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O ano 01 da peste no Brasil – por Leonardo da Rocha Botega

“21 de fevereiro: Ao regressar de Lisboa, uma cena inesperada no aeroporto de Bolonha. Na entrada estão dois homens completamente cobertos com um traje branco, com um capacete luminescente e um aparelho estranho nas mãos. O aparelho é uma pistola termômetro de altíssima precisão que emite luzes violetas por todas as partes. Se aproximam de cada passageiro, os abordam, apontam a luz violeta a sua frente, controlam a temperatura e logo o deixam ir. Um pressentimento: estamos atravessando um novo limite no processo de mutação tecnicopsicótica?”

Com esse relato, o filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi inicia a sua “Crônica da Psicodeflação”, uma espécie de diário, onde narra e analisa os primeiros dias de sua experiência diante da Pandemia do Novo Coronavírus. Seu pressentimento, apesar de dar a ideia de uma surpresa, perpassava a mente de muitas pessoas que refletiam um misto de apreensão e desconhecimento, desde as primeiras notícias da presença do novo vírus em Wuhan, na China. Um sentimento que foi ganhando intensidade na medida em que o caos sanitário se instalava em países como Itália e Espanha. A questão que perturbava os diversos cantos do mundo era: quando “a peste” chegará aqui?

No Brasil, o primeiro caso registrado ocorreu em 26 de fevereiro de 2020. No mesmo dia, o Ministério da Saúde comunicava que o país possuía pelo menos mais vinte casos suspeitos espalhados por quase todas as regiões. Em sua declaração, o então ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou que “já era esperada a circulação do vírus, mas que, diferente dos demais países com transmissão, o Brasil ainda não está no inverno – período em que há maior risco de contágio”. O futuro demonstraria o equívoco desta relação clima-propagação do vírus. Em 12 de março o país registrava a primeira morte por Covid-19. Um dia antes, a Organização Mundial da Saúde declarou que a transmissão da doença havia se tornado global e anunciou como uma situação de Pandemia. O mundo entrava em “curto-circuito”, como muito bem definiu a economista Laura Carvalho.

O “curto-circuito” encontraria um Brasil que dançava a beira do abismo social. Em fevereiro de 2020, último mês antes da Pandemia, a taxa de desemprego havia registrado 11,6%, dando sequência a uma tendência de crescimento evidenciada no segundo semestre do ano anterior. Em novembro de 2019, a extrema pobreza, que vinha subindo desde 2015, já atingia 13,5 milhões de pessoas. No maior polo industrial do país, São Paulo, 2.325 indústrias de transformação e extrativas haviam fechado as portas nos primeiros cinco meses daquele ano. Em outubro de 2019, o número de trabalhadores precarizados batia o recorde da série histórica do IBGE. Cerca de 11,9 milhões de pessoas trabalhavam sem carteira assinada ou qualquer tipo de direito, demonstrando que a ideia vendida pelo mainstream econômico de que com a Reforma Trabalhista a vida iria melhorar não passava de mais um engodo.

Para piorar a situação, no plano político “a peste” encontrou um país aguçado por falsas polarizações, instituições capturadas por corporações que burlavam regras jurídicas na determinação de exterminar adversários políticos e uma esfera pública-política idiotizada e robotizada por produtores de Fake News. Em síntese, a democracia vivia (e ainda vive) em frangalhos. Essa soma de situações caóticas exigia, no mínimo, uma sinalização de pactuação política diante do pior: uma doença que em junho de 2020 já atingia um milhão de pessoas, levando 50 mil brasileiros e brasileiras ao óbito.

Obviamente, pactos políticos só são possíveis quando os grupos políticos adotam uma postura de pacto abrindo mão de suas perspectivas de poder em prol de algo maior. Foi assim na Segunda Grande Guerra, quando liberais, sociais-democratas, socialistas e comunistas, abriram mão de diferenças ideológicas para derrotar o Nazi-fascismo. Foi assim quando Frederik de Klerk e Nelson Mandela negociaram o fim do apartheid na África do Sul. Foi assim em tantas outras experiências históricas vivenciadas, sobretudo, ao longo do breve e conturbado século XX.

No Brasil, ao invés da disposição para um pacto momentâneo, o vírus encontrou um país governado pelo avesso a qualquer disposição de pactuar. Em menos de um mês, dois ministros da saúde pediram demissão, antigos aliados romperam com o presidente da República e foram alçados à condição de “novos inimigos”, se tornando os novos alvos das máquinas de destruição da democracia comandas pelo bolsonarismo. No campo econômico, o tom de um carcomido ultraliberalismo seguia a todo vapor, mesmo com o mundo declarando que o caminho é outro.

Um tom marcado pelas afirmações “nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos para salvar grandes companhias” e “vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas”, feitas em uma surreal reunião onde os ministros e o presidente indicavam que era a hora de “passar a boiada” nos direitos sociais. O resultado desse tom são milhares de empresas “pequenininhas” quebrando, enquanto o setor financeiro enche os bolsos. Enquanto os bancos recebiam R$ 1,2 trilhão do Banco Central nos primeiros meses pandêmicos, um auxilio emergencial de míseros R$ 600 foi garantido graças aos senadores e deputados, sobretudo da oposição, que não aceitaram os indígnos R$ 200 propostos pelo governo.

Conduzido no avesso da necessidade de um pacto político, sem uma política de saúde coordenada nacionalmente, sem um Plano Nacional de Vacinação, sem um Plano Nacional de Recuperação Econômica e com um sistema de saúde em colapso, um ano após o primeiro caso confirmado de infecção, o Brasil vive um cenário alarmante. Vivemos a sensação de que estamos entregues à própria sorte (muitos famintos), assistindo carreatas que revelam a incontenção da pulsão de morte em um país que, mesmo tendo apenas 2,75% da população mundial, fechou o seu “ano 01 da peste” com 17% dos óbitos mundiais pela Covid-19. Mais de 250 mil mortes nos alertando: cuidem-se, cuidem de quem vocês amam! Precisamos sobreviver!

*Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Crédito da foto: Elliot Alderson / Pixabay

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3 Comentários

  1. Os bancos não ‘receberam’ 1,2 trilhão do BC. A instituição reduziu o compulsório. Se uma pessoa depositar 100 reais em qualquer banco ele não pode ficar com tudo. É obrigado a depositar uma parte no BC devido ao efeito multiplicador da moeda.
    Negocios pequenos e médios inviáveis irão quebrar não importa o que se faça. Não adianta auxilio, ninguém joga dinheiro no lixo porque não existe almoço grátis.
    Resumo da ópera: a ‘economia’ dos vermelhinhos não funciona e nunca vai funcionar; vide Dilma, a humilde e capaz, et caterva, quebrou o pais. Além disto não tem a menor ideia de como funciona o sistema. As ferramentas para ‘influenciar’ a opinião publica são sempre as mesmas, mentiras, meias verdades, teorias da conspiração, invencionices e exploração da ignorância.

  2. Quem ficou famoso com o alerta numa palestra TED? Bill Gates. Começou a programar lá pelos 13 anos, surfou na onda da Internet, ficou rico vendendo software podre. É mais disciplinado do que inteligente. Não quer dizer que seja burro. Antes de largar a faculdade de Harvard cursou a famosa Math 55, quatro anos de curso em dois semestres.
    Questão toda é a utilização da imagem, tentar vender uma realidade que não existe. Bill Gates (e Elon Musk, e outros) não é santo.

  3. Regularmente pelo planeta existem ciclos de palestras chamados TED. Até na aldeia saiu uma edição. Em janeiro de 2007 um epidemiologista chamado Larry Brilliant ministrou a dele. Começa falando que foi privilegiado de certa forma, assistiu o ultimo óbito por varíola no mundo, doença que passou a vida combatendo. Venceu um câncer e correu o mundo ajudando os outros. No falatório faz o alerta sobre as pandemias. Surtiu efeito? Não.

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