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Em público, Bolsonaro trocou a caixa da cloroquina pela de leite condensado – por Carlos Wagner

Um absurdo grande demais para ser esquecido. Assim podem ser descritas as mortes de pacientes da Covid-19 por falta de oxigênio nos hospitais de Manaus (AM) e do interior do Pará. A grandiosidade dos fatos colocou contra a parede a política de governo negacionista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em relação à letalidade e ao poder de contágio do coronavírus, executada pelo seu ministro da Saúde, o general da ativa do Exército Eduardo Pazuello. O símbolo dessa política de governo é um kit de medicamentos sem eficácia cientificamente comprovada, entre eles a cloroquina, distribuído pelo Ministério da Saúde para ser usado preventivamente contra a Covid-19. O procurador-geral da República, Augusto Aras, abriu um procedimento de investigação sobre a falta de oxigênio nos hospitais do Amazonas e do Pará e também sobre o uso de drogas sem eficácia científica. Os senadores conseguiram reunir assinaturas suficientes para pedir uma CPI sobre a Covid-19. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também estão exigindo do governo explicações sobre o assunto. Soma-se a isso tudo um extraordinário volume de matérias diárias nos jornais nacionais e estrangeiros sobre o assunto. Qual é a estratégia do presidente para lidar com o problema? É sobre isso que vou conversar com os meus colegas repórteres e os leitores.

Independentemente das questões legais que possam tomar corpo por conta do procedimento instalado por Aras ou o real potencial de paralisar o governo que tem a CPI do Senado caso seja instalada e decole, a grande preocupação do presidente é com a sua imagem perante o público. Por quê? De todos os presidentes que o Brasil já teve, Bolsonaro é o primeiro que nasceu, cresceu e consolidou sua imagem nos noticiários dos jornais e nas redes sociais apostando na máxima do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. A cloroquina e outras drogas sem efeito do kit do Ministério da Saúde são as digitais do presidente e do ministro Pazuello nas 220 mil mortes de brasileiros causadas pelo vírus, na falta de organização que está resultando no atraso na vacinação da população e nas mortes por asfixia em Manaus e no interior do Pará. A primeira providência do presidente foi substituir a caixa de cloroquina, que era exibida por ele como se fosse um troféu nas suas aparições publicações, pela de leite condensado. Quais as vantagens para a imagem do presidente a troca da cloroquina pelo leite condensado? A droga é um símbolo em decadência devido à pressão das autoridades. O leite alçou a categoria de símbolo de energia para as tropas das Forças Armadas no final do mês passado. Era um dos itens, entre chicletes e outras guloseimas, comprados por R$ 2,2 bilhões pelo governo para distribuir entre os ministérios, sendo o principal consumidor o Ministério da Defesa.

Assim que a história explodiu na imprensa, o presidente foi almoçar em uma churrascaria em Brasília. Em um discurso, justificou os gastos e acrescentou: “O leite condensado é para enfiar no rabo da imprensa”. Na quinta-feira (04/02), falando na inauguração de um parque esportivo em Cascavel (PR), Bolsonaro mostrou uma caixa de leite condensado e lembrou, sem citar diretamente, que era para enfiar no rabo da imprensa. Ou seja: o presidente está consolidando a imagem do leite condensado como energia para as tropas militares e humilhação para a imprensa. Assisti a todo o discurso do presidente em Cascavel, cidade do oeste paranaense povoada por gaúchos. A fala dele é simples e recheada de símbolos. Por exemplo, disse que foi a “vontade de Deus que me tornou presidente”. É do jogo um presidente falar bem do seu governo. Seria um absurdo se falasse mal. Mas a maneira como Bolsonaro o faz isso é inédita. Ele mistura fake news com fatos verdadeiros e citações bíblicas como se fossem personagens de uma história com início, meio e fim. Toda a fala do presidente é composta de várias pequenas histórias.

Arrematando a nossa conversa. Tenho dito nas minhas palestras e conversas com colegas e leitores que é necessário esmiuçar o discurso do presidente para entender como as coisas funcionam dentro das quatro paredes do governo federal. Esse conhecimento aumenta a precisão das matérias. Lembro que hoje, pelo conhecimento que possuímos, fazer qualquer previsão sobre o futuro dos acontecimentos é dar um tiro no escuro, porque a velocidade com que as coisas acontecem nas entranhas do poder é tal que se assemelha a uma montanha-russa. O que já temos como certo. Bolsonaro concentra todo o poder nas suas mãos. Nada acontece dentro do governo sem a sua autorização. E quando acontece, ele boicota. O Brasil é um país muito grande e complexo. Não tem como concentrar tudo na mão de uma só pessoa. Mesmo que cercada por ministros que são simples executores da vontade presidencial, como é o caso no atual governo. Na prática, a administração federal está emperrada. E o resto é a confusão de todos os dias. Ou seja, uma nova surpresa a cada dia. Hoje é o leite condensado no lugar da cloroquina. Amanhã, vamos descobrir amanhã.

*Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner. Crédito da foto: Reprodução

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