ARTIGO. Débora Dias e o idoso: “envelhecimento é natural, mas a discriminação e o desrespeito, não”

ARTIGO. Débora Dias e o idoso: “envelhecimento é natural, mas a discriminação e o desrespeito, não”

ARTIGO. Débora Dias e o idoso: “envelhecimento é natural, mas a discriminação e o desrespeito, não” - 33241977-débora-dias-artigo1º de Outubro, Dia Nacional e Internacional do Idoso: o envelhecimento é natural. Podemos comemorar?

Por DÉBORA DIAS (*)

Sempre podemos. Mas, há o que conscientizar e preparar nossa sociedade (nós) para a chamada terceira idade, se bem que com a longevidade do brasileiro aumentando, já temos a uma 4ª idade, dos brasileiros com mais de 80 anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o mundo, em 2050, terá dois bilhões de  pessoas com mais de 60 anos de idade. Contudo, ainda temos muito a aprender sobre o envelhecimento do ser humano, sobre respeito, cuidados, saúde mental, violência (psíquica, física, patrimonial) envolvendo idosos.

Nossa sociedade é muito preconceituosa, discriminatória e muitas vezes até mesmo cruel com a fase do envelhecimento. Este é um processo que faz parte da trajetória de todo homem, mulher, a não ser que seja interrompida na infância, juventude, enfim antes dos 60 anos de idade. Idade que o Estatuto do Idoso considera a pessoa idosa para fins do referido diploma legal, para o destino protetivo e para a maioria dos direitos decorrentes dele, como por exemplo, o pagamento de 50% do valor de ingressos em espetáculos, teatro, cinema, etc.

Bem, regressando ao assunto, o envelhecimento é natural, a discriminação e desrespeito não. E é nisso que temos que focalizar nossas atitudes, desde sempre. Mas, infelizmente há uma supervalorização do “novo”, do corpo jovem, do culto à beleza da juventude e por conseqüência do desmerecimento do que se opõe a esses conceitos.  Mudamos muito como sociedade; hoje sabemos que em decorrência da longevidade, da qualidade de vida, das descobertas científicas relativas à saúde, medicamentos, as pessoas envelhecem mais lentamente do que há 20, 30, 40 50, 60 anos, ou até antes, mas o preconceito continua.

Dessa forma, aquele que não se educa e educa para valorizar o ser humano como um todo, em todas as suas fases, não pode esperar também ser valorizado quando envelhecer. Ou seja, há uma troca, uma via de mão dupla; de regra, recebemos os frutos do que construímos. Os que não respeitam seus pais, avós, estão dando exemplo a seus filhos que as pessoas idosas não merecem respeito e no futuro, por óbvio, também ganharão sua parcela devida de desrespeito.

Na DPICOI – Delegacia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância -, recebemos muitas denúncias referentes a possíveis ocorrências de maus tratos de idosos, abandono, violência patrimonial, etc. Muitas das denúncias, felizmente, não são confirmadas. E tantas, quando verificadas se são verdadeiras ou não, constatamos que se trata de um problema muito mais de assistência social, de saúde, do que um problema de ordem criminal. As carências de recursos materiais, de conhecimento, pela quais passam muitas famílias, não ficam adstritas somente a parcela não idosa da casa, obviamente atinge a todos.

Temos graves problemas de idosos que acabam, com sua aposentadoria, sustentando a família, a qual além de explorá-los economicamente, ainda é relapsa em atenção, diligências e cuidados. Muito triste essa realidade. E o pior é que a pessoa idosa que está passando por esse tipo de violência, que é doméstica, não confirma. Nega veementemente que esteja sendo vítima de violência, o que dificulta ou até mesmo muitas vezes impossibilita a ação da polícia, do Estado. Negam por inúmeros motivos: para não ficarem sozinhos, por carência afetiva, etc… Mas é a realidade de muitos idosos em nossa sociedade.

No dia 1º de outubro comemora-se o Dia Nacional e Internacional do Idoso. Acho que há motivo para comemoração. Um dos motivos é a longevidade, a qualidade de vida que alcançou os brasileiros. Entretanto, há motivos também para preocupação, para questionamentos, para sensibilização, para se pensar no future. Não esquecendo que o futuro nos alcança todos os dias. Somos abraçados e abraçamos o futuro e o podemos fazer de maneira consciente, responsável, pensando no envelhecimento como uma fase natural de todos os seres vivos, ou podemos simplesmente desdenhar o “velho” como se “novos” fossemos ficar para sempre. A escolha é nossa. Os reflexos das conseqüências de nossas escolhas sofrerão todos, sem exceção.

(*) Débora Dias é a Delegada da Delegacia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância (DPICoi), após ter ocupado a Diretoria de Relações Institucionais, junto à Chefia de Polícia do RS. Antes, durante 18 anos, foi titular da DP da Mulher em Santa Maria. É formada em Direito pela Universidade de Passo Fundo, especialista em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes, Ciências Criminais e Segurança Pública e Direitos Humanos e mestranda e doutoranda pela Antônoma de Lisboa (UAL), em Portugal.

Observação do editor: A foto (sem autoria determinada) que ilustra este artigo, é uma reprodução obtida na internet.



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