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Produção de oxigênio hospitalar no Brasil consegue aguentar o galope da Covid? – Por Carlos Wagner

Eis uma pergunta que precisa ser respondida com exatidão, escreve o repórter

A crise da falta de oxigênio hospitalar de Manaus, no Amazonas, vai se repetir no resto do Brasil?(Foto Reprodução)

O aviso veio do desesperado prefeito de uma pequena cidade agrícola do interior do Rio Grande do Sul. Na segunda-feira (22/02), Jocemar Bardon, prefeito de Boqueirão do Leão, falou na Rádio Gaúcha que havia faltando oxigênio hospitalar para atender os pacientes infectados pela Covid-19 do Hospital Doutor Anuar Elias Aesse, o único na cidade de 7,5 mil habitantes que se orgulha de ser “um pedacinho da Itália” nos meses de abril, quando realiza a Festa da Polenta.

O problema do oxigênio foi resolvido e o excesso de pacientes foi distribuído pelos hospitais das cidades vizinhas. Durante a conversa, o prefeito disse que até dezembro só havia aparecido um paciente infectado pelo vírus na cidade. E a proliferação atual está acontecendo porque várias famílias viajaram para o Litoral e levaram a doença para lá. Para evitar o problema, o prefeito disse que vai determinar que as famílias, quando voltarem da praia, permaneçam 15 dias em quarentena dentro de casa.

Boqueirão do Leão fica no Vale do Rio Pardo, região povoada por agricultores de classe média, a uns 120 quilômetros, por estradas asfaltadas, da Região Metropolitana de Porto Alegre, onde existe, no município de Canoas, uma fábrica de oxigênio hospitalar. Depois do que aconteceu em Manaus (AM) e no interior do Pará acende-se um alarme na cabeça dos repórteres sempre que ouvem alguém reclamar de falta de oxigênio hospitalar. Claro, eu não sou exceção, e é sobre isso que vamos conversar.

Os números sobre a enorme pressão que o aumento dos casos de Covid está fazendo sobre a estrutura hospitalar em 16 estados estão disponibilizados pelo Consórcio da Imprensa da Covid-19. Esses estados são justamente os mais populosos do Brasil, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Usando o linguajar do gaúcho, a Covid vem avançando em um “galope de rédeas soltas” – rapidamente. Vasculhei a maioria do material que publicamos – jornais (papel e site), rádios, TVs e outras plataformas sobre o atual consumo brasileiro de oxigênio hospitalar, a capacidade nacional de produção própria e os estoques. Encontrei algumas matérias, a maioria sobre o que aconteceu em Manaus (AM) e no interior do Pará, onde pacientes infectados pelo vírus morreram asfixiados por falta de oxigênio hospitalar.

Liguei para vários colegas nas redações para conversar sobre o assunto, entre eles um jovem repórter que virou pauteiro, de quem ouvi o seguinte: “Tá, eu ligo pra quem?”. Eu pensei. Há pouco tempo era só ligar para o Ministério da Saúde e descobrir com a assessoria de imprensa quem cuidava do assunto. Se o técnico encarregado do problema não soubesse toda a informação, ele dava o “caminho das pedras” para consegui-la.

Hoje o Ministério da Saúde está mergulhado em uma enorme confusão administrativa. O ministro da Saúde, o general da ativa do Exército Eduardo Pazzuello, encheu a pasta de militares e os funcionários de carreira foram jogados para um canto. Não foi por outro motivo o que aconteceu em Manaus.

Portanto, as informações oficiais do Ministério da Saúde são difíceis de serem acessadas pelo repórter, além de perigosas, por serem imprecisas. Antes de seguir com a história. Um esclarecimento para quem não é jornalista. Pauteiro é o cara na redação que organiza a lista dos assuntos que serão notícia. Seguindo com a história. Antigamente o pauteiro pediria para um repórter auxiliá-lo na busca das informações. Hoje não é possível, porque as redações demitiram em massa e os repórteres estão atulhados de pautas.

Para se ter uma ideia precisa sobre o assunto e para bem informar o leitor torna-se necessário ligar para as entidades de classe dos produtores de oxigênio e para as secretarias municipais e estaduais da saúde e rezar para encontrar alguém, de preferência um pesquisador, que tenha uma ideia da abrangência nacional do problema. Considerando as dimensões continentais do Brasil.

Organizar essa pauta é uma tarefa gigantesca. Mas as informações sobre o assunto são fundamentais para o nosso leitor. Então, como proceder? Nós repórteres temos duas maneiras de tratar esse assunto. A primeira é se sentar em um boteco, encher a cara e falar mal do editor que fez vistas grossas para a pauta. A segunda, que no meu entendimento é o certo, é nos organizarmos e fazermos a matéria.

Vou contar uma historinha (velhos repórteres estradeiros são cheios de histórias). Um dos focos da minha carreira são os conflitos agrários. Sempre que acontecia um confronto entre índios e garimpeiros clandestinos nos distantes rincões do Brasil, o fato atraía a atenção de jornalistas de vários cantos do Brasil e de outros países ao redor do mundo.

Nós tínhamos duas saídas. Ou nos matávamos correndo, cada um, para todos os lados atrás de informações, enfrentando toda espécie de dificuldades devido à carência de estrutura de comunicação – sem telefone, internet e com estradas ruins. Ou se “usava a cabeça” e formava-se uma espécie de “consórcio não oficial” entre os repórteres.

Dividia-se o problema por setores e cada um ficava responsável por aquela parte. Antes de redigir a notícia, trocávamos as informações. Atenção. Não faziam parte do acordo as “informações exclusivas”. Só as básicas, como a cronologia dos fatos. Voltando à nossa conversa.

Se o galope do vírus aumentar ainda mais nesses 16 estados, vai ter oxigênio hospitalar para todo mundo? Essa é a pergunta que precisa ser respondida com exatidão. O momento que as redações vivem exige uma mudança na maneira de pensar dos diretores, dos editores e de outros cargos de mando no jornal. Os repórteres são jovens, mal pagos, com uma imensa carga de trabalho (fazem texto, foto, vídeo e áudio).

O governo federal, além de desorganizado e hostil para com a imprensa, espalha fake news. A emergência sanitária se complica a cada dia porque as mutações do vírus aceleram a rapidez do contágio. As vacinas chegam a conta-gotas. E os leitores precisam urgentemente de informações precisas para conseguir sobreviver no meio dessa confusão.

Não sei como os diretores e editores das empresas de comunicação vão descascar esse enorme abacaxi. Mas os empregos deles dependem disso. Já nós repórteres vamos precisar nos superar. Não pelos diretores e editores. Mas pelo nosso compromisso com o leitor e a sobrevivência do nosso nome profissional.

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 (*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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5 Comentários

  1. Um presidenciável a meses atrás disse a Bibo Nunes que ele deveria tratar-se psicologicamente. Porque de cada 3 frases em uma ele cita a Venezuela. Fixação. Se a cada pensamento é citado um comuna, ou vermelho, ou algo que o valha já virou obsessão. Há que se rever valores e conceitos.

  2. Bueno. Realmente o SUS não é o”melhor do mundo”. Utopia. Mas quem critica, provavelmente vai apresentar soluções para melhorá-lo ou fechar de vez. De outra parte acho que melhorou. Antes era um cabo, um jipe e um soldado. Agora temos mais uma dúzia de brigadianos. Ordem, disciplina e “pogresso”. Amém.

  3. Mas nem tudo é noticia ruim. Os editores, jornalistas repórteres e pauteiros serão substituídos por aplicativos de celular. Solução é a inteligência artificial.

  4. Antigamente era bem possível que houvesse um funcionário de carreira com tempo disponível para atender demandas de qualquer mané que ligasse para lá. O que acontece atualmente são os vermelhinhos tentar desgastar a imagem do ministro e dos militares atribuindo todo e qualquer problema aos mesmos. Até a parente vermelhinha do sargento que nunca conseguiu prender o Zorro está na ‘dança’. Só ignoram uma coisa. Internet lembra de muita coisa. Abril de 2016, manchete, ‘Gripe H1N1 já provocou 153 mortes no país’; maio de 2016, ‘Falta vacina contra gripe em pelo menos seis estados do pais’. Ainda 2016 ‘Falta de vacinas gera reclamações na saúde, Saude prorroga campanha de imunização’. Destas o estoque está cheio. Quem era presidente? Dilma, a humilde e capaz. Quem era ministro da saúde pela época? Marcelo Castro, médico. Cargo ficou vago por um tempo e depois foi ocupado por Gilberto Occhi, advogado. SUS ‘que é o melhor do mundo’ com ‘o melhor sistema de imunização do mundo’. Quando alguém fala em ‘melhor do mundo’ a respeito de alguma coisa no Brasil já se sabe que está mentindo na cara dura.

  5. Oxigênio não deve faltar porque o pico não foi atingido em muitos lugares ao mesmo tempo. Basta não concluir as 17:30 que vai faltar às 18 horas. O que se vê é porta arrombada tranca de ferro. Economia do litoral merecia ser protegida e muita coisa que uma dúzia de brigadianos resolveria facilmente não foi. Agora o RS todo paga a conta. Errado não é a ‘falta de consciencia’, errado é a burrice de achar que ela não deveria existir (logo não existe).

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