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A vacina e o ‘Jeitão’ das elites brasileiras – Por Leonardo da Rocha Botega

A chegada do imunizante e de onde vem a maior parte dos nossos “fura-filas”

No vocabulário popular brasileiro existe uma expressão que desde muito cedo somos acostumados a ouvir e a usar: “o jeitinho brasileiro”. Não se sabe ao certo quando tal expressão passou a ser usual em nossa cultura. Em termos de pensamento social brasileiro, ela remete aos debates sobre a formação do “caráter do brasileiro”.

Um debate que esteve presente em Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre, que o analisa como uma adaptação dos valores lusitanos a sua colônia na América, e em Sérgio Buarque de Holanda que produziu, em seu Raízes do Brasil, a ideia do “homem cordial”, ou seja, o sujeito cujas relações pessoais e de afeto se sobrepõem às exigências morais de impessoalidade nas leis e nas normas sociais. Outros autores que também trataram desse tema foram Antônio Cândido, Roberto DaMatta e Lívia Barbosa.

Em linhas gerais o “jeitinho brasileiro” é interpretado de duas maneiras: como uma forma que a população, sobretudo os mais pobres, desenvolveu para sobreviver às mazelas sociais em um dos países mais desiguais do mundo; e como uma burla de normas e condutas éticas que enraíza nas práticas sociais o clientelismo, o patrimonialismo e a corrupção.

Sem entrar no mérito de qual interpretação é mais correta, Francisco de Oliveira, em um importante texto intitulado Jeitinho e Jeitão, analisando historicamente a formação das práticas do “jeitinho”, afirma que esse “é um atributo das classes dominantes brasileiras transmitido às classes dominadas”.

Para o autor, tais práticas foram originadas da adoção do capitalismo como “solução incompleta na periferia do sistema”, uma vez que “o capitalismo trouxe para o cá a revolução das forças produtivas, mas não as soluções formais da civilidade”. Dessa forma, as classes dominantes desenvolveram um “jeitão” para garantir a manutenção do status quo que foi incorporada pelas classes dominadas como um “jeitinho” de “dar um desdobre” (expressão minha) na falta de políticas públicas que garantam a sua sobrevivência.

Portanto, o “jeitinho” não é algo inerente ao “populacho deseducado”, como afirmam preconceituosamente muitas teorias que utilizam tal expressão para atacar justamente as parcas políticas públicas que o cidadão brasileiro tem acesso, mas sim, uma prática que se desenvolveu de cima para baixo na sociedade brasileira.

O “jeitão” das elites brasileiras instituiu um ethos de que o Estado não está a serviço de todos, mas sim, daqueles que conseguem levar vantagem a partir da apropriação de seus instrumentos. Um ethos nascido nos séculos coloniais, ampliado no Império e sofisticado na República. Um ethos que se faz presente no momento em que o país enfrenta a pior Pandemia Mundial desde 1918.

A economista Laura Carvalho, em Curto-Circuito: o vírus e a volta do Estado (recentemente lançado), afirma que, apesar do contexto de desvalorização das políticas públicas e da plataforma ultraliberal instituída pela dupla Bolsonaro-Paulo Guedes, a Pandemia da Covid-19 deixou evidente que a população brasileira deseja serviços públicos de qualidade, gratuitos e universais.

O fato de que, conforme diversas pesquisas divulgadas nas últimas semanas, entre 69% e 75% dos brasileiros pretenderem tomar a vacina contra a Covid-19, reforça essa afirmação. Obviamente, o grande dilema é a quantidade insuficiente de vacinas que até o momento estão, ou estarão em um curto espaço de tempo, disponíveis a população.

Diante desse dilema, o “jeitão” da Casa-Grande brasileira mais uma vez se evidenciou. Em pouco mais de uma semana do início da vacinação no país, o Ministério Público já abriu inúmeras investigações para apurar os “fura-filas” da vacina.

Em Manaus, cidade que vive o drama da falta de oxigênio diante da explosão (mais uma vez) do número de infectados, duas irmãs médicas, filhas de um rico empresário, foram contratadas “de última hora” e receberam a vacina antes de outros profissionais de saúde que estavam há meses na linha de frente do combate à Covid-19. Casos semelhantes vieram à tona em pelo menos 10 estados e no Distrito Federal. Na maior parte deles, um fato chama atenção: a origem abastada dos “fura-fila”.

Mais uma vez, o “jeitão” das elites brasileiras jogam contra o próprio país. Mais uma vez, o “jeitão” das elites joga contra as já tão atacadas políticas públicas. Jogam porque as elites brasileiras são contra as políticas públicas. Jogam porque as elites brasileiras são contra o próprio país.

Para elas, o Estado não vai além dos seus próprios umbigos e os serviços públicos só são bons quando servem para os seus fins privados. Quando não servem, o “jeito” é burlá-los, afinal, em sua lógica arcaica e egoísta, somente elas têm direito à vida. Fim assim na escravidão, é assim na Pandemia.              

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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Um Comentário

  1. CGTN, tv chinesa, outro dia mostrou reportagem sobre os EUA. Entrevistaram argentinos na Florida, passando férias. Aproveitaram para tomar a vacina. Depois Texas, desta vez canadenses. Idem. Enquanto isto o pau come solto na Holanda devido ao lockdown (não conseguiram abafar a noticia como em outros lugares). Coisa da ‘extrema-direita’ e de ‘hooligans’. Quando o governo começa a rotular os próprios cidadãos, principalmente na Europa, a coisa não está fácil.

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