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ARTIGO. Ricardo Ritzel e a história Cesário Saravia, um dos mais cruéis personagens da revolução de “93”

Estado-Maior de Gumersindo Saraiva: em pé, da esquerda à direita: Arthur Maciel, Estácio Azambuja e Domingos Ribas. Sentados, também da esquerda à direita: Collares Brasil, Aparício Saraiva, Gumersindo Saraiva e Cesáreo Saraiva (Foto acervo Biblioteca Nacional )

A vida e a morte, segundo Cesáreo Saravia

Por RICARDO RITZEL (*)

Quando Vitoriano Carneiro Monteiro assume a presidência do Rio Grande do Sul, em 1892, as forças governistas começaram, literalmente, a perseguir, roubar e matar opositores do Partido Republicano em toda Região da Campanha gaúcha.

O objetivo era reprimir todo e qualquer crítico do partido fundado por Julio de Castilhos e dominar o Estado pelo terror e pelo medo.

E o desatino foi tal nesse período, que qualquer denúncia, fundamentada ou não, era motivo certo para humilhações, pilhagens, torturas e assassinatos.

Foi neste contexto que Terêncio Saravia foi preso dentro de sua própria casa por soldados do coronel Elías Amaro e sua família assitiu “in loco” o saque e destruição de todos seus bens.

Terêncio era estancieiro em Bagé, primo irmão de Gumersindo e Aparício Saraiva e, mesmo sendo uruguaio, muito próximo politicamente do general Joca Tavares e notório simpatizante de Gaspar Silveira Martins. Sendo esses dois, os então principais líderes da oposição ao positivismo de Castilhos. O que, por si só, lhe colocava a marca de revolucionário federalista, mesmo sendo um homem pacífico e de trato respeitoso.

Cesário Saravia, ou Cezário ou ainda Cizério. O nome verdadeiro de um dos mais famosos degoladores da revolução de 93 ainda é discutido por historiadores e memorialistas

Depois de assistir a pilhagem de sua estância, a humilhação da família e o fuzilamento de empregados, Terêncio foi levado para um campo distante e isolado, onde foi barbaramente torturado para entregar armas e documentos da iminente revolução.

Como nada foi encontrado e nem revelado pelo primo de Gumersindo, ele foi estaqueado ao relento por vários dias, sem água e nem comida. E, novamente, nada foi revelado ou passado aos soldados castilhistas.

Desiludidos em tirar qualquer informação de Terêncio, os homens do coronel Elías o obrigaram a cavar sua própria sepultura. Depois, cortaram sua língua, deceparam suas orelhas e o penduraram em uma árvore para que suas pernas e braços servissem de alvo em tiros de pontaria.

Como o uruguaio continuava ainda assim irredutível, o castraram. E assim, retalhado, sangrando e semimorto, Terêncio Saravia foi abandonado em sua cova para uma morte lenta e agonizante.

Quando a notícia da morte chegou para família Saraiva, seu irmão, completamente transtornado, jurou uma vingança bárbara para todos os envolvidos diretamente na morte, como também para qualquer outro apoiador do Partido Republicano Rio-Grandense que lhe passasse pela frente.

Surge aí um dos mais aterrorizantes e cruéis personagens da revolução de 1893: Cesáreo (ou Cizério) Saravia.

Conta a história que, com toda certeza, ele cumpriu suas promessas de desforra e se tornou famoso como um dos maiores degoladores do conflito federalista.

“Se Aparício lutou na revolução brasileira para acompanhar Gumersindo (seu irmão mais velho), Cesáreo justificava sua ida ao conflito para e pela vingança de Terêncio, seu irmão morto pela repreensão castilhista. E foi à guerra para isto. Afinal, o que esperar de um gaúcho rude como ele, se o próprio Estado pratica a olhos vistos tantas atrocidades”, explica o autor Sejanes Dornelles, em seu clássico livro, “Gumersindo Saraiva – O Guerrilheiro Pampeano”.

E foram tantas vinganças e tão cruéis e constantes que a própria família Saraiva começa a justificar o comportamento de Cesáreo com o estúpido assassinato do irmão. “Uma excelente persona, pero medio nerviosa despúes de matarem Terêncio” explicavam.

Tanto que o próprio Gumersindo fez por várias vezes “olhos gordos” para as degolas de Cesáreo, mesmo reprimindo energicamente está horrenda prática pelos homens a seu comando. Mas até mesmo o mais famoso general maragato se cansou de tantas mortes e pediu para Aparício levá-lo em sua coluna para manter o primo em “rédea curta”, já que tinha um relacionamento mais próximo e cordial com ele.

Conta a lenda que, logo depois, quando a luta era travada no Estado do Paraná, até mesmo Aparício perdeu a paciência com as atrocidades do primo-irmão e, em meio a uma forte discussão depois de mais uma série de degolas de prisioneiros legalistas, acabou dando um violento golpe de relho na face de Cesáreo, o que acabou lhe custando a visão do olho direito.

O certo é que, depois de se atritar com os primos, que eram também os líderes militares máximos da revolução, Cesáreo Saravia foi obrigado a retornar para sua casa uruguaia muito antes do fim do conflito, praticamente expulso do Exército Libertador.

A partir daí, ele começou a ser chamado de “el tuerto” (o caolho) e passou a viver isolado em “El Paraiso”, suas terras no Departamento de Cerro Largo, tendo cães ferozes como sua única companhia, além de alguns poucos empregados de confiança.

Conta a lenda que até o final da sua vida foi torturado por constantes dores no olho perdido e assombrado pelas almas daqueles que enviou para outro mundo.

Coluna Aparício Saraiva em Joinville, Santa Catarina. Em destaque: Torquato Severo, Aparício Saravia e Cesáreo Saravia. Poucos dias depois desta foto, Aparício expulsou Cesáreo do Exército Libertador (Fotografia Carl Von Zeska – acervo Museu de Joinville)

(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 – Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

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