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Trump não é um problema só dos americanos, é também do mundo – por Carlos Wagner

Seja lá qual for o destino do presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicano), a história dele deixa um rastro sobre o qual vamos escrever a respeito por muitos anos. No dia 20, ele será substituído no cargo pelo democrata Joe Biden, que o derrotou nas eleições de novembro passado. Na quarta-feira (06/01), ele incentivou vários grupos de radicais de extrema direita e seguidores da teoria da conspiração a invadirem o Capitólio, em Washington (D.C.), causando uma lambança que resultou em cinco mortes e um espetáculo que ficará por muitos anos na lembrança das pessoas ao redor do mundo – há farto material na internet. Por que digo que Trump não é problema só dos americanos, mas do mundo? Não é por serem os Estados Unidos a principal potência militar e econômica do planeta. É que por motivos que na sua grande maioria nós jornalistas ignoramos, de tempos em tempos pessoas como ele aparecem no mundo político e causam enormes estragos. Os dois últimos foram Adolph Hitler, que ergueu a Alemanha nazista, e Benito Mussolini, que construiu a Itália fascista. Hitler e Mussolini não foram problema só dos alemães e italianos. Eles incendiaram o mundo, como conta a história.

Trump se elegeu presidente em 2016 contrariando todas as previsões feitas pelas pesquisas e analistas políticos. Venceu usando o ataque à liberdade de imprensa e a defesa das teorias da conspiração como política de governo. Nós jornalistas pensamos. Mas não escrevemos sobre as semelhanças entre ele e Hitler. O máximo que avançamos foi chamá-lo de desequilibrado e outros adjetivos. Hitler chegou ao poder graças à máquina de mentiras montada por Joseph Goebbels. Trump deve a sua eleição a uma bem articulada e moderna máquina de disparar fake news criada por um grupo de pessoas altamente especializadas na ciência da comunicação social. Qual a diferença entre as duas máquinas de mentiras? Na prática, não existe. Mas a imprensa ignorou. Mais ainda: mesmo durante a invasão do Capitólio, os noticiários não se atreveram a comparar com episódios semelhantes que aconteceram na Alemanha nazista. No meio da avalanche dos conteúdos jornalísticos produzidos existiu uma ou outra relação entre os fatos perdida no meio das notícias.

Não é uma opinião. Mas fatos relatados em comentários de colegas. A imprensa sempre tratou Trump respeitando o cargo que ele ocupava. Deixando de lado as mensagens claras passadas pelo seu comportamento, de que era uma pessoa com problemas emocionais que o tornavam um ocupante da Casa Branca perigoso para a democracia. Aqui é o seguinte. Os jornalistas ao redor do mundo acreditam que a democracia americana é aquela vendida por Hollywood. Não é. A democracia americana é uma das mais antigas e consolidadas no mundo. Mas está em permanente processo de evolução através das lutas sociais, como é o caso do preconceito contra os negros. O que aconteceu no Capitólio foi que pela primeira vez as forças que apoiam Trump se mostraram em público exatamente como são. Aliás, há um livro chamado A Mente de Adolph Hitler, que veio à lembrança quando assisti aos episódios do Capitólio. Durante a Segunda Guerra, os serviços de inteligência americanos contrataram um psiquiatra para fazer o perfil do líder nazista e dessa forma antecipar as suas estratégias nos campos de batalha. O livro é o relatório do psiquiatra.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), seguidor de carteirinha de Trump, já avisou que caso perca a reeleição em 2022 será por fraude e o que aconteceu nos Estados Unidos será café pequeno para o que acontecerá aqui. A pergunta que nós jornalistas temos que fazer: “Quem é o presidente Bolsonaro para ameaçar os brasileiros?” Graças às lambanças que o seu governo armou, os brasileiros hoje ainda não têm data para serem vacinados contra a Covid-19, que matou mais de 200 mil pessoas no país. Por todos os lados que se olhe, as confusões causadas pela maneira como o país vem sendo administrado têm causado enormes prejuízos na saúde pública, na economia e um estresse como jamais foi visto entre os brasileiros. Hoje pessoas com os nervos à flor da pele. A exemplo da imprensa americana, a brasileira dá de manchete qualquer absurdo dito por Bolsonaro. Claro. Tecnicamente, se o presidente falou, vai para a capa do jornal. Mas esse procedimento precisa ser repensado. Ou vamos acabar sendo acusados de sermos cúmplices de toda essa confusão que a administração federal virou.

Para arrematar a nossa conversa. Eu sou defensor de que nos cursos de jornalismo a cadeira de história tenha a mesma importância que as técnicas que ensinam a escrever. Por quê? Dentro do atual volume de informações que passam minuto a minuto pelas mãos dos jornalistas é essencial que se tenha referências históricas para se saber com o que estamos tratando. Sempre que um repórter não tem o suporte da história para avaliar as informações que tem nas mãos, existe uma grande possibilidade de que seja irrelevante para o seu leitor. Há muita coisa que desconhecemos sobre Trump. Precisamos fazer um mergulho na vida dele para saber exatamente com quem lidamos.

*Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

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