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Eleições municipais e as pesquisas eleitorais – por Michael Almeida Di Giacomo

Pesquisas eleitorais são instrumentos importantes para que os partidos políticos e os candidatos possam mensurar a aceitação ou não de suas posições políticas, tanto no período pré-eleitoral, quanto no decorrer da campanha. E, quando são realizadas por institutos independentes, o resultado, muitas vezes, pode não ser o esperado.

Nesta relação, se a pesquisa tem por objeto aferir determinado momento em uma campanha, os candidatos que surgem bem colocados nada reclamam. Já os que não citados em uma boa posição passam a desacreditar o método ou o próprio instituto.

Esse tipo de reação não é nenhuma novidade.

Há poucas décadas, havia dois grandes institutos de pesquisa com destaque no cenário político nacional: o Ibope e o Datafolha. Contratados pelos veículos da grande mídia brasileira, por meio dos números divulgados, alimentavam os comentários dos analistas políticos das empresas de comunicação país afora.

Não raras vezes serviam às campanhas eleitorais como fontes fidedignas de que determinado candidato estaria com força para vencer o pleito.

Eu recordo que os candidatos de oposição, em especial da esquerda, que ainda não havia governado o Brasil, por não ter presença mais destacada nas intenções de voto, denunciavam o complô da grande mídia na busca por inviabilizar qualquer possibilidade de êxito de suas nominatas.

Verdade ou não, o fato é que, com o passar dos anos, os referidos institutos não mais conseguiram “prever” com autoridade os resultados das chapas majoritárias. Os resultados advindos das urnas não correspondiam mais ao suposto direcionamento dado por essas empresas.

Com isso, parece que as pessoas passaram a dar menos crédito às previsões e suas margens de erro, de três, quatro, cinco, pontos percentuais, para mais ou para menos, não mais serviam como salvaguarda para justificar a sua incapacidade de aferir o real sentimento das pessoas em relação às candidaturas.

Um dos motivos a consubstanciar tal realidade, acredito, tem a ver com a forma como o eleitor passou a responder aos contextos políticos sob os quais vivem.  As plataformas digitais também contribuíram para que as pessoas passassem a ter novos meios de comunicação e, sem dúvida, ao fato de os institutos não terem uma maior permeabilidade instrumental no recolhimento das intenções de votos.

Neste caminhar, os institutos de pesquisas regionais começaram a ter uma maior presença em meio aos veículos de comunicação locais. E, muitas vezes, a ter maior percentual de acerto em relação aos grandes institutos. Hoje é possível, a qualquer momento, recebermos pesquisas de institutos que antes vivam “às sombras” da grande mídia, ou de institutos novos que nunca havíamos ouvido falar.

Mas a cada eleição, em especial nos grandes centros urbanos, os resultados finais ainda continuam a ser dissonantes em relação às pesquisas divulgadas no decorrer das campanhas. O exemplo mais recente pode ser visto nas últimas eleições nacionais, quando inúmeros candidatos ao Senado tinham uma cadeira garantida pelos institutos de pesquisa e, ao abrir das urnas, não figuraram entre os eleitos.

Realmente, é difícil conceber que em uma cidade que tenha um colegiado de um milhão de eleitores, investigar a posição de voto de perto de mil pessoas possa efetivamente refletir o pensamento daquele eleitorado. A recente proliferação de institutos de pesquisas pode trazer ainda mais incertezas no resultado final.

Isso leva-me a conjecturar sob dados, no mínimo curiosos, tais como a última pesquisa divulgada por Ibope/ZH, em 29/10, na corrida pela Prefeitura de Porto Alegre.

A candidata Manuela D’Ávila e o candidato Nelson Marchezan Jr., aparecem, cada um, com 36% de índice de rejeição.  Ou seja, três quartos do eleitorado não os quer de forma alguma à frente da prefeitura da capital. Isso, pois, tem-se por princípio que ao rejeitar um nome, o eleitor não votará nessa pessoa sob nenhuma hipótese.

Os índices de ambas as candidaturas demonstram que, se não forem concorrentes diretos no segundo turno, qualquer outro candidato melhor colocado que os enfrentar na segunda fase da campanha terá uma considerável margem eleitoral para trabalhar.

No entanto, nenhuma outra candidatura consegue ultrapassar o índice de 14 % das intenções de votos, sob um quadro em que a primeira colocada, a própria Manuela, tem 27%.

Com a segunda vaga ao turno final da campanha, segundo o Ibope/ZH, ainda indefinida, é possível deduzir que realmente os institutos não têm a permeabilidade de investigação necessária para entregar resultados mais fidedignos ao pensamento do eleitor.

Quem sabe também busquem evitar repetir um passado de “equívocos”, ao apontar nomes que não irão figurar entre os escolhidos no dia 15 de novembro. Ainda bem que há a tal margem de erro. Nem tudo pode ser perfeito.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestre em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

Observação do editor: A montagem sobre fotos de quatro candidatos a prefeito de Porto Alegre, que ilustra este artigo, foi publicada originalmente, no portal R7

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3 Comentários

  1. Manuela e Marchezan estão longe de ser as pessoas mais simpáticas do estado. Logo o resultado é até baixo.
    Manuela tem diferença em relação aos outros candidatos. É voto ideológico, eleitorado é cativo. Está até abaixo dos 30% históricos do PT na capital. Foi vereadora mais jovem, candidata a vice na chapa do Andrade.
    Em agosto nas ultimas eleições Luciana Genro tinha 23% e Pont tinha 18%. Em setembro Melo tinha 22%, Pont 19% e Luciana caiu para 17%. Urnas: Marchezan 30%, Melo 26%, Pont 16% e Luciana 12%. Os últimos dois empatando ou perdendo para brancos e nulos. Na eleição de 2012 Manuela teve 18% e Villa (um excelente quadro petista) teve 10% (arredondando para cima). Chutaria que os 27% são o teto da comunista filha da desembargadora.

  2. Deixando o aspecto má-fé de lado (os institutos de pesquisa e a grande mídia tem papel nisto, sem dúvida) há também o aspecto técnico. Pesquisas não funcionam em lugar algum, o que é problema, instituições não vivem somente de pesquisas eleitorais. Ou seja, no marketing também não devem funcionar (daí os algoritmos da internet, o direcionamento). Não funcionam e ninguém sabe exatamente o motivo, chutes existem muitos, mas é somente tentativa de adivinhação justificada com má retórica.
    Amostra para intenção de voto para presidente da republica é entre 2500 e três mil entrevistas normalmente (margem de erro e intervalo de confiança aqueles). Em alguns casos aumentaram a amostra e o erro continuou existindo (1000 para um milhão é uma amostra grande dependo da margem de erro). Dilma, a humilde e capaz, divulgou muito o fato de estar na frente nas pesquisas. Esqueceu do numero de indecisos e da rejeição.

  3. Pesquisas não funcionam, fato na maioria das vezes. Vide eleição americana, Biden deveria ter ganho ‘de lavada'(em alguns lugares com mais de 10% de vantagem, alcançando algo como 370 delegados). Midia majoritariamente pró-democrata. Queriam colocar a conta dos problemas da economia na conta de Trump. Mais, ele teria ‘administrado’ de forma errada a pandemia, causando mortes desnecessárias (como se jornalistas soubessem o que é certo ou errado em todos os assuntos e ocasiões). Narrativa não colou. Numero dos prejudicados economicamente é maior do que o numero de óbitos.
    Detalhe: Steve Bannon cantou a pedra de como seria o pleito antes em entrevista, seria apertado. Ou seja, alguém tinha informação melhor do que a dos institutos de pesquisa.

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