua preocupação, presidente, nunca foi pelas vagas de empregos fechadas aos trabalhadores ou pelos prognósticos econômicos que acenavam em direção a um horizonte problemático. A sua preocupação, se em algum momento foi com o emprego, o foi e continua sendo com o seu próprio, agora e em 2022. Vemos também que seus cálculos nunca miraram o controle do caos sanitário, mas buscaram diferentes cenários políticos e sua respectiva posição em cada um deles. Nesse período de pandemia, vimos que sua preocupação em nenhum momento foi com as famílias brasileiras, mas única e exclusivamente com a proteção e blindagem da sua.

Para que tenhamos uma pequena ideia do tamanho da tragédia que estamos vivendo, mas que mesmo assim continua sendo reduzida pelo senhor a uma questão de que a vida “é assim mesmo”, em quase duas décadas de guerra nas selvas da Ásia, o maior e mais poderoso exército do mundo ocidental, o norte-americano, contabilizou cerca de 58 mil baixas entre os seus. Isso foi há meio século, no Vietnã. Há 75 anos, a mais destrutiva das armas de guerra até então construída pela mente humana e lançada contra uma população dizimou em poucos segundos cerca de 90 mil almas na cidade japonesa de Hiroshima.

Sim, os números, apesar da frieza inerente, nunca devem ser subestimados. Vivemos em um país com alta taxa de homicídios, crime que, nos 365 dias de 2019, respondeu por pouco mais de 40 mil óbitos, o que representou menos da metade dos óbitos gerados, somente em alguns meses pelo novo coronavírus.

As “soluções” apresentadas pelo senhor até aqui, caro presidente, foram a indicação e distribuição de medicamentos sem comprovação científica quanto à eficácia e segurança – o que resultou na saída de dois ministros da Saúde -, a concessão de míseros R$ 200 de ajuda emergencial à população (que foi triplicada por pressão do Congresso Nacional), a transferência das suas responsabilidades para os prefeitos e governadores e a atuação para  mudar o cálculo de contagem diária dos óbitos e, assim  reduzir o impacto negativo sobre a sua administração.

Passados 153 dias do centésimo caso de covid-19 no país, não conseguimos sequer ainda diminuir o crescimento do contágio junto à população e possuímos a maior proporção de infectados no mundo, perdendo apenas para os EUA.

Ao término da leitura deste artigo, o país vai registrar duas pessoas a menos vivendo com suas famílias. Até o final desta sexta-feira (14), teremos mais de mil nomes a engrossar esta famigerada contabilidade macabra. Com isso, senhor presidente, as suas mãos, tão pródigas em fazer o gesto da arminha, estarão cada vez mais impregnadas de sangue brasileiro, carregando consigo o cheiro da morte, a umidade das lágrimas e a dor de milhares. Mas como o senhor mesmo disse: “e daí?”.

Imagina, senhores e senhoras, se o Brasil não contasse com a labuta dedicada de milhares de trabalhadores e trabalhadoras da saúde, que, mesmo atuando em condições inadequadas e sob jornadas estafantes, conseguiram salvar inúmeras vidas. Alguns profissionais, inclusive, trabalharam até morrer de Covid-19, mas partiram com o sentimento do dever cumprido. Aos lutadores da saúde, o meu respeito e a minha homenagem.

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria. Também é Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Duplicação da RSC-287

Observação do editor: a imagem (seu autoria identificada) que ilustra este artigo é uma reprodução da internet.

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