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Padre Júlio Lancellotti, o brasileiro do ano – Por Leonardo da Rocha Botega

“Foi a imagem do ‘Jesus das ruas’ que tanto enxerga naqueles que ampara”

“- Padre, tem que ter algo seu escrito; tem que ter algo seu no papel; deixar na memória um registro para que, quando não estejas mais aqui, o que ficou escrito continue incomodando”. Foi com essas palavras que o sociólogo, ativista e escritor Paulo Escobar se dirigiu ao Padre Júlio Lancellotti buscando convencê-lo da necessidade de transformar suas ideias e vivencias em registro escrito.

De um sorriso e um “Vamos lá” como resposta surgiu “O Jesus das ruas na trajetória do Pe. Júlio Lancellotti”. Um belíssimo diálogo entre dois amigos que há mais de 20 anos lutam pelos direitos humanos e pelos moradores de rua.

“O Jesus das ruas…” é uma daquelas obras que, em pouco mais de 100 páginas, nos faz transbordar de esperança e ressignificação da vida. Ali não está apenas o Júlio Renato Lancellotti, paulistano, 72 anos completados no último dia 27 de dezembro, filho de um comerciante e de uma cozinheira, que quando jovem demorou para resolver as contradições entre a sua vocação e a rigidez das hierarquias eclesiásticas. Ali está o Padre Júlio, o “Padre Maloqueiro”, o sujeito que há 35 anos não exerce apenas o sacerdócio, mas sim uma Teologia que desce o Cristo da cruz e o encontra no rosto dos excluídos, constituindo-o em um verdadeiro Jesus das ruas.

O Jesus de Padre Júlio não é nenhum moralista, como muitos pregam (julgando e lucrando), mas sim alguém que sempre defende as vítimas. Um Jesus que “defende a mulher prostituta, a que está para ser apedrejada, a que lava e chora aos seus pés”, que defende o leproso e todo aquele “que é segundo o mundo bíblico indefensável”. Um Jesus “que representa resistência ao sistema que ‘crucifica’ o povo e o mantém morando na rua a vida inteira, em situação de miséria permanente”.

Um Jesus que impõe uma grande missão para a igreja: “descer os crucificados da cruz, para que eles tenham vida e vivam com dignidade”. Uma missão que Padre Júlio procura realizar cotidianamente em suas atividades como Pároco de São Miguel Arcanjo da Mooca e Vigário Episcopal para o Povo da Rua.

É essa missão que se realiza quando Padre Júlio está ao lado dos moradores de rua na luta contra a violência de um Estado que se construiu para ser o mantenedor da desigualdade social. Foi o Jesus das ruas que o conduziu a estar ao lado daqueles que resistiram as bombas da polícia militar semanas antes da Copa do Mundo de 2014, quando era necessário esconder a miséria e abrir as ruas para os turistas passarem. Para o Padre Júlio, os primeiros eliminados da Copa foram os moradores de rua. Aqueles a quem sacia a fome diariamente levando pão, feijão e afeto.

Os moradores de rua são os grandes amigos do Padre Júlio. Amigos no sentido extenso do termo amizade. Um relacionamento de afeto, carinho, lealdade, proteção e amparo. Padre Júlio ampara os moradores de rua diante da violência, da fome e da miséria social. Os moradores de rua o amparam e não o deixam desistir diante das constantes ameaças que recebe.

Ameaças que ocorrem porque sua prática é “um incômodo” que não permite que “a limpeza social” a serviço da especulação imobiliária seja feita. Um “incômodo”, pois Padre Júlio nunca abandona os seus amigos. Assim, tem sido ao longo dos seus 35 anos de sacerdócio, assim foi ao longo do ano de 2020.

Nem mesmo a condição de pertencente ao grupo de risco o fez abandonar os moradores de rua em meio à pior Pandemia dos últimos 150 anos.

Enquanto a maior autoridade do país assistia ao aumento dos números de mortos e infectados dizendo “E daí?” e “Eu não sou coveiro”, Padre Júlio vestiu (junto com o  jaleco branco, o avental laranja e as sandálias pretas) luvas de látex e uma máscara respiratória com filtro embutido, não deixando de levar comida, máscaras, álcool em gel e esperanças para os mais vulneráveis desse país. Estava lá onde a política pública se negou a estar, dando exemplo de amor ao próximo.

Neste caótico 2020, Padre Júlio Lancellotti foi o brasileiro do ano! Foi a demonstração de que o ser humano pode ser humanizado e humanizante mesmo em tempos de desumanização. Foi um contraponto à brutalidade e ao desprezo governamental e empresarial para com o outro e a vida. Foi a empatia em forma de fé! Foi um sopro de vida em um ano em que tememos a morte. Foi a imagem do “Jesus das ruas” que tanto enxerga naqueles que ampara. Uma imagem que em seu diálogo com Paulo Escobar transparece com muito amor e esperança. Por tudo isso, não deixem de ler “O Jesus das ruas na trajetória do Pe. Júlio Lancellotti”. Uma leitura para nos tornar pessoas melhores para um ano que desejamos que seja melhor.

(*) Leonardo da Rocha Botegaque escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: A foto é de reprodução da versão brasileira do jornal espanhol El País.

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3 Comentários

  1. Perguntei a outra pessoa se conhecia o sujeito. ‘Conhece o Julio Lancelloti?’ Resposta: ‘Aquele cozinheiro que ensinava a fazer massa na tv?’. Este é o Silvio de mesmo sobrenome.

  2. Nunca ouvi falar. Alás, para quem não entendeu o conceito de bolha. Noutro dia duas criaturas falando do governador de São Paulo e uma mais jovem, apesar de já em idade de votar, perguntou: ‘Quem é Dória?’.

  3. Parabéns pelo texto! Tenho grande admiração pelo Padre Júlio e, penso que a situação é oportuna para se divulgar algo incentivador.

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