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Carta de Bolsonaro é uma ofensa à inteligência do seu colega americano Joe Biden – por Carlos Wagner

O conteúdo das sete páginas de uma carta enviada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para seu colega americano Joe Biden (democrata) parece um texto sobre o Brasil extraído da internet pelo método copia e cola, também conhecido como “Ctrl+C, Ctrl+V”. O que interessa na carta para o governo dos Estados Unidos é um parágrafo de três linhas com o compromisso do governo brasileiro de zerar o desmatamento ilegal até 2030. A carta foi enviada a Biden porque nos próximos dias 22 e 23 Bolsonaro será um dos 39 chefes de governo que participarão, de maneira virtual, da Cúpula de Líderes Sobre o Clima, que este ano está sendo promovida pelos Estados Unidos. O clima é uma das principais bandeiras políticas do governo Biden. E a devastação da Floresta Amazônica é uma das marcas registradas do governo Bolsonaro. Não é por outro motivo que Biden já ameaçou o Brasil com sanções econômicas caso não reveja a sua política ambiental. Pelo mesmo motivo, líderes europeus têm ameaçado boicotar a compra de produtos do agronegócio brasileiro. A Cúpula de Líderes Sobre o Clima é uma oportunidade de Bolsonaro explicar aos americanos e europeus os seus compromissos com o meio ambiente.

Por que digo que a carta de Bolsonaro é uma ofensa à inteligência de Biden? No minuto seguinte ao que tomou posse, o presidente começou uma operação sistemática de desmonte do aparato de fiscalização dos órgãos ambientais. Um a um foram boicotados pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, homem que se tornou o símbolo da devastação da Floresta Amazônica. O então superintendente da Polícia Federal do Amazonas, delegado Alexandre Saraiva, fez uma queixa-crime contra Salles no Supremo Tribunal Federal (STF) denunciando o envolvimento do ministro com quadrilhas de madeireiros clandestinos. Saraiva, um policial linha dura e altamente especializado em questões ambientais, perdeu o cargo por conta da denúncia. Além de tudo isso, Salles, a mando do presidente da República, perseguiu e expulsou do território nacional organizações não governamentais que havia muitas décadas estavam instaladas na Floresta Amazônica lutando pelos direitos dos índios e na preservação do meio ambiente. Em dois anos de governo Bolsonaro, o Brasil migrou de uma posição de respeito no mundo em assuntos ambientais para a de devastador. Bolsonaro quer que os Estados Unidos ajudem com dinheiro o seu governo a desmontar a máquina de devastar a floresta que está funcionando a todo vapor.

Biden sabe quem é Bolsonaro. Achar que ele vai levar a sério o conteúdo da carta é ofender a inteligência do presidente dos Estados Unidos. Inclusive, 15 senadores democratas exigiram que Biden coloque as cartas na mesa e exija um maior compromisso do governo brasileiro com a preservação ambiental. Por que os senadores estão fazendo essa exigência? Bolsonaro se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal até 2030. OK? Qualquer pessoa medianamente informada sobre as questões ambientais brasileiras sabe que as leis, portarias e medidas legais que regulamentam o setor estão sendo derrubadas uma a uma pelo ministro Salles. O que é ilegal hoje pode ser legal na próxima semana. Mais ainda: caso o presidente brasileiro seja reeleito em 2022, ele governará até 2026. Por que se comprometeu a resolver o problema até 2030? Acredita que elegerá o seu sucessor? O que vou dizer não é opinião. Vou lembrar fatos que já publicamos. A base eleitoral do presidente nos estados do Pará, Rondônia, Roraima, Amazonas, Acre e Amapá são os madeireiros clandestinos, os grileiros de terras públicas e os garimpeiros. Nos outros estados da região, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás, são os plantadores de soja e os criadores de gado, o coração do agronegócio do Brasil. O problema do presidente é o seguinte. Se pegar pesado com os devastadores, principalmente os garimpeiros e madeireiros, perde apoio político e centenas de votos. Se não pegar, americanos e europeus vão prejudicar o agronegócio. Lembro que o governo do Mato Grosso está com uma publicidade nos meios de comunicação dizendo que produz sem prejudicar a natureza. Se o presidente continuar fazendo vistas grossas para as reclamações do agronegócio perderá apoio político e, com isso, alguns milhares de votos. Como o governo está solucionando o problema? Perante Biden e os líderes europeus, como Emmanuel Macron, presidente da França, e Angela Merkel, chancelar da Alemanha, se diz comprometido com o meio ambiente. Enquanto isso, o seu ministro do Meio Ambiente faz o serviço sujo, defendendo os interesses dos devastadores da Floresta Amazônica, como denunciou o delegado federal Saraiva.

A situação de Bolsonaro no cenário internacional é complicada. Vejamos. Hoje, graças ao negacionismo do presidente da República em relação ao poder de contágio e letalidade da Covid-19, estão morrendo mais de 3 mil brasileiros por dia, num total que já soma mais de 340 mil. A política do governo em relação à pandemia é genocida. Vem aí a CPI da Covid-19 no Senado. À questão sanitária soma-se a política de devastação da Floresta Amazônica praticada pelo governo federal. Além da derrubada da floresta, tribos inteiras de índios estão sendo dizimadas pelos garimpeiros. Madeiras nobres, ouro, diamantes e outros metais preciosos são extraídos ilegalmente do território brasileiro e inundam os mercados ilegais ao redor do mundo. Quem vai acreditar de uma hora para a outra que o presidente do Brasil virou defensor do meio ambiente? Biden? Duvido.

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

*O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner. Crédito da foto no topo da página: Agência Brasil / Arquivo.

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Um Comentário

  1. Problema primeiro é afirmar que Biden ainda tem algum nível de inteligência. Segundo, não é assim que funciona. Cavalão não escreveu a carta e Biden provavelmente não vai ler. É coisa de segundo ou terceiro escalão.
    Terceiro, Biden tem problemas internos, gastos faraônicos, impostos para majorar. Democratas da Camara deles apresentou esta semana proposta para aumentar os juízes da Suprema Corte, de 9 para 13. Ou seja, como em toda republica bananeira um golpe.
    Quarto, Putin convocou noutra semana mais de 100 mil reservistas e existe concentração de tropas na fronteira com a Ucrania. Um diplomata ucraniano foi preso na Russia acusado de espionagem. Putin expulsou 10 diplomatas americanos.
    Quinto, década de 70 já acabou, quem tiver alguma familiaridade com idiomas pode ler a imprensa estrangeira sem precisar de intermediários.
    CPI da Covid tem como relator Renan Calheiros. Para a esquerda um exemplo de honestidade e retidão. Conclusão da CPI: Cavalão é culpado, não se sabe bem do que, mas é.

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