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Tristeza pelo Camillo, muita esperança com a vacina – por Valdeci Oliveira

Uma caminhada de mil léguas começa sempre com o primeiro passo, diz um antigo provérbio chinês. E nós, brasileiros, o fizemos no domingo passado, dia 17, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a nossa Anvisa, aprovou o uso emergencial das vacinas Coronavac/Sinovac e da Oxford/AstraZenica no país.

Ali, após algumas horas diante da tela da TV, respirei aliviado, emocionado e com minhas esperanças renovadas, fortalecidas. Assisti a vitória da ciência sobre a negação que muito já prejudicou nossa sociedade. Ouvi dos integrantes do corpo técnico da Agência que os imunizantes são seguros e capazes de deter a escalada de dor que temos assistido nestes últimos 10 longos meses. Presenciei naquele momento a razão se sobrepondo à ideologia, a esperança ocupando o lugar do medo, a vida ganhando os merecidos contornos iluministas.

Aquele domingo foi um dia como há muito tempo eu não vivenciava. Não pude deixar de pensar na minha mãe e no meu pai, ambos idosos e por isso frágeis diante do inimigo invisível. Pensei nos meus amigos, colegas, parentes e conhecidos que possuem algum tipo de comorbidade. E nos milhões de rostos anônimos cujas vidas dependem exclusivamente de um imunizante. Naquele domingo, também tive a consciência de que o que acabara de assistir era a primeira vitória entre muitas que precisarão ser conquistadas daqui para frente.

A aprovação das vacinas pela Anvisa foi como uma lufada de confiança, a certeza de que a crença na ciência pode superar os mais difíceis obstáculos. A liberação para o uso emergencial do imunizante nos mostrou também que não devemos nunca abandonar a luta que acreditamos justa. E deixou claro, mais uma vez, a importância de termos um serviço público valorizado. Aliás, desde o início de todo esse verdadeiro drama sanitário, não faltaram mostras disso. Foi o nosso SUS a principal barreira que, mesmo diante de números macabros, impediu que a tragédia fosse ainda maior. Uma barreira formada por milhares de homens e mulheres, do motorista da ambulância aos médicos e médicas intensivistas, dos enfermeiros e enfermeiras às equipes de limpeza e desinfecção. Todos lutando heroicamente na linha de frente desta batalha.

Mas ganhar a primeira batalha não significa vencer a guerra. Daqui para frente, há a necessidade de que os governos e as instituições se debrucem para garantir que os outros elementos desta complexa cadeia imunológica, entre eles insumos básicos como seringas, agulhas, além, é claro, das matérias-primas para a fabricação da vacina, estejam disponíveis e façam chegar a saúde aos braços de todos os brasileiros, sem distinção.

E diante dos calendários para a imunização da população até aqui estabelecidos, que indicam que o processo completo somente será possível ao longo dos próximos meses, é fundamental que não baixemos a guarda. Será preciso que cada um e cada uma faça a sua parte respeitando orientações formuladas pelas autoridades e profissionais de saúde. Será assim aqui e no resto do mundo, uma vez que a imunização é o único caminho a ser trilhado.

Também será preciso muita diplomacia, pois o Brasil, neste momento, depende de nações como a China e Índia para colocar em prática seu Plano Nacional de Vacinação. Estamos falando de dois países que foram negligenciados pela nossa política externa. Todos acompanhamos os ataques desferidos a China por figuras do governo federal nos últimos anos. Já a Índia não contou com o apoio do Brasil na Organização Mundial do Comércio para sua proposta de quebra ou suspensão de patentes de alguns medicamentos para o combate à covid-19. No ano passado, lamentavelmente preferimos atender ao desejo do ex-presidente estadunidense Donald Trump, votando contra a proposta.

Por isso, é possível afirmar que com a aprovação do uso das vacinas em território nacional a luta apenas começou. O momento agora é de mobilização total para que a vacina chegue o mais rápido possível a um maior número de pessoas. A nossa vida depende disso. A economia depende da imunização em massa da população. Da mesma forma, somente uma vacina fará com que não tenhamos mais que acompanhar, por curiosidade, informação ou dever do ofício, dia após dia, os repulsivos números de uma contabilidade formada, antes de tudo, por sonhos, paixões, qualidades e defeitos abreviados. Uma contabilidade alimentada por almas.

E ao falar de perdas, tenho que registrar aqui a tristeza pela despedida, nesta semana, do amigo Gercei Camillo, mais uma vítima fatal da Covid-19 em Santa Maria. Infelizmente, não deu tempo da vacina chegar ao braço dele. Por isso, esse singelo texto aqui, que é carregado de esperança em dias melhores, é dedicado a grande figura humana que foi o Camillo. Para proteger, de fato, as diversas vidas queridas e especiais que estão ao nosso redor, só há um caminho seguro além da prevenção cotidiana: vacina para todos e todas. Vacina é saúde, é vida, é alegria de volta.

*Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria. Também é Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Duplicação da RSC-287.

Crédito da foto: Torstensimon / Pixabay

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