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Esquinas – por Orlando Fonseca

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Esquina é um indicador socioeconômico importante, prova disso são artigos de opinião e matérias jornalísticas, aparecendo na mídia impressa da cidade, nos últimos dias. Não por acaso, uma vez que a conjuntura política de nosso país e a pandemia criaram um estado de coisas que figura o caos social. Desde que a urbanidade criou este espaço, além das condições para que ali houvesse alguém caído em desgraça, somos levados a encontrar quem estenda a mão pedinte, ou exerça alguma atividade com vistas a conseguir alguns trocados.

Semana passada, circulando pela cidade, dentro do carro, ocorreu-me essa impressão que também sensibilizou jornalistas e articulistas. Pessoas com uma mesma plaquinha feita de papel branco impresso, plastificado, com idênticos dizeres, qual um slogan mendicante. De imediato veio-me à mente a ideia de um coletivo, organizado, de pessoas em condições de miséria, para os quais a única saída, na falta de emprego, na falta de recursos para se alimentar – era isso que pediam os cartazes – na falta de perspectiva diante de uma pandemia, viu-se obrigado a buscar em grupos, pelas esquinas da cidade, uma forma de – ainda – não sair em hordas famintas a procurar o que comer à força.

Lembrei de uma experiência, em Buenos Aires, na década de noventa do século passado. Eu havia viajado para lá, a fim de participar da Feira Internacional do Livro. E, no dia seguinte ao evento, circulando pela Avenida 9 de Julio, deparei-me com uma cena que considerava inusitada naquela metrópole. Nas esquinas, crianças pedindo esmola, rostinhos sujos, brancos, cabelos desgrenhados louros, olhos claros, as roupinhas também sujas, mas não farrapos, um perfil distinto ao comum no Brasil. Na porta de uma das casas daquela avenida famosa, uma senhora, de modo distinto, porém triste, estendia a mão para pedir esmola. Sinais de que aqueles pedintes haviam caído em desgraça há pouco, diante do caos na economia argentina no governo Menem, como pude constatar, pedindo um café em um daqueles estabelecimentos turísticos. Não por acaso, muitos artistas de rua com sotaque portenho que encontramos aqui em nossas esquinas, vieram buscar um mínimo de dignidade, a fim de sobreviver.

Também encontramos, nos últimos anos em nossa cidade, vendedores de paçoca com um cartaz inusitado: “Quero ser empreendedor, de algum modo preciso começar. Por isso vendo paçocas a R$ 1,00”. Não é algo bom de marketing, pois, assim como aqueles cartazes do povo da vila Maringá, que resolveu ocupar esquinas, nem sempre, de dentro do carro é possível enxergar tudo o que diz ali. Poderia ser, em letras maiores: “Futuro empreendedor. Começando com paçoca – R$ 1,00”. Mas, como dizia o Betinho: Quem tem fome tem pressa.

Não me agrada que se façam campanhas do tipo: Não dê esmolas! Esse é um apelo ao pior de nós seres humanos, para que não ativemos nossa capacidade de ser solidário, de treinar a empatia e o convívio fraterno em sociedade. Não adianta dizer que o poder público é que vai tomar alguma iniciativa, porque os mais atentos, os mais sensíveis ao estado miserável desconfiam, justamente, que é pela falta de uma política pública que estas pessoas estão ali mendigando. No caso atual, não estabelecer uma relação deste quadro com a falta de uma política econômica do governo federal é fugir da questão do descalabro social em que muitos estão sendo jogados. O corte do auxílio emergencial vai jogar milhões de volta à condição de miséria absoluta. A compreensão de que o Estado precisa fomentar o desenvolvimento econômico e não ser o “Estado do bem estar social” – no chamado neoliberalismo -, surfou pelas ondas do individualismo, vigente nas décadas de 80 e 90. Tem sido revisto em países europeus, pós-desastre econômico de 2008, e mesmo em países da América do Sul. Mas por aqui ainda a cartilha é seguida sem os efeitos desejados, especialmente quando, em uma situação de pandemia, se veem um número cada vez maior de famintos, buscando recursos para a sobrevivência nas esquinas, por enquanto, com cartazes nas mãos.

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Crédito da imagem: Arian Malek khosravi / Pexels.com

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3 Comentários

  1. China estava querendo construir um superporto na Tanzânia. Governo local trancou o pé. Agora pediu perdão de um divida. O que o Brasil tem a ver com isto? Estão abrindo novas fronteiras agrícolas na África. Daqui a pouco a soja brasileira não terá o valor que tem hoje. Os preços estão bons, com 20 sacos de soja já se compra uma TV (uns 2500 metros quadrados de cultivo jogando por baixo). Já foram 50 sacos (6250 metros quadrados).
    Pais é o que a casa tem para oferecer. Para os que acham que o Estado é deus ‘falta politica economica’ mas ‘uma cartilha é seguida’. E o bem estar social pode ser decretado, sem esforço, sem sacrifico, sem produção, sem muito trabalho.

  2. Corte do auxilio emergencial tem explicação. Divida publica federal deu um salto de mais de 500 bilhões ano passado por conta da pandemia. Esta chegando nos 100% do PIB. O remédio não pode matar o paciente. Obviamente não faltará quem apresente uma solução fácil, rápida, indolor, errada e burra.
    Há quem esteja com o cartaz. Mas também existem os recicladores, os afiadores de faca e tesoura, os vendedores de algodão doce, os limpadores de pátio, os fazedores de bico. Não esperam uma ajuda que quase com certeza não chegará.

  3. Estamos no Brasil e é necessário tomar cuidado com as ‘conclusões’ que pululam por aí.
    Colocam demasiada fé em campanhas. Se acho que devo dar esmola não ligo para o que os outros acham ou deixam de achar. O mesmo vale quando não contribuo.
    Planejamento? Quem vive martelando a tecla? Jornalistas, professores de português, professores de historia, advogados, militantes de esquerda em geral. Gente que não tem formação ou experiência na área. Exceção aos ‘planos’ pré-formatados da burocracia universitária. Ou seja, mais um ‘bordão’ politico. Como foi ‘milícia’ na semana retrasada ou ‘impeachment’ nesta. Descobriram que estão fora do jogo, Dória, ‘futuro presidente’, está léguas na frente com erros e acertos.

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