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A falta de consciência cidadã em relação à pandemia – por Michael Almeida Di Giacomo

“Sim, as pessoas estão cansadas. A pandemia irá durar tempo ainda”. Então…

Ao sair de casa, desde o início da pandemia, faço uso da máscara facial. No início, lá por abril de 2020, não havia, de forma ostensiva, uma orientação das autoridades sanitárias para que as pessoas fizessem o uso da máscara de forma rotineira.

No primeiro trimestre pandêmico, as dúvidas sobre a forma de transmissão e disseminação do vírus eram muitas. Na minha opinião, esse foi um dos elementos a contribuir para a falta de consciência em relação à importância de autoproteção que a máscara nos proporciona.

Aos poucos, os mais atentos passaram a não abrir mão da proteção facial. No inverno pareceu ser mais tranquilo. O incômodo era menor.

Mesmo assim, com a crescente onda negacionista a tomar conta de parte da sociedade, não só no Brasil mas também em outros países, muitos municípios passaram a prever a aplicação de multas pecuniárias às pessoas que não fizessem o uso da máscara em lugares públicos abertos.

Hoje, talvez por ser verão, ou irresponsabilidade aliada à falta de empatia, há um número muito grande de pessoas que não usa a máscara ao transitar pelas ruas, ou mesmo em ambientes fechados.

Os argumentos são muitos: estou sozinho (a); vou ali colocar o lixo no contêiner e já retorno; vou só buscar a encomenda da tele-entrega. Em alguns casos, sem dúvida, há o esquecimento. Na maioria, não.

As pessoas têm plena consciência do ato, como quando vizinhos sentam na área comum dos condomínios para conversar e tomar chimarrão, na grande parte das vezes om uma só cuia a passar de mãos em mãos.

E o que mais me impressiona é o fato de alguns, ao observar que você está a fazer uso da máscara, lançam um olhar como se fossem seres superiores, imunes à contaminação. Talvez até já tenham tido a doença e, por isso, deixam aflorar o individualismo arrogante.

Neste último período de recrudescimento da pandemia, um outro fato a me chamar atenção foi a lotação dos ônibus que percorrem linhas intermunicipais.

Antes, as empresas tinham que obedecer a lotação de no máximo 50% dos lugares disponíveis. Agora, podem ter lotação máxima, mesmo em regiões sob a bandeira vermelha. Ou seja, você viaja horas em um ambiente fechado, com mais outras cinquenta pessoas.

O paradoxo é que os carros que prestam serviços via aplicativos ou os táxis, no âmbito das cidades, com assentos de quatro ou cinco pessoas, têm que estar com as janelas abertas. Devido ao forte calor do mês de janeiro, não era incomum que a regra não fosse obedecida.

Imagino o grau de dificuldade para um motorista ficar sob o sol de mais de 30 graus, em média, sem poder fechar as janelas e ligar o ar-condicionado. Nos ônibus intermunicipais, não tem problema.

Ainda no inverno, pelo desconhecimento da forma de agir do vírus, nossas autoridades alertavam para os riscos da alta transmissão durante a estação, pois as pessoas estariam mais restritas a ambientes fechados e com pouca ventilação.

Com a chegada do verão e o óbvio cansaço que as pessoas já demonstravam, face ao confinamento, a grande maioria passou a conviver mais com os seus. Literalmente, o povo saiu de dentro de casa e foi ao encontro do vírus. E foi possível perceber uma acentuada falta de atenção por parte da população nos cuidados sanitários básicos.

O resultado, pela primeira vez, é que inúmeras regiões do estado têm risco altíssimo de contaminação. Santa Maria há várias semanas está sob bandeira vermelha. E pensar que fomos uma das cidades que por mais tempo havia ficado sob a bandeira laranja.

Não adianta campanha de conscientização a dizer que as pessoas podem conviver, mas que devem seguir protocolos sanitários, que deve ser respeitado um número mínimo nos ambientes.

As pessoas não escutam.

Um exemplo, ilustrado no Blog de Miron Neto, ocorreu na cidade de Gramado, atualmente sob a bandeira preta. Na sexta-feira uma limusine chamou a atenção, pois carregava uma noiva a festejar sua despedida de solteira. Acionado o Ministério Público a alertar a Secretaria de Saúde, a festa, que no sábado iria receber cerca de oitenta convidados, foi cancelada.

As festas e aglomerações promovidas pelos jovens e adolescentes, com destaque às noites de carnaval no litoral gaúcho, são outro fator a contribuir para a disseminação do vírus. Esse tipo de atitude exterioriza uma falta de empatia do ser humano com o seu semelhante e com a própria vida econômica da sua cidade.

Isso pois o crescente número de contaminados leva a lotação dos hospitais. Por consequência, o poder público acaba por decretar restrições de convivência que, por óbvio, afetam o comércio e a indústria das cidades e levam ao desemprego. É o efeito dominó.

As pessoas não se importam.

E nesse caso das festas e aglomerações fica uma pergunta bem simples: esses jovens não têm pais? As famílias não conversam sobre o que está acontecendo a sua volta?

É surreal pensar que um ser humano, por mais jovem que seja, não se importe com os mais idosos da sua família ou com seus semelhantes.

Sim, as pessoas estão cansadas. A pandemia irá durar tempo ainda. E falta consciência cidadã de responsabilidade coletiva.

Quem sabe com a proximidade do colapso do sistema de saúde no Rio Grande do Sul, as pessoas passem a dar valor a um bem maior, que é a vida.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestre em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

Nota do EditorA foto é de reprodução.

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4 Comentários

  1. Campanhas de conscientização funcionam até o paragrafo dois. Midia tradicional não reconhece porque se os anunciantes descobrissem (já descobriram) ameaçaria as finanças das empresas de comunicação. Do que se trata? Se funcionasse o ‘Big Data’ não teria fundamento. É a ‘bomba de precisão’, inteligente. Não uma ‘cluster bomb’. Sinal dos tempos, bombardeamento de informações, rostos enterrados nos smartphones.
    Consciência cidadã, responsabilidade coletiva, discurso religioso. Pertence a uma determinada seita.
    Resumo da ópera é que tocar o mundo com filosofia, metafísica, palavras bonitas, não funciona. Se ‘moral’ sozinha funcionasse (moral de quem?) direito não teria muito espaço.

  2. Negacionismo é adjetivo desqualificador. Desqualificação (coisa da ‘esquerda’ que vive inventando epítetos migrou para a ‘direita’ e deu no que deu; não adianta falar ‘vem cá bichano’ para um cusco) leva ao conflito e daí nada sai de bom.
    Irresponsabilidade ou falta de ‘endurance’ para aguentar o desconforto. Sociedade mimimi, cheia de ‘direitos’, que confunde conveniência com necessidade dá nisto. Falta de empatia é discurso religioso e a religião dos outros é melhor não discutir.
    Autoridades esperavam ondas que não vieram e tiveram que lidar com ondas não previstas. ‘Racionalizaram’ motivos, sem base nenhuma chutaram motivos.

  3. No inicio da pandemia não havia mascaras N95 suficientes disponíveis. Para não faltar onde era necessário foi amplamente divulgado que mascaras não faziam efeito. Era mentira, ferramenta antiga de controle social, assimetria de informação, já não funciona. Depois inventaram a ‘mascara caseira’. E agora falam em duas mascaras.

  4. Grosso modo, existem duas escolas. Uma defende o ser humano ‘racional’ (indivíduos ‘racionais’ formam uma sociedade perfeitamente ‘ordenada’; educação é a solução de todos os problemas). Outra a ‘natureza’, o ferramental psicológico/evolutivo/cultural não permite que o ‘racional’ vença sempre. É só olhar o que acontece para ver quem tem ‘razão’.
    Daí é necessário distinguir o argumento lógico e embasado da ‘racionalização’. ‘Pessoas estão cansadas’ de onde surgiu esta constatação? Alguém ‘adivinhou’?

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