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Como a vida, a educação também depende da vacina – Por Valdeci Oliveira

“Cenário que se apresenta nas últimas semanas nos mostra um quadro grave”

Não adianta colocar o carro na frente dos bois, diz o dito popular, para de forma simples e direta explicar – e buscar entender – a ordem natural das coisas.  Impor o reinício das aulas presenciais como quer o governo estadual sem antes vacinar todos os professores e funcionários de escolas, é jogar uma significativa parcela da população ao risco, cada vez mais grave, da contaminação e a consequente transmissão do vírus pandêmico. 

Segundo a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), responsável pela ação impetrada na última quarta-feira (3), no Supremo Tribunal Federal (STF), para derrubar a liminar que suspendeu esse retorno enquanto perdurar a chamada bandeira preta no estado, os protocolos adotados no território gaúcho com base no que é determinado pelo governo estadual em relação ao distanciamento controlado são “bastante rigorosos” e as escolas estão com condições de oferecer toda a segurança sanitária à comunidade escolar. Isso é sério?

Usar tais argumentos no momento em que a população gaúcha assiste todo o sistema público e privado de saúde entrar em colapso, as UTIs ficarem sem vagas e as mortes – muitas delas ocorrendo em casa ou nas filas de espera por um leito – aumentarem mais de 100% em fevereiro quando comparadas com os 30 dias anteriores é debochar da inteligência alheia e da dor de quem está lutando pela sobrevivência e de quem, inclusive, perdeu um ente querido.

Recorrer à Suprema Corte após sofrer uma derrota no Tribunal de Justiça do Estado, mesmo que seja para um retorno de parte do contingente estudantil, principalmente quando estamos vivenciando a transmissão comunitária da chamada P1, a variante mais transmissível e com carga viral dez vezes maior, é dialogar com a anticiência e fazer coro ao discurso e a prática cruel e desumana da gestão que hoje comanda o Palácio do Planalto. E isso é tudo o que não precisamos neste momento. Muito pelo contrário. O cenário que vem se apresentando nas últimas semanas, cujos sinais foram negligenciados por quem tem a caneta e o poder de mando, nos mostra um quadro grave, de falência do atendimento e internações médicas, de exaustão dos profissionais de saúde e de um futuro nada promissor se não houver uma mudança urgente no comportamento da sociedade e de muitos gestores.

O fato é que as escolas já não estavam preparadas antes desse recrudescimento e continuam não estando preparadas agora, segundo inúmeros relatos e constatações feitas nas nossas unidades educacionais públicas. Se nos últimos meses, o risco era alto na maioria das regiões Rio Grande a fora, neste momento, ele é altíssimo.

Esse desejo insano de dar uma resposta a alguns setores econômicos vai na contramão do que advogam os Conselhos  Nacional de Saúde (CNS), de Secretários de Saúde  (CONASS), de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), da comunidade científica e dos representantes dos trabalhadores em educação que praticamente estão implorando não só por vacina, mas pela adoção de regras mais duras para a contenção e controle da mobilidade social como forma de frear o que já vinha se apresentado como grave.

A cada dia que passa batemos recordes nos números de diagnósticos positivos e de óbitos e definidamente não podemos fechar os olhos para tamanho perigo sob o risco de nos tornamos contribuintes de uma tragédia posta e anunciada. Mesmo assim, o governo parece ter feito sua escolha. E diante dela a entidade máxima de representação dos professores e professoras gaúchas, o CPERS, classificou a postura do governador como “surreal”, que fala bonito para as câmeras enquanto sua PGE atua a favor do negacionismo e do caos enquanto corpos estão sendo empilhados em containers refrigerados, uma vez que os necrotérios chegaram ao limite máximo de suas capacidades. Aliás, foi o CPERS e a Associação Mães e Pais pela Democracia que ajuizaram a ação civil pública que resultou na suspensão da volta às aulas na bandeira preta.

Senhor governador, assim como a economia, a educação somente voltará aos trilhos da sensatez se aqueles que a produzem e dela participam forem imunizados. Caso contrário todo peso dessa lida será mensurado em mais dor e sofrimento para uma sociedade que já chegou ao seu limite e vem assistindo, dia após dia, a vida derretendo diante dos seus olhos.

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria. Também é 1º Secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa e Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Duplicação da RSC-287.

Nota do Editor: a imagem que ilustra esse texto é uma reprodução da internet.

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