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O Natal de Carolina – por Leonardo da Rocha Botega

‘Quarto de Despejo: diário de uma favelada’ e sonhos de milhões de brasileiros

24 de dezembro de 1958, véspera de Natal. Após um dia que começou “com sorte”, pois havia “muitos papeis na rua”, e uma longa jornada para receber donativos, Carolina retornava para casa com os filhos. No ponto do bonde parou para ver o presépio instalado em uma garagem desocupada. No local se deparou com uma placa indicando entrada grátis. Porém, uma bandeja com cédulas de 1 a 100 chamou sua atenção. Ao sair ela apenas elogiou o presépio, afinal, era a única coisa que podia fazer, além de sentir fome. Chegando em casa, olhou para o céu e percebeu o quanto o luar estava maravilhoso. Encerrou sua escrita e seguiu seus sonhos.

A Carolina que estou falando é Carolina Maria de Jesus, mulher, negra, mãe solteira, autora de “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, livro que foi lido e discutido em pelo menos 13 idiomas. Livro que em uma semana vendeu dez mil exemplares. Livro que em poucos meses atingiu a marca de 100 mil exemplares, sendo mais vendido do que os que foram publicados no mesmo ano por autores consagrados como Clarisse Lispector e Jorge Amado. Livro que mudou completamente a vida da autora.

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais. Foi criada, junto com seis irmãos, sentindo na pele a pobreza e o preconceito. Chegou a ser presa junto com a mãe pelo simples fato de estar folhando na porta de sua casa um dicionário. Fora acusada por um vizinho de estar lendo o Livro de São Cipriano, o “livro dos malefícios”, utilizado para fazer feitiços.

Filha de pais analfabetos, Carolina pode frequentar a escola apenas por dois anos, graças à ajuda da esposa de um rico fazendeiro. Na escola aprendeu a ler. O primeiro livro que a marcou profundamente sua vida foi “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães. Mesmo sem muitos recursos, ao longo de toda a sua vida nunca deixou de ler e, principalmente, de escrever. Na sua opinião, o livro era “a melhor invenção do homem” e a escrita um exercício para evitar discutir quando estava nervosa.

Aos 23 anos, diante da perda da mãe, como muitos brasileiros de sua época, Carolina migrou para São Paulo em busca de uma vida melhor. Devido à “política de limpeza social” adotada pelo então prefeito Lucas Garcez, acabou “despejada” na extinta favela do Canindé. Desde então desenvolveu a ideia de que a favela era o ‘quarto de despejo de São Paulo”.

A partir dessa ideia, se considerava “uma despejada” que tinha um ideal: gostar de ler e, eu acrescentaria, de escrever. Escrevia muito! Sonhava em um dia publicar um livro e vendê-lo para com isso ter dinheiro para comprar um terreno e sair da favela. Mãe amorosa e zelosa de seus três filhos, escrevia sobre o cotidiano da favela, sobretudo o cotidiano da fome. Nas suas palavras, era “preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. E foi descrevendo a fome que Carolina acabou sendo descoberta pelo jornalista Audálio Dantas.

A partir desta descoberta, em 19 de agosto de 1960, surgiu “Quarto de despejo: Diário de uma favelada”. Com o dinheiro recebido pelo livro, Carolina realizou seu sonho. Comprou uma casa de alvenaria e foi morar no bairro de Santana. Porém, diferente do que pensava, não conheceu a felicidade junto à classe média paulistana.

Mesmo não sendo mais uma favelada, seguiu vivenciando o desprezo e o preconceito de um grupo social que (como muitos favelados) vive de salário, mas pensa que pertence ao andar de cima da “quase estamental” sociedade brasileira.

Desiludida, acabou indo morar em um Sítio em Palheiros, onde passava a maior parte do tempo lendo e cuidando da horta e da plantação de milho. Morreu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos, devido a complicações respiratórias causadas pela asma, doença que a acompanhava desde a infância.

Apesar do sucesso repentino que a transformou, conforme Audálio Martins, em uma “Cinderela saída do borralho do lixo para brilhar intensamente sob as luzes da cidade”, Carolina Maria de Jesus acabou sendo esquecida. Nas décadas que seguiram após a publicação de suas obras em vida (Casa de Alvenaria, de 1961; Pedaços de Fome e Provérbios, de 1963), conheceu o mesmo destino de muitos escritores e escritoras negras em um país que criou a narrativa da “democracia racial” para esconder seu racismo estrutural.

Para a Ditadura Civil-Militar brasileira, além de esconder o racismo estrutural, também era necessário esconder a fome e a miséria do país. Esconder o racismo estrutural, a fome e a miséria significava esconder a obra de Carolina Maria de Jesus.  

“Quarto de despejo” é um grito contra a fome. Um grito sobre as mazelas sociais que atingem aqueles que são considerados descartáveis. Um grito daqueles que são escondidos para que uma das sociedades mais desiguais do mundo siga hipocritamente seu caminho. Um pedido de socorro em meio à degradação humana. Em 2020 sua publicação completou 60 anos. São 60 anos do primeiro Natal em que Carolina Maria de Jesus e seus filhos não passaram fome. Que neste Natal olhemos para os 10,3 milhões de brasileiros que, em pleno Século XXI, passam fome! Que eles, assim como Carolina, nunca percam o direito de sonhar!

(*) Leonardo da Rocha Botegaque escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: A foto (sem autoria determinada) de Carolina Maria de Jesus, que ilustra este artigo, é uma reprodução da internet.

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