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Habemus Vacina, falta retomar a esperança! – por Leonardo da Rocha Botega

São Paulo, 11 de março de 2020, a diarista Rosana Aparecida Urbano, 57 anos, saiu de casa por volta das quatro horas da manhã em direção ao Hospital Municipal Doutor Cármino Caricchio. Foram 25 quilômetros percorridos, entre Cidade de Tiradentes, na periferia da cidade, e o Distrito de Tatuapé, para ver a sua mãe, Dona Gertrudes, 86 anos, internada com pneumonia. Ao receber a notícia de que a mãe estava entubada, passou mal e foi internada. No dia seguinte, 12 de março, às 19h15 minutos, Rosana, que era diabética e hipertensa, veio a falecer. Foi a primeira vítima da Covid-19 no Brasil.

São Paulo, 17 de janeiro de 2021, Mônica Calazans, 54 anos, mulher negra, moradora de Itaquera, enfermeira da linha de frente no combate a pior Pandemia Mundial desde 1918, há dez meses atuando na UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, se tornou a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra a Covid-19. Alguns minutos antes, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, havia aprovado o uso emergencial das vacinas produzidas pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, e pela Fundação Oswaldo Cruz, em parceira com biofarmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford.

Após receber a primeira dose de imunização, Mônica fez um apelo: “Não tenham medo. É a grande chance que a gente tem de salvar mais vidas. Vamos nos vacinar”. Naquele momento uma emoção muito grande tomou conta da ampla maioria dos mais de 73% de brasileiros que declararam querer se vacinar. As Redes Sociais foram inundadas de fotos de Mônica recebendo a injeção no braço esquerdo. Suas palavras ecoaram como um hino de alento que aponta um sinal no fim de um túnel longo e perigoso que todos nós fomos submetidos a atravessar. A emoção de quem passou quase o ano todo ajudando a salvar vidas, tomou conta daqueles que passaram quase o ano todo temendo perder a sua vida ou a vida de alguém por quem sente afeto.

Entre o fático 12 de março de 2020 e o renovador 17 de janeiro de 2021 muita coisa aconteceu. Neste quase um ano onde tememos a morte, o Brasil expôs o lado mais putrefado de sua sociedade. O odor raivoso do negacionismo foi sentido nas “carreatas da morte”, no descaso disfarçado na hipócrita pergunta “E os curados?”, na postura de vendedor arrogante de pirataria adotada por inúmeros governantes ofertando um “kit salvador” descartado no mundo todo (inclusive na última semana pelo seu principal divulgador “cientifico” o francês Didier Raoult) e nos discursos da maior autoridade do país.

No dia 9 de março, quatro dias antes da morte da primeira vítima brasileira, o presidente afirmou que ao seu “ver” o poder destruidor do vírus estava sendo “superdimensionado”. Quando o país atingiu 10 mortes, no dia 24 de março, a Covid-19 foi chamada de “gripezinha”. Dias depois, com o número de mortos e infectados crescendo, a frase foi: “É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia”. Em fins de abril, quando o país bateu o número recorde diário de mortes, ouvimos um “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. Quando o país atingiu a marca de dez mil mortos a frase foi “eu não sou coveiro”. Com quarenta mil mortos a ordem foi dada a turba: “invadam hospitais e filmem leitos vazios”. Com cem mil mortos veio um “vamos tocar a vida”, com 135 mil morto a “conversinha mole de ficar em casa” era “para os fracos”, com 162 mil mortos tínhamos virado “um país de maricas”, com 191 mil mortos a frase foi “não dou bola para isso”, com 200 mil mortos “lamento, mas a vida continua”. Com a vacina veio o silêncio, interrompido no dia seguinte com um “apesar da vacina” e uma ameaça típica de um cão raivoso que, ao se ver diante da ameaça de perder o osso, rosna contra tudo e contra todos, principalmente, contra a democracia (palavra que nunca fez parte do seu dicionário).

Mas apesar dessas ameaças, o dia 18 de janeiro foi um dia de alento. O ato de adiantamento do abstrato dia D e da hora H, pronunciado pelo Ministro da Saúde, feito pelo governador de São Paulo, João Dória (até poucos meses aliado do presidente), deflagrou uma sensação de alívio temporário. Um alívio que somente foi possível graças aos tão atacados órgãos públicos deste país.

Graças as instituições públicas de pesquisa: o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz. Graças a um dos maiores sistemas de política pública de saúde do mundo: o SUS. Graças aos muitos brasileiros solidários que como voluntários também tomaram parte desse processo. A imagem da vacinação de Mônica é a imagem de um país que está vencendo o negacionismo e que merece retomar a esperança que um dia o fez muito melhor do que é hoje.

*Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Crédito da foto: Governo do Estado de São Paulo

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