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Operação Alcateia – por Débora Dias

Investigação de 6 meses, com 28 indiciados, material apreendido e 13 prisões

Já escrevi sobre estelionato aqui nesse espaço, e como ele aumentou durante a pandemia, infelizmente. E, ainda, grande parte de alguns estelionatos, os quais vou falar aqui, tem como vítimas pessoas idosas. Nesse sentido, nós da DPÍCOI – Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância -, em face de toda essa problemática intensificamos as investigações referentes a estelionatos, especificamente ao golpe do bilhete e do “cartão clonado”. Crime contra o patrimônio sem violência ou grave ameaça pode causar aniquilamentos emocionais?

Percebemos um grande aumento nos crimes contra o patrimônio especificamente o estelionato ( artigo 171 do CP, Art. 171 – Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento)  no atual momento em que vivemos, a situação de pandemia.  Com o distanciamento social, principalmente de idosos, fez com que os criminosos “trabalhassem” no sentido de atingir os seus objetivos ilícitos se forma remota, sem contatos, sem estar nas ruas e, principalmente, considerando-se o fato de seu usar a tecnológica a favor para ludibriar. 

Aqui em Santa Maria, iniciamos desde janeiro um intenso trabalho contra esse tipo de crime, não esquecendo dos demais que são de nossa atribuição, mas diante do desespero de tantas vítimas, nosso objetivo é investigar, combater/prevenir o crime. 

Desde o início de nosso trabalho, focado na investigação do “golpe do bilhete”, os quais os criminosos que atuavam em nosso município, têm sua origem em Passo Fundo, efetuamos diversas apreensões de veículos e prisões, houve uma queda brusca em nosso município. Não tem mais ocorrências desse tipo aqui, no momento, há alguns meses.

Óbvio que não temos a prentensão de acabar com o crime; gostaríamos, mas sabemos que isso depende não somente do trabalho policial ou da área criminal, mas de inúmeros outros fatores e políticas públicas.

Bem, mas o importante é que conseguimos diminuir a incidência em nosso município. Por outro lado, o “golpe do cartão clonado”, que é aquele estelionato em que a vítima recebe uma ligação para confirmar se efetuou um determinada compra em determinada loja, na negativa, o interlocutor afirma que o cartão foi “clonado” ( mentira) e aí, solicita que ligue para o 0800 do cartão, quando se desvia a ligação para outro comparsa, o qual confirma dados e solicita a senha da vítima.

Em seguida, afirma que um funcionário irá pegar o cartão para segurança da vítima, assim, para “ajudá-la” (lobos em pele de cordeiros), por isso o nome de nossa operação alcatéia. O indivíduo pega o cartão e, com a senha passa a fazer saques, compras reais e fictícias nas máquinas de cartão.

A investigação perdurou por mais de seis meses culminando em 13 prisões em São Paulo, fora em torno de 10 prisões já realizadas aqui em Santa Maria, dezenas de mandados de buscas cumpridos, assim como inúmeras apreensões inclusive dinheiro. 

Nossa equipe não terminou com o golpe, mas com certeza remetemos para o Poder Judiciário um inquérito com 1.250 páginas, muito bem instruído, com indiciamentos por organização criminosa e estelionato. Foram 27 indiciados, todos paulistas. Não tenho ilusões, nosso trabalho continua. É assim, mas também não desistimos e o que interessa é que haja um trabalho bem feito para uma conseqüente punição.

Ainda o abalo psicológico das vítimas que sofreram um baque em seu patrimônio é muito grande, principalmente se essa vítima for idosa, que é a totalidade de nossos casos. Assim, pode o delito não ter violência ou grave ameaça (considerando violência física), mas causa um estrago psíquico na vítima, além de fomentar uma verdadeira indústria do crime. Eles não agem sozinhos, são braços de organizações criminosas independentes e nosso dever é buscar com que sejam punidos e paguem pelo aniquilamento feito na vida das pessoas, mesmo que seja somente patrimonial, porque esse dano não é fato isolado, tem reflexos na saúde da vítima.  Moral da  história: jamais os bancos enviam funcionários a sua casa e nunca forneça sua senha por telefone, em nenhuma hipótese.

(*) Débora Dias é a Delegada da Delegacia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância (DPICoi), após ter ocupado a Diretoria de Relações Institucionais, junto à Chefia de Polícia do RS. Antes, durante 18 anos, foi titular da DP da Mulher em Santa Maria. É formada em Direito pela Universidade de Passo Fundo, especialista em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes, Ciências Criminais e Segurança Pública e Direitos Humanos e mestranda e doutoranda pela Antônoma de Lisboa (UAL), em Portugal.

Observação do editor: A foto (de Reprodução) que ilustra este artigo é o resultado do inquérito concluído pela DPICOI- Delegacia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância, dirigida pela delegada Débora Dias.

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