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Tudo tem um começo – por Bianca Zasso

O dito espectador comum, aquele que vai ao cinema muitas vezes mais pela pipoca e pela ilusão de duas horas longe das agruras do mundo, costuma não se dar muito bem com filmes “sem respostas”. Se todos os acontecimentos da trama, e até os mais simples diálogos, não deixarem claro o porquê das coisas estarem acontecendo, não é uma boa história. Quem nunca saiu do cinema e, naquela saudosa aglomeração para deixar a sala, escutou algo como “não entendi nada” ou “afinal, o que aconteceu?”. Se o prezado leitor desta coluna não se enquadra neste perfil, informo que a experiência de assistir Beginning, longa da georgiana Dea Kulumbegashvili será bastante intensa.

Indicado para representar a Geórgia na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar deste ano insólito que é 2021, Beginning chama a atenção desde o primeiro plano. No que parece ser mais um domingo de fé em uma comunidade de Testemunhas de Jeová, onde o pastor e sua esposa Yana (Ia Sukhitashvili) recebem os fiéis com simpatia e discrição, é interrompido por um incêndio. Um coquetel molotov arremessado dentro do templo causa correria. Quem está por trás do crime é o que menos importa. O fogo que toma conta do local é o primeiro sinal da história que será contada. E, assim como as labaredas difíceis de conter, passa diante de nossos olhos em um ritmo pouco visto nos últimos tempos no cinema.

Yana, que além de esposa do líder religioso da comunidade atacada é também responsável pela educação religiosa das crianças do lugarejo onde mora, é uma incógnita. Uma protagonista misteriosa e, por isso mesmo, sedutora. Mas não uma sedução comum. A cada aparição sua (e o rosto da atriz é poderoso para exibir cada uma dessas camadas de luz e sombra da alma) o espectador descobre detalhes, sempre incompletos, sobre seu passado e, em especial, seu futuro. A destruição do templo destruiu também um muro que havia dentro de Yana. Em uma hora e meia, Beginning consegue nos prender neste muro e desejar superá-lo tanto quando a personagem principal. A diretora Dea Kulumbegashvili já havia mostrado um modo singular de usar a câmera em seus trabalhos no formato curta-metragem e a possibilidade de construir uma trama com mais duração parece ter aflorado este talento. As ações acontecem diante da câmera e os poucos movimentos feitos pelo equipamento são precisos: mostram o que é necessário.

Sem floreios ou arroubos estéticos. A fotografia e a direção de arte mostram que não existem cores vivas na rotina de Yana, mas isso não significa que seu interior é silencioso. Numa das mais belas cenas do longa, Yana deita-se no meio de uma floresta, fecha os olhos e simplesmente respira. A luz do sol, o vento nas folhas, os barulhos comuns da natureza. É o que temos. É o que ela tem e parece querer naquele momento. Aos sedentos de explicações, pode parecer um momento em que nada acontece. Mas para quem sabe que Beginning é uma experiência, é o instante mais poderoso da protagonista. Expor mais do que isso da trama seria estragar a potência do espetáculo preparado pela diretora e sua equipe.

A destruição silenciosa causada pelo patriarcado. Esta poderia ser uma boa definição para o filme da jovem Dea. Mas é apenas a ponta do iceberg. A maternidade compulsória, a síndrome da impostora e até o controle sobre o que é ou não uma sexualidade saudável estão entre as muitas nuances de Beginning. Todas temáticas densas e, o que é melhor, não exploradas na sua totalidade. Disponível na plataforma streaming Mubi, logo após o filme, podemos conferir uma conversa entre a diretora e o cineasta Luca Guadagnino, presidente do júri do Festival de San Sebastián, onde Beginning ganhou três prêmios. Um papo que traz ainda mais encanto para o espectador e aquela vontade de voltar e rever o filme com o coração em outra cadência. É um novo começo. Algo que todos deveríamos ter direito. Ou, pelo menos, a possibilidade de olhar para trás e nos entendermos de outra forma.

Beginning
Ano: 2020
Direção: Dea Kulumbegashvili
Disponível na plataforma Mubi

*Bianca Zasso, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009. Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.

Crédito das fotos: Divulgação.

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